Banco de Portugal encerra 2025 com prejuízos de 1,4 milhões de euros
Três anos sem distribuir dividendos e uma provisão que encolheu para menos de metade do valor máximo. As contas de 2025 do Banco de Portugal revelam estragos silenciosos da era dos juros elevados.
- O Banco de Portugal encerrou 2025 com um resultado líquido negativo de 1,4 milhões de euros, marcando o terceiro ano consecutivo de prejuízos.
- O resultado antes de provisões e impostos foi negativo em 304 milhões de euros, embora tenha melhorado em relação aos dois anos anteriores, refletindo a inversão da margem de juros.
- A utilização da Provisão para Riscos Gerais para cobrir o RAPI negativo indica uma diminuição da almofada financeira, levantando preocupações sobre a solidez patrimonial futura do banco.
O Banco de Portugal registou em 2025 um resultado líquido negativo de 1,4 milhões de euros, que compara com um lucro de 1,5 milhões em 2024, mas é também o terceiro ano seguido sem distribuir dividendos ao Estado.
O número, porém, esconde uma recuperação significativa face a 2023 e 2024 e resulta não de perdas operacionais, mas de um efeito técnico nos impostos diferidos, depois de a provisão para riscos gerais ter absorvido integralmente o prejuízo antes de impostos.
O ponto de partida para perceber as contas do Banco de Portugal no ano passado é o Resultado Antes de Provisões e Impostos (RAPI), que em 2025 foi negativo em 304 milhões de euros.
Trata-se de um valor “substancialmente menos negativo do que nos dois anos anteriores”, como refere o próprio Relatório do Conselho de Administração, sublinhando que o resultado “continua a refletir o efeito das carteiras de política monetária, que se faz sentir na margem de juros e no resultado líquido da repartição do rendimento monetário”. Em 2023, o RAPI tinha sido de -1.054 milhões de euros, e em 2024 atingiu o ponto mais negativo com -1.142 milhões de euros.

A principal causa desta melhoria foi a inversão da margem de juros, que passou a ser positiva em 182 milhões de euros, algo que não acontecia desde 2022, quando valia 678 milhões de euros.
Esta viragem explica-se pela descida das taxas de juro diretoras do BCE, que reduziu a taxa da facilidade permanente de depósito (DFR) em 25 pontos base em cada uma das quatro primeiras reuniões de 2025, colocando-a nos 2%.
A isso somou-se a alteração da taxa de remuneração das posições intra-Eurosistema, que passou da taxa das operações principais de refinanciamento (MRO) para a DFR a partir de 1 de janeiro de 2025, reduzindo os custos dos passivos do banco central.
Para cobrir o RAPI negativo, o Banco de Portugal recorreu, como em 2024, à Provisão para Riscos Gerais (PRG), usando 304 milhões de euros desta reserva e tornando o Resultado Antes de Impostos (RAI) nulo.
No entanto, os prejuízos não realizados agravaram-se para 95 milhões de euros (face a -27 milhões de euros em 2024), e o resultado líquido da repartição do rendimento monetário foi novamente negativo, em 164 milhões de euros, ainda que menos do que os -337 milhões de euros registados no ano anterior.
Para cobrir o RAPI negativo, o Banco de Portugal recorreu, como em 2024, à Provisão para Riscos Gerais (PRG), usando 304 milhões de euros desta reserva e tornando o Resultado Antes de Impostos (RAI) nulo. “Em 2025, como mitigante dos impactos da materialização do risco de estrutura de balanço, o Banco de Portugal utilizou a Provisão para riscos gerais para cobertura do RAPI negativo, tornando o Resultado Antes de Impostos nulo”, lê-se no relatório, publicado esta quinta-feira.
Com esta utilização, a PRG diminuiu de 1.716 milhões de euros para 1.412 milhões de euros, um almofada que foi sendo consumida ao longo dos últimos anos: valia 3.912 milhões de euros em 2022.
O resultado líquido final de -1,4 milhões de euros resulta assim exclusivamente do efeito do imposto diferido (-1,3 milhões de euros) e da tributação autónoma (-0,1 milhões de euros), já que o banco apurou prejuízo fiscal no período.
Balanço aumenta 10,5% à boleia do ouro
Os dados do relatório revelam ainda que o balanço do banco central cresceu 10,5% para 211.322 milhões de euros no final de 2025, mais 20.144 milhões de euros do que em 2024, impulsionado sobretudo pela valorização do ouro.
A reserva de ouro do Banco de Portugal cresceu 46% para 45.140 milhões de euros, um aumento de 14.245 milhões de euros, reflexo da subida de 65,3% do preço do metal precioso em dólares, apesar da depreciação do dólar face ao euro (-13,1%).
Esta valorização não afeta os resultados do banco central — as mais-valias potenciais ficam registadas em diferenças de reavaliação no balanço, num tratamento assimétrico harmonizado em todo o Eurosistema –, mas reforça a solidez patrimonial do banco.
Já do lado dos ativos de política monetária, os títulos detidos para fins de política monetária reduziram-se em 9,7% para 67.729 milhões de euros, refletindo o vencimento gradual das carteiras do APP e do PEPP, em linha com a normalização da política monetária do BCE.

O Banco de Portugal não está sozinho neste contexto adverso. O Banco Central Europeu reportou uma perda de 1,3 mil milhões de euros em 2025 (após um prejuízo de 7,9 mil milhões em 2024), o Bundesbank reduziu as suas perdas para 8,6 mil milhões de euros (após -19,2 mil milhões em 2024), a Reserva Federal americana registou perdas de 18,7 mil milhões de dólares, e o banco central austríaco (OeNB) reportou um resultado negativo de 1.023 milhões de euros.
“O resultado antes de provisões e impostos foi negativo em 304.176 milhares de euros, continuando a refletir o efeito das decisões de política monetária”, conclui o relatório do Conselho de Administração do Banco de Portugal, que antecipa uma recuperação gradual à medida que as carteiras de política monetária de longa duração continuem a vencer e as taxas de juro se estabilizem.
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