“Organizações que decidem rapidamente são as que prepararam a forma como decidem”, alerta Jorge Portugal
Na Conferência .IA, diretor-geral da COTEC defendeu que adotar IA torna necessário redesenhar a forma como as empresas decidem, distribuem responsabilidade e alinham objetivos.
O principal obstáculo à adoção da inteligência artificial (IA) pode estar menos na tecnologia, no investimento ou nas competências, e mais na forma como as organizações tomam decisões, considerou Jorge Portugal, diretor-geral da COTEC Portugal, numa apresentação no âmbito da Conferência .IA, promovida pelo ECO esta terça-feira, 14 de julho, no Centro Cultural de Belém (CCB). A associação reúne mais de 350 organizações com caráter inovador.
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“Pensei durante muito tempo que o problema das organizações era, em particular em Portugal, decidirem demasiadamente devagar. Hoje, penso de uma maneira diferente. As organizações que conseguem decidir rapidamente, normalmente, são aquelas que passaram mais tempo a preparar a forma como decidem”, disse Jorge Portugal. A velocidade surge, assim, como consequência de uma arquitetura de decisão previamente definida, argumentou.
Para explicar o conceito, Jorge Portugal recuperou a decisão de Niki Lauda de abandonar o Grande Prémio do Japão de 1976, disputado sob chuva torrencial e no qual estava em causa o título mundial de Fórmula 1, disputado com James Hunt. O piloto não terá definido o seu limite naquele momento: limitou-se a reconhecer que o nível de risco que aceitara antecipadamente tinha sido ultrapassado. Uma arquitetura de decisão estabelece precisamente os riscos admissíveis e os limites que não podem ser transpostos, sobretudo quando a pressão reduz a qualidade do julgamento, explicou o diretor-geral da COTEC.
O responsável contrapôs, então, esta decisão individual com o funcionamento de uma equipa moderna de Fórmula 1, onde sensores, algoritmos e equipas analisam grandes volumes de informação em tempo real. A IA permite construir uma capacidade cognitiva que nenhum indivíduo conseguiria alcançar sozinho.
“Talvez esta seja, digamos, a mudança mais profunda que estamos a viver e a experienciar nesta altura. Porque a inteligência nesta altura é abundante. É um recurso que era escasso e agora é abundante. A experiência, por outro lado, continua profundamente escassa. E continua a ser a experiência que permite transformar a informação em julgamento”, indicou.

Recorrendo ao pensamento do economista e teórico das organizações Herbert Simon, Jorge Portugal sustentou que uma empresa não é apenas um conjunto de pessoas, mas um “sistema cognitivo”: “As organizações existem porque nenhum indivíduo consegue compreender sozinho toda a complexidade do mundo”, declarou. Por outras palavras, conhecimento, normas, coordenação, experiência e tecnologia devem trabalhar em torno de um propósito comum, criando uma capacidade coletiva de decisão que ultrapassa as limitações de cada indivíduo.
Mais inteligência, contudo, não garante melhores decisões. Através do contraste entre o computador HAL 9000, do filme 2001: Odisseia no Espaço, e a histórica decisão do piloto Niki Lauda, Jorge Portugal distinguiu otimização de julgamento: “Otimizar é executar cada vez melhor. Julgar é reconhecer quando não devemos continuar a otimizar. E é aqui que, na minha opinião, surge verdadeiramente a era da IA.”
Com a decisão distribuída entre pessoas, dados, modelos, algoritmos e agentes inteligentes, o alinhamento com o propósito torna-se, por isso, o recurso mais escasso, na ótica do diretor-geral da COTEC.
Assista à apresentação na íntegra:
Nas empresas portuguesas, identificou uma tendência para confundir movimento com ação: mais reuniões, apresentações, pareceres e níveis de validação sem que a decisão avance. “O movimento é a ilusão da ação. Todos reconhecemos a imagem. Mais reuniões, mais informação, mais uma apresentação, mais um nível, mais um comité, mais um parecer, mais um nível de validação… a organização movimenta-se. Mas a decisão não avança. Não por falta de inteligência (e cada vez menos este argumento pode ser evocado). Muitas vezes, porque não existe a arquitetura necessária que transforme essa inteligência em escolha, em responsabilidade, em ação”, reiterou.
Portugal não será tanto avesso ao risco como à incerteza, defendeu ainda Jorge Portugal, o que conduz ao adiamento das escolhas. O resultado são arquiteturas concebidas para minimizar o erro, quando deveriam acelerar a aprendizagem: “O contrário da burocracia não é a velocidade. É uma boa arquitetura de decisão”, resumiu o engenheiro e gestor.
Jorge Portugal deixou três ideias à liderança empresarial: a IA torna a inteligência abundante; a arquitetura de decisão transforma essa inteligência em capacidade organizacional; e a liderança mantém essa capacidade alinhada com o propósito. Aos gestores, colocou o desafio de perceber se as suas organizações continuam desenhadas para um mundo em que apenas as pessoas decidiam ou se já estão preparadas para decisões conjuntas entre humanos e agentes inteligentes.
Esta apresentação foi inserida na Conferência .IA, promovida pelo ECO no CCB esta terça-feira, 14 de julho. O encontro juntou gestores executivos, decisores políticos e especialistas para discutir os principais aspetos da corrida à IA em curso.
Consulte aqui a apresentação de Jorge Portugal:
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