Palco Z. A geração com vontade de mudar o paradigma empresarial e ficar em Portugal

  • Tiago Martins d'Oliveira
  • 10 Julho 2026

A geração Z quer crescer, liderar e mudar as empresas, mas recusa fazê-lo à custa da vida pessoal. No Palco Z, os jovens pediram espaço, liderança aberta e soluções concretas para ficar.

Palco Z – O ECO reuniu representantes da geração Z das principais empresas do país para uma conversa direta sobre o futuro que querem construir.Henrique Casinhas/ECO

A geração Z já não quer apenas entrar nas empresas, crescer e ser bem paga. Quer mexer na forma como se trabalha, como se lidera e como se tomam decisões. Quer espaço para testar, para questionar, para acelerar processos e para influenciar o rumo das organizações onde trabalha. Foi essa vontade de fazer parte da mudança — nas empresas, no mercado de trabalho e no país — que atravessou o Palco Z, conferência do ECO que reuniu mais de 30 jovens de algumas das principais empresas do país para uma conversa aberta sobre trabalho, liderança, emigração, política e futuro.

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Contudo, esta não é uma tarefa fácil quando tal acarreta a existência de algum confronto geracional, o que provoca desconforto às empresas e principalmente aos líderes e decisores das mesmas, que trabalham há mais de 30 anos com base numa metodologia que tarda em mudar, e que causa frustração aos jovens que procuram mudar o ecossistema empresarial, e que têm algumas sugestões de como o fazer.

A imagem de uma geração impaciente, difícil de reter ou demasiado exigente apareceu várias vezes ao longo da discussão, mas quase sempre para ser desmontada. O que estes jovens descrevem não é desinteresse, nem descompromisso. É, pelo contrário, um nível de exigência mais alto sobre o papel que querem ter nas empresas e sobre o impacto que esperam ter nelas. “Tenho esperança de poder contribuir com aquilo que sou e com aquilo que tenho para fazer com que os problemas que sempre existiram possam ser resolvidos ou mitigados”, disse uma das participantes. A frase ajuda a fixar o tom da conversa, de que esta não é uma geração à procura apenas de condições melhores, mas sim uma geração à procura de margem para intervir.

Essa lógica coloca pressão adicional sobre as empresas, sobretudo num mercado de trabalho em que captar e reter talento se tornou um dos principais desafios de gestão. Para muitos dos jovens presentes, o salário continua a contar (e é escasso para o custo de vida e a ambição de ter habitação), mas já não chega. O que pesa cada vez mais na decisão de ficar — ou sair — é a possibilidade de crescimento, a qualidade da liderança, a flexibilidade, o alinhamento com valores e, sobretudo, a perceção de que o tempo investido está a gerar retorno em aprendizagem, responsabilidade e capacidade real de fazer acontecer. “Temos confiança e vontade de fazer, mas precisamos de espaço para fazer acontecer, com objetivos muito bem definidos”, resumiu uma das participantes. Outra foi mais direta: “Se ficamos muito tempo sem desafios, sem novos projetos, vamos embora.”

Palco Z – O ECO reuniu representantes da geração Z das principais empresas do país para uma conversa direta sobre o futuro que querem construir.Henrique Casinhas/ECO

A geração Z quer empresas que lhe deem espaço para fazer, aprender e crescer. Mais do que estabilidade ou “vestir a camisola”, procura desafios, progressão e percursos menos lineares — e, se ficar demasiado tempo parada, não hesita em sair. Esse nível de exigência, admitem os próprios jovens, pode ser lido pelas gerações anteriores, com quem trabalham, como impaciência. Mas, para esta geração, o problema não está em querer tudo depressa, mas está em permanecer demasiado tempo parada. “Se ficamos muito tempo sem desafios, sem evolução de carreira ou novos projetos, vamos embora”, sintetizou outro dos participantes.

Mais do que uma geração que “bate o pé” e de carreiras lineares, a geração Z assume-se como uma geração de projetos, habituada a medir o seu percurso por ciclos de aprendizagem, impacto e progressão, e não apenas por anos de casa. “Lealdade há uns anos, se calhar, era sobre ficar numa empresa durante 30 anos. Mas, agora, lealdade é durante os dois anos que estás lá, tens de dar tudo”, referiu outro jovem durante a conferência.

Portanto, é necessário que as organizações acompanhem o ritmo alucinante no qual estes jovens cresceram, ao lado dos avanços tecnológicos de inteligência artificial (IA) que agora moldam a sociedade. A geração Z não quer “carreiras verticais”, quer “carreiras horizontais” e que “não sejam repetitivas”. Não querem ser caracterizados pelo trabalho que exercem, como acontecia com gerações anteriores, mas antes querem ser identificados como “proativos na aprendizagem, com curiosidade de ir fazer novos cursos sem receios” e, por isso, invocam as empresas a possibilitar estas oportunidades e transações de carreira, sendo mais “eficientes através das aprendizagens e questões” dos profissionais do futuro.

O ponto não é apenas querer subir mais depressa ou acumular funções. É querer participar, experimentar, errar, propor e sentir que o contributo individual não fica bloqueado por estruturas demasiado lentas, hierarquias rígidas ou lideranças pouco disponíveis para ouvir. A geração Z não rejeita hierarquias, mas contesta lideranças distantes, pouco transparentes ou avessas ao contraditório. O impulso para questionar — tantas vezes lido como impaciência ou irreverência — foi apresentado ao longo da conversa menos como um traço de insubordinação e mais como uma exigência de clareza, de contexto e de participação. Ficar demasiado tempo no mesmo lugar, sem autonomia nem evolução visível, tende a ser interpretado não como estabilidade, mas como estagnação.

Ficar em Portugal também pode ser um ato de resiliência

É a partir daqui que a conversa se alarga para uma questão maior, que é construir uma carreira em Portugal, sem abdicar da vida que se quer ter. Se durante anos a ideia de sucesso profissional esteve associada a disponibilidade total, progressão linear e, muitas vezes, à emigração, a geração Z parece estar a redefinir esse contrato. “Se calhar as pessoas hoje em dia estão mais à procura de projetos que se alinhem com a sua vida”, resumiu uma das participantes. A ambição continua lá, mas já não aparece desligada da necessidade de equilíbrio, de tempo e de sentido.

Palco Z – O ECO reuniu representantes da geração Z das principais empresas do país para uma conversa direta sobre o futuro que querem construir.Henrique Casinhas/ECO

Isso ajuda a explicar a forma como os jovens olham para a hipótese de sair do país. A emigração continua a ser vista como uma opção válida — e, em muitos casos, quase inevitável —, mas deixou de ser encarada como um caminho óbvio ou isento de custo pessoal. “A nossa geração já não quer prescindir do presente em prol de um futuro”, um mote concordado durante o Palco Z. A frase resume bem a vontade de crescer e de ganhar mais ao mesmo tempo que há uma recusa em sacrificar tudo o resto para o conseguir. Ficar perto da família, dos amigos, manter tempo para aprender, viajar ou simplesmente viver o presente deixou de ser um luxo e passou a fazer parte da equação. A geração Z quer progredir, mas sem prescindir do presente.

É também por isso que a decisão de sair não se esgota na diferença salarial entre Portugal e o estrangeiro. “Se ficarmos cá, sentimos as dores de Portugal. Mas se fôssemos para outro país também íamos sentir as dores desse país”, notou um dos jovens. Desmonta a ideia de que lá fora existe uma solução automática para todos os bloqueios que hoje se sentem cá dentro. A geração Z sabe que habitação, custo de vida, instabilidade ou pressão económica não são problemas exclusivamente portugueses, e que hoje em dia “não competimos só com o nosso país, competimos com o mundo”.

Os participantes deixaram claro que a mobilidade internacional continua a pesar como selo de validação extra no mercado português, e isso é uma simplificação que por vezes carrega alguma injustiça. “Vir de fora é bom. Parece que nós portugueses temos que ir para fora um ou dois anos para voltar para as empresas nos valorizarem nesse sentido, como super-homem com essa capa.” Contudo, ao contrário de gerações anteriores, a opção de sair já não é encarada apenas como um passo lógico para subir na carreira. Quando “antigamente, o resiliente era alguém que ia lá para fora” e “desbravava tudo”, sendo que, atualmente, “ser resiliente é ficar, construir e acreditar”.

Já não querem slogans políticos. Querem soluções concretas

Foi precisamente nesse ponto que o debate saiu do perímetro das empresas e entrou no terreno da política. Não no sentido partidário mais clássico, mas no sentido de perceber até que ponto as condições estruturais do país estão — ou não — a acompanhar aquilo que esta geração quer construir. E, aqui, um dos primeiros mitos a cair foi o de que os jovens estão desligados da política. “Os jovens, no geral, interessam-se por política, mas de uma maneira bastante diferente de outras gerações”, explicou uma das participantes. Habitação, saúde, educação, alterações climáticas ou mobilidade social surgem como temas centrais, mas o interesse já não passa tanto por fidelidade ideológica ou por pertença partidária. “Passámos de uma lógica de representação de um partido específico para uma ótica de soluções concretas para problemas reais”, atirou um dos participantes.

Palco Z – O ECO reuniu representantes da geração Z das principais empresas do país para uma conversa direta sobre o futuro que querem construir.Henrique Casinhas/ECO

Essa mudança de foco traduz-se também numa tolerância cada vez menor ao ruído político e a promessas vagas. A geração Z quer propostas concretas, quer execução e quer resultados. Mas quer, sobretudo, deixar de ser tratada como destinatária passiva de políticas pensadas por outros. “A nossa atuação é uma atuação de jovens interessados, que metem o dedo na ferida, que se querem juntar à discussão e à solução”, disse uma das participantes. O problema, admitem, é que esse interesse esbarra demasiadas vezes na frustração. Há “um bocadinho de desilusão” com a forma como a política responde, sendo que muitas promessas ficam pelo caminho e que, quando chegam a ser executadas, acabam frequentemente por funcionar como “pensos rápidos” em vez de soluções estruturais.

Alguns dos jovens presentes deixaram de lado qualquer prudência diplomática para verbalizar o desgaste com o estado do debate público. “É preciso, de alguma forma, limpar um bocado a podridão”, disse um dos participantes. Os jovens veem um país preso a “guerras políticas” em que “o que interessa é ter razão e gritar mais alto”, enquanto faltam soluções práticas e consistentes para problemas reais. A crítica não foi feita de fora para dentro, mas a partir de uma geração que se diz disponível para participar e cansada de sentir que essa disponibilidade colide sempre nos mesmos bloqueios.

No fundo, o que a conferência expôs foi um pedido de reciprocidade. A geração Z quer comprometer-se com as empresas, mas espera que as empresas também se comprometam com os jovens, com a sua evolução, com a sua autonomia e com a criação de contextos onde seja possível construir, testar e transformar. O desafio, para o tecido empresarial, passa menos por “gerir” esta geração, como fizeram com gerações anteriores, e mais por perceber o que pode ganhar ao integrá-la de forma menos defensiva e mais estratégica.

Porque, se há uma ideia que ficou do Palco Z, é que a geração Z não quer apenas herdar o futuro do trabalho. Tem vontade de participar ativamente na mudança do paradigma.

Esta conferência está incluída no 10º aniversário do ECO e contou com a participação de jovens trabalhadores das seguintes empresas: Abreu Advogados, Ageas, Altice, BCP, Capgemini, Cerejeira Namora, Caixa Geral de Depósitos, EDP, EY, Fidelidade, Galp Energia, Grupo Mosqueteiros, Helexia, MAP Group, Morais Leitão, PLMJ, Tabaqueira e Yunit.

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