Coreia do Sul ‘testa’ moeda do futuro em Sintra

Testado pelo banco central com quase 80 mil coreanos, um sistema baseado em tokenização mostra como bancos e Estado podem tornar pagamentos e subsídios mais rápidos e seguros.

ECO Fast
  • A Coreia do Sul apresentou no Fórum do Banco Central Europeu um sistema inovador de pagamentos digitais, testado com quase 80 mil cidadãos, que combina depósitos bancários e moeda do banco central.
  • O estudo do Project Hangang revela que o sistema permite transações instantâneas e seguras, eliminando intermediários e garantindo a equivalência do won digital em qualquer banco, ao contrário das stablecoins.
  • Os resultados positivos da primeira fase do projeto levaram a uma expansão, com planos para distribuir 110 mil milhões de wons em subsídios, visando aumentar a eficiência na gestão de apoios sociais até 2030.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Imagine um subsídio do Estado que nunca pode ser mal gasto, ou uma transferência bancária que nunca falha a meio do caminho. Foi isso que a Coreia do Sul testou, à escala real, com quase 80 mil cidadãos comuns, e os resultados chegaram esta quarta-feira ao Fórum anual do Banco Central Europeu (BCE), em Sintra, pela voz do governador do Banco da Coreia, Hyun Song Shin.

Escolha o ECO como fonte preferida no Google

Escolher

Os dados constam do estudo académico “A unified ledger in practice: lessons from Project Hangang” que documenta a maior experiência real feita até hoje com dinheiro programável. Um sistema em que os depósitos bancários do dia-a-dia e a moeda do banco central passam a funcionar como aplicações digitais capazes de executar pagamentos e verificações sem intervenção manual.

O trabalho, assinado por Jaemin Ryu, Hyun Song Shin, Joonyi Sung e Sung Guan Yun, todos do Banco da Coreia do Sul, resulta do Project Hangang, em homenagem ao rio que atravessa Seul, e já saiu do laboratório: entre abril e junho do ano passado, quase 80 mil coreanos e 12 mil comerciantes usaram este sistema em transações reais do dia-a-dia, através de sete dos maiores bancos do país.

O livro de registo unificado assenta no papel de confiança do banco central na liquidação, em vez de mecanismos de consenso descentralizados que fragmentam o sistema monetário e minam os efeitos de rede que dão valor à moeda.

Hyun Song Shin

Governador do Banco da Coreia do Sul

O Banco da Coreia construiu uma plataforma única onde convivem três elementos que, hoje, funcionam em separado: o dinheiro que cada pessoa tem depositado no seu banco, a moeda emitida pelo banco central e outros ativos, como obrigações do Tesouro.

Ao juntar estes três elementos no mesmo sistema, um pagamento e a entrega daquilo que se compra acontecem em simultâneo, sem intermediários a validar cada etapa em separado, o que elimina o risco de uma das partes não cumprir a sua obrigação.

As aplicações práticas incluem pagamentos instantâneos, comissões mais baixas para os comerciantes e subsídios do Estado a chegar sem burocracia a quem deles precisa.

O mecanismo central do sistema chama-se “destruir e reemitir”: sempre que alguém paga a outra pessoa com conta num banco diferente, o dinheiro digital do pagador é apagado no seu banco e um valor idêntico é criado na conta do banco recetor, com o banco central a garantir a transferência de fundos entre as duas instituições.

Este processo assegura que um won digital vale exatamente um won, seja qual for o banco por onde passa, uma garantia que, segundo os autores, falta às criptomoedas estáveis (stablecoins). “As stablecoins não são interoperáveis entre diferentes blockchains, os utilizadores têm de recorrer a pontes ou a intermediários como as exchanges para as fazer circular, referiu Hyun Song Shin durante a apresentação, notando assim uma limitação que o sistema coreano evita pela sua própria construção.

O governador do Banco da Coreia, Hyun Song Shin, esteve em Sintra a apresentar o Project Hangang, um sistema de pagamentos digitais que junta depósitos bancários e moeda do banco central numa só plataforma. O projeto já foi testado com quase 80 mil coreanos e prepara-se agora para uma segunda fase mais ambiciosa.

Sucesso dos testes abre caminho a apoios sociais mais rigorosos

Um dos usos já testados envolve apoios sociais com regras incorporadas, referiu o governador da Coreia do Sul, notando que câmaras municipais e universidades coreanas distribuíram vales digitais, incluindo um passe cultural para jovens da cidade de Seul, que só podem ser gastos em condições específicas, como determinados comerciantes ou tipos de produto.

O sistema verifica no momento da compra se essas regras são cumpridas e devolve o valor do subsídio ao utilizador nesse instante. Segundo os autores, este mecanismo “bloqueia estruturalmente a possibilidade de uso fraudulento no próprio momento da transação”, ao contrário dos apoios tradicionais, fiscalizados apenas depois de o dinheiro já ter sido gasto.

Os resultados desta primeira fase, encerrada em junho de 2025, levaram o Banco da Coreia a avançar para uma segunda etapa. Segundo Hyun Song Shin, o sistema funcionou de forma fiável com utilizadores reais, o dinheiro digital revelou-se equivalente ao meio de pagamento tradicional em facilidade de uso, e os vales com regras incorporadas reduziram a burocracia associada à distribuição de apoios públicos.

Em março, arrancou a segunda fase do projeto, agora com nove bancos em vez de sete, com testes ao pagamento de despesas do Estado e a um limite de um milhão de wons (cerca de 660 euros) por utilizador em lojas selecionadas.

O Banco da Coreia planeia aplicar o mesmo modelo às obrigações do Tesouro para que a compra de dívida pública seja liquidada numa única operação.

Segundo a Ledger Insights, está ainda prevista, para o final deste ano, uma experiência de maior dimensão, que tem como objetivo distribuir 110 mil milhões de wons (cerca de 79 mil milhões de euros) em subsídios do Estado através deste sistema. O Governo sul-coreano fixou como meta que, até 2030, um quarto dos fundos do Tesouro Nacional passe por este tipo de dinheiro digital.

O Banco da Coreia planeia aplicar o mesmo modelo às obrigações do Tesouro para que a compra de dívida pública seja liquidada numa única operação, tendo para o efeito iniciado negociações para promover ligações com outros países através do Project Agorá, uma iniciativa internacional que junta sete bancos centrais e mais de 40 instituições financeiras globais.

O livro de registo unificado assenta no papel de confiança do banco central na liquidação, em vez de mecanismos de consenso descentralizados que fragmentam o sistema monetário e minam os efeitos de rede que dão valor à moeda”, salientou Hyun Song Shin sobre a lógica do projeto.

Os investigadores reconhecem, contudo, que o sistema atual ainda tem limitações, notando, por exemplo, que a nova plataforma digital e a rede bancária tradicional não comunicam em tempo real, e os dados são trocados através de ficheiros em suporte USB encriptado, um indicador de que a distância até um livro de registo totalmente unificado permanece considerável.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Coreia do Sul ‘testa’ moeda do futuro em Sintra

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião