Mota-Engil vai investir 100 milhões em projetos de captura de carbono até 2030

Desde projetos de florestação até à produção de carvão com alto teor de carbono, a Mota-Engil, através da BCircle, está a apostar em projetos ligados à captura de carbono.

A Mota-Engil está a investir no carbono como negócio. As duas apostas mais recentes incluem a plantação e gestão de florestas habilitadas a integrar mercados de carbono, assim como a produção de biochar, um carvão com elevada concentração deste elemento químico. Em conjunto com a BCircle, o braço para os projetos de carbono, a Mota-Engil vai investir 100 milhões de euros até 2030.

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“Nós estamos a analisar, numa base permanente, aquilo que são as tecnologias que têm vindo a surgir no mercado, numa fase mais embrionária”, afirma José Pedro Freitas, CEO da Mota-Engil Capital. E foi por isso que há cerca de três anos foi tomada a decisão de avançar com a produção de biochar: um carvão com elevada concentração de carbono.

O projeto deverá arrancar em Portugal “nos próximos meses”. A instalação de infraestrutura está projetada para ser iniciada ainda este ano, embora a produção efetiva esteja planeada apenas para 2027. O objetivo é, nos próximos quatro anos, reunir condições para investir em oito centrais semelhantes na Península Ibérica – um investimento na casa dos 50 milhões de euros.

Nós estamos a analisar, numa base permanente, aquilo que são as tecnologias que têm vindo a surgir no mercado, numa fase mais embrionária.

José Pedro Freitas

CEO da Mota-Engil Capital

A primeira central será instalada em Boticas, já está feita a terraplanagem, depois de dois anos de licenciamento. “Um martírio”, o processo burocrático, queixam-se os responsáveis.

Em paralelo, no âmbito da BCircle, o braço da Mota-Engil para a aposta em soluções relacionadas com carbono, decorrem discussões com entidades do setor agrícola para coinvestir em biochar na América Latina, somando às oito centrais já projetadas. O arranque nunca seria antes da segunda metade de 2027 ou primeiro semestre de 2028. Contudo, não há ainda acordos fechados para a compra deste carvão, num mercado que é largo: a Mota-Engil conta estar apta a fornecer apenas 2 a 3% da procura nacional por estas soluções.

O biochar é produzido utilizando matéria orgânica, que pode ter diferentes origens, mas a Mota Engil está a trabalhar para já com biomassa florestal – no fundo resíduos florestais –, explica Augusto Junqueiro, CEO da Mota-Engil Ativ. Outras opções de matérias-primas estão a ser estudadas, dos resíduos agrícolas aos alimentares. “Há muitos resíduos ricos em carbono que podem ser utilizados para preservar esse carbono em biochar”, indica.

[O biochar] é um produto de excelência para o uso agrícola.

Augusto Junqueiro

CEO Mota-Engil Ativ

A matéria-prima é processada numa central com zero emissões de carbono e, depois de formado, o biochar pode ter diferentes destinos, como por exemplo os solos. “É um produto de excelência para o uso agrícola”, remata Junqueiro, destacando a função como fertilizante, que não implica emitir para a atmosfera. Também pode ser incorporado no betão, acrescenta. “Estes são os dois principais [destinos] que estamos a trabalhar. Mas há outras opções, inclusive na alimentação do gado”, completa o CEO da Mota-Engil Capital. “Não elimina, mas reduz a pegada carbónica”, complementa.

Este carvão também é passível de ser queimado para a produção de energia, mas perderia o direito a certificação carbónica, que é uma “linha de receita adicional” para a Mota-Engil. A central que arranca este ano estará preparada para consumir 15 mil toneladas de biomassa e produzir cerca de 3 mil toneladas de biochar.

“No sentido da eficiência carbónica nós olhamos e continuamos a olhar para todos os processos que vão surgindo de captura de carbono”, afirma Augusto Junqueiro. De um ponto de vista mais económico, este negócio pode gerar, por central, receitas de 3 milhões de euros ao ano.

BCircle planta 10.000 hectares até 2030

O negócio do biochar surgiu como complemento às atividades florestais que já eram desenvolvidas pela Mota-Engil.

No centro de Portugal, nas zonas de “Viseu Dão Lafões” e “Beiras e Serra da Estrela”, estende-se um projeto de “reflorestação, biodiversidade e incremento de fauna”, a estreia da BCircle nesta área. O objetivo é que atinja os 10.000 hectares nos próximos quatro anos. Foi o primeiro projeto de carbono natural, na Península Ibérica, certificado pela Verra, uma entidade reconhecida internacionalmente. Está agora em fase de execução.

É um projeto que vai anexando novas áreas” até chegar ao objetivo final. Este ano deverão avançar 700 hectares, divididos em três projetos, espalhados por diferentes zonas. Entre projetos submetidos e por submeter, estão identificados mais 2.000 hectares aptos a explorar.

A fase de execução no terreno é quase a fase mais fácil [leva dois a três meses]. A fase difícil é ter determinado a área e ter um projeto aprovado [que pode demorar dois anos]”, indica Augusto Junqueiro. Depois de colocada a semente no solo, a Mota-Engil continuará, contudo, a acompanhar o projeto ao longo da sua vida. A empresa já tinha experiência anterior na gestão e manutenção de terrenos de privados.

Mas porquê apostar em projetos de carbono natural quando o mercado de carbono nacional está ainda a dar os primeiros passos? É que, com a certificação internacional, estes projetos são transacionáveis em mercados de carbono lá fora, de onde provêm, maioritariamente, os contactos dos interessados. Os compradores ainda não estão assegurados, mas a própria Mota-Engil pode ter interesse em investir nesta forma de compensação carbónica para balancear a sua atividade, admitem os responsáveis.

A BCircle espera que este negócio floresça e que o projeto de 10.000 hectares represente, ao longo da vida útil de 40 anos, “largas centenas de milhões de euros”, nas palavras de José Pedro Freitas. O CEO da Mota-Engil Capital espera, contudo, que esta atividade na empresa vá para além do projeto âncora, e que o mesmo abra novas portas. Para já, ainda existem poucas entidades a investir neste mercado ao nível da Península Ibérica – os dois gestores da Mota-Engil contam cerca de três concorrentes.

A Mota-Engil Ativ faz operação e manutenção de infraestruturas tão diferentes como uma floresta ou um campo de golfe, com uma abrangência que passa também por soluções de eficiência para hospitais e infraestruturas de água. Esta insere-se debaixo do ‘chapéu’ da Mota-Engil Capital e acolhe, por sua vez, a BCircle, que é a empresa do grupo Mota-Engil dedicada às soluções de carbono.

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