Câmara do Porto quer travar especulação imobiliária no Bessa e garantir prática desportiva para jovens
Município vai desenvolver, "com caráter de urgência", programa extraordinário de apoio para garantir prática desportiva dos atletas. E acusa administradora de insolvência de querer encerrar clube.
A Câmara do Porto vai travar qualquer alteração ao Plano Diretor Municipal (PDM) que permita aumentar a capacidade construtiva da Zona Desportiva do Bessa ou desvirtuar a sua vocação desportiva, na sequência da crise que está a afetar o Boavista Futebol Clube. E compromete-se a desenvolver soluções para garantir a continuidade da prática desportiva de cerca de 1.500 jovens em 31 modalidades diferentes, numa altura em que o futuro do Boavista permanece ensombrado pela incerteza.
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Esta posição consta de uma “moção conjunta da Câmara Municipal pela salvaguarda da continuidade do Boavista Futebol Clube, da prática desportiva dos atletas e da zona desportiva do Bessa”, e que foi aprovada por unanimidade esta terça-feira, em sede de reunião privada do Executivo do autarquia do Porto. O documento colheu os votos favoráveis dos 13 vereadores da coligação PSD/CDS-PP/IL “O Porto Somos Nós” — que governa a autarquia –-, do Partido Socialista (PS) e do Chega.
A decisão surge na sequência do anúncio, a 15 de julho, da administradora de insolvência, Clarisse Barros, de que encerraria todas as atividades do Boavista até ao final deste mês de julho, após após falhar o depósito na conta da massa insolvente dos credores do clube da verba para suportar as despesas correntes em junho. A decisão abrange quase 1.500 atletas de 31 modalidades.
Esta terça-feira, o município, presidido pelo social-democrata Pedro Duarte, aprovou uma moção com várias medidas, entre elas “desenvolver, com caráter de urgência, um programa extraordinário de apoio destinado a assegurar a continuidade da prática desportiva dos atletas afetados pelo desaparecimento da atividade do Boavista Futebol Clube”.
O município vai ainda “apoiar técnica e logisticamente soluções que possam surgir por pais, atletas, treinadores e restantes agentes desportivos, garantindo a continuidade das respetivas modalidades”.
Além de garantir a continuidade da prática desportiva pelas camadas jovens, o Executivo decidiu igualmente “reafirmar que rejeitará qualquer modificação no PDM que permita desvirtuar os fins da Zona Desportiva do Bessa, ou que lhe acrescente capacidade construtiva para além do que já está consagrado, num contexto que não seja o da preservação do património desportivo do Boavista Futebol Clube”. O objetivo passa por evitar a especulação imobiliária em torno de “um dos clubes históricos de Portugal”, considerado pelo município “um símbolo inapagável da história da Cidade do Porto” que foi fundado a 1 de agosto de 1903.
Desenvolver, com caráter de urgência, um programa extraordinário de apoio destinado a assegurar a continuidade da prática desportiva dos atletas afetados pelo desaparecimento da atividade do Boavista Futebol Clube.
Face à degradação do Estádio e da sua envolvente, o município deliberou ainda “avaliar, com a urgência possível”, o processo de classificação desta zona como Área de Reabilitação Urbana (ARU), lê-se na moção, a que o ECO/Local Online teve acesso.
A Câmara do Porto vai ainda “apelar à administradora de insolvência para que paute a sua atuação tendo em conta a relevância social da ação do Boavista Futebol Clube na cidade e no país, que nem a situação de insolvência interrompeu, e que merece adequada ponderação em decisões que afetam a qualidade de vida de muitas pessoas, sobretudo crianças e jovens”.
Por fim, o Executivo defende que é “vital” preservar o património desportivo do Bessa “para assegurar um futuro ao Boavista Futebol Clube, sendo também primordial para assegurar a permanência de uma cidade equilibrada, cómoda, em que se possa viver com qualidade”. Aliás, alerta, “nos últimos meses, a situação do clube tem-se vindo a degradar de forma dramática“.

Executivo acusa administradora de insolvência de estar “empenhada” em encerrar o clube
Pedro Duarte e restante vereação acusou, na moção, a administradora de insolvência do clube [de] parecer estar mais empenhada em conduzir ao seu encerramento do que em contribuir para uma eventual solução, que permita a sua preservação”. O Executivo vai mais longe nos reparos: “Essa atitude, aliás, contrasta com a lentidão com que é conduzido, por outro administrador de insolvência, o processo da Boavista Futebol SAD, sociedade desportiva que é a principal responsável pela incapacidade de o Clube honrar os seus compromissos“.
Já vestiram em campo as camisolas axadezadas do Boavista Futebol Clube jogadores de renome, como João Pinto, Nuno Gomes, Petit e o guarda-redes Ricardo. Teve a sua génese num grupo de cidadãos britânicos e portugueses ligados à indústria têxtil. Inicialmente batizado de “The Boavista Footballers”, foi em 1910 que adotou oficialmente o nome de Boavista Futebol Clube.
Fazendo uma resenha histórica na moção, o município lembra que “a partir da década de 1970, sob a liderança de Valentim Loureiro, o Boavista afirmou-se como uma das grandes potências futebolísticas e desportivas do país“.
O clube venceu, pela primeira vez, a Taça de Portugal na época de 1974/75, sob a mestria do treinador José Maria Pedroto, uma proeza que o Boavista repetiu nas épocas de 1975/76, 1978/79, 1991/92 e 1996/97. Entre as conquistas do clube consta a de Campeão Nacional da Primeira Liga, já sob a liderança de João Loureiro e treinado por Jaime Pacheco.
“No final da época de 2024/25 a despromoção desportiva despoletou uma crise de enormes proporções”, assinala o município na moção aprovada esta terça-feira. “Prejudicado pela irresponsável deriva gestionária da Boavista Futebol SAD, de que o município do Porto é acionista com uma posição muito minoritária, o clube vê ameaçada sua existência e a preservação do seu património desportivo”, aponta o Executivo da Invicta.
O Estádio do Bessa está impedido de ser utilizado por ordem do Proteção Civil e recebeu último jogo em maio de 2025.
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