BRANDS' ECO “É preciso desburocratizar o sistema sem perder o rigor e controlo necessários à indústria da defesa”
Domínios marítimo e aeroespacial estiveram em análise na tarde do Defence Industry Forum. Rebecca Hall, do Departamento de Defesa Nacional do Canadá, apresentou nova estratégia de investimento do país
Depois da sessão dedicada ao domínio terrestre na Land Domain Session durante a manhã, a tarde do segundo dia dos AED Days 2026 foi dedicada aos domínios marítimo e aeroespacial, havendo ainda espaço para a partilha da experiência canadiana na reorganização dos investimentos em defesa. Da contratação à inovação tecnológica, passando pela pressão do fator tempo e a necessidade de reunir, desde o primeiro momento, os esforços das forças armadas, indústria e academia, muitos foram os temas em debate. Como ponto comum, a certeza de que investir em defesa é uma realidade que veio para ficar e que Portugal, dada a posição geoestratégica que ocupa, não pode ficar para trás neste esforço.
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O Comodoro João Silva, da Marinha Portuguesa, abriu os trabalhos da Maritime Domain Session, abordando a importância do domínio marítimo enquanto espaço estratégico. Dos recursos marinhos, aos cabos subaquáticos – essenciais tanto para a defesa como à vida diária dos países – e ao espaço de circulação que representa, o Atlântico tem um valor geoestratégico que precisa de ser defendido. Dada a sua localização geográfica, dimensão da Zona Económica Exclusiva (ZEE) e a pressão que sofrem os recursos marinhos, Portugal tem uma responsabilidade na defesa do domínio marinho que “vai além das suas responsabilidades nacionais”, sublinhou o Comodoro João Silva.
“A superioridade no mar depende cada vez mais do investimento em capacidades transversais”, referiu o responsável, para quem a capacidade de operação no presente e no futuro não pode ser específica de um ramo das forças armadas. O navio D. João II, da Marinha Portuguesa, foi apontado como bom exemplo de uma capacidade multifunções e multiplataforma, fortemente dependente de tecnologia.
Neste novo modo de pensar as capacidades operacionais, os dados assumem um papel vital. Contudo, alertou o Comodoro, a interoperabilidade e a cooperação são tão ou mais importantes para garantir a prontidão das forças, assim como o investimento no acompanhamento do ciclo de vida dos equipamentos. Um trabalho que depende da partilha das necessidades com as empresas e a indústria desde o primeiro momento, da testagem e validação dos equipamentos em ambiente real e da rapidez da transição da inovação para o terreno.
Do aço aos dados
A discussão sobre a cooperação industrial no âmbito da prontidão marítima, no painel ‘Prontidão Marítima’’,colocou em diálogo Gerrit van Tilborg, Above Water Systems PRT Naval Director, da Thales; Louis Deltour, Business Development Director Drone, Autonomous and Collaborative Systems do Naval Group; Harm Kapper, diretor comercial da Damen; e Gian Luca Usai, Country Manager Naval Vessels Division, da Fincanteri.
A tecnologia já existia antes dos últimos conflitos. O que mudou foi o ritmo de adesão a essas tecnologias por parte dos militares, que aumentou
As cadeias de abastecimento foram apontadas como um dos fatores com impacto na prontidão operacional. Como notou Gerrit van Tilborg, a transformação tecnológica dos equipamentos e do armamento provocou uma mudança na natureza das cadeias de abastecimento: “passámos do aço aos dados”.
“A tecnologia já existia antes dos últimos conflitos. O que mudou foi o ritmo de adesão a essas tecnologias por parte dos militares, que aumentou”, referiu, por seu turno, Louis Deltour, que destacou também a importância de desenvolver processos de decisão autónomos. A aposta neste tipo de sistemas vai implicar uma presença cada vez mais constante da inteligência artificial (IA) na conceção e desenvolvimento das capacidades militares. Algo que, como alertou Gerrit van Tilborg implica desafios ao nível da regulação e também a coexistência da inovação com os sistemas já existentes. “Usamos as plataformas durante 10, 20 ou 30 anos, e a tecnologia é muito mais rápida”, alertou. A solução, disse, poderá passar por uma compartimentalização das novas tecnologias e pela inclusão da cibersegurança e ciber-resiliência no design inicial.
Conceber os equipamentos para serem sustentáveis e criarem valor ao longo de todo o processo é essencial para a criação de um ecossistema “pronto para cooperar e dar resposta a todo o tipo de desafios que surgem ao longo do ciclo de vida”, referiu ainda Gian Luca Usai.
A necessidade de cooperação, assim como a velocidade da mudança e inovação, também foram temas na tarde do dia 28 de maio, com o mote ‘Vantagem Aeroespacial’, dedicado ao papel da aeronáutica e do espaço na indústria da defesa. A Aerospace Domain Session, onde se integrou esta sessão, contou com abertura do Tenente-General João Caldas, Vice-Chefe do Estado-Maior da Força Aérea.
Como advertiu Peter Nilsson, Vice-Presidente E Head Of Business Unit Advanced Program da Saab, “a velocidade da mudança nunca foi tão rápida e não vai voltar a abrandar”. Contudo, se “as ameaças evoluem no espaço de semanas”, os softwares de defesa implicam anos de desenvolvimento. Para ultrapassar esta discrepância é necessário que as empresas encurtem o tempo de produção. “A indústria tem de ser mais adaptável. Temos de passar a ser vistos como um membro da equipa”, defendeu Nilsson.
Ao longo do último século, a indústria da defesa passou de construir sistemas pensados para durar, para sistemas capazes de se adaptar. Hoje, a necessidade é de sistemas capazes de mudar, explicou. Uma mudança de paradigma também abordada por Martin Waltzer, Vice-Presidente Marketing & Sales Airforce Systems da Diehl Defense, que defende ser exigido aos sistemas de defesa atuais que sejam confiáveis, eficazes, disponíveis, adaptáveis e versáteis.
O investimento em defesa não é feito em oposição ao investimento em outras áreas. É feito em paralelo e de forma complementar
Com a tarde a acabar, foi a vez de Rebecca Hall, Deputy Director da Defense Industrial Strategy Team do Canadá, partilhar a nova estratégia de investimento em defesa do país. Uma partilha que traduziu, na prática, as discussões tidas ao longo da tarde, com uma estratégia de investimento assente numa renovada relação com a indústria, num sistema de contratação estratégico, num investimento em inovação com propósito, no assegurar das cadeias de abastecimento e no trabalho próximo com parceiros domésticos.
Mudar mentalidades
Coube a António José Batista, diretor-geral da Direção Geral de Armamento e Património da Defesa Nacional (DGAPDN), encerrar os trabalhos do dia. “Hoje, a necessidade de repensar o investimento em defesa ganhou novo fôlego”, afirmou o responsável, para quem a Europa só acordou para esta necessidade depois de décadas de desinvestimento.
O combate à burocracia foi uma das necessidades apontadas por António José Batista. “É um problema que temos há décadas. Um dos principais objetivos é desburocratizar o sistema sem nunca perder o rigor e controlo necessários”, frisou, lembrando que a indústria e os investimentos em defesa requerem o chamado duplo controlo. Para o responsável, há exemplos que mostram que é possível funcionar com menos burocracia, como mostrou o programa SAFE, em que houve uma adaptação das regras de contratação pública.
Para António José Batista, há três dimensões essenciais a ter em conta quando se pensa o investimento em defesa: a necessidade de reequipar, rearmar e reindustrializar as forças armadas. Ao mesmo tempo, é necessário mudar a mentalidade de uma sociedade que, durante décadas, acreditou viver “numa paz eterna”, de modo que o investimento em defesa seja encarado com naturalidade. “O investimento em defesa não é feito em oposição ao investimento em outras áreas. É feito em paralelo e de forma complementar”, assegurou.
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