“Estamos num bom lugar, mas nada está fechado”, diz Christine Lagarde
A presidente do Banco Central Europeu vê a inflação controlada e a economia resiliente, mas recusa compromissos sobre o próximo passo, notando que a incerteza continua a ditar a estratégia.
- O Banco Central Europeu decidiu manter as taxas de juro inalteradas pela quarta vez consecutiva, destacando a resiliência da economia da Zona Euro.
- Christine Lagarde sublinhou que a inflação nos serviços, que acelerou para 3,5%, continua a ser uma preocupação, especialmente devido aos salários.
- Apesar de um crescimento económico superior ao esperado, a incerteza persiste, com Lagarde a alertar para riscos que podem afetar a estabilidade financeira.
O Banco Central Europeu (BCE) decidiu esta quinta-feira manter as taxas de juro inalteradas pela quarta reunião consecutiva, encerrando o ano sem alterações aos juros diretores, e com Christine Lagarde a salientar que a política monetária na Zona Euro está “num bom lugar”, mas todas as opções permanecem em cima da mesa.
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Na conferência de imprensa que se seguiu ao anúncio do congelamento das taxas de juro, a presidente do BCE procurou equilibrar otimismo com flexibilidade máxima, recusando-se a fechar qualquer porta quanto ao futuro da política monetária. “Reconfirmámos que estamos num bom lugar”, afirmou, sublinhando que “o Conselho do BCE é unânime em que todas as opções para as taxas devem permanecer em cima da mesa”.
A presidente do BCE estava particularmente empenhada em contrariar a narrativa de que o próximo movimento será necessariamente uma subida das taxas – interpretação que Isabel Schnabel, membro do Conselho Executivo, havia sugerido numa entrevista recente à Bloomberg.
Ao contrário da economista alemã, que havia sugerido conforto com as expectativas dos mercados de que o próximo movimento seria uma subida dos juros, Lagarde manteve todas as portas abertas. “Não houve discussão hoje sobre subidas ou descidas” das taxas de juro, assegurou, reforçando que “não existe uma data definida para qualquer movimento” e que o BCE “está num bom lugar, mas isso não significa que estamos estáticos.”
O setor dos serviços continua a ser uma fonte de pressão inflacionista na área do euro. “A subida da inflação nos serviços está relacionada com os salários”, explicou Lagarde.
O congelamento das taxas diretoras do euro surge num contexto de inflação estável e próxima do objetivo dos 2%. Segundo o comunicado oficial do BCE, as novas projeções dos serviços do Eurosistema apontam para uma inflação média de 2,1% em 2025, 1,9% em 2026, 1,8% em 2027 e 2,0% em 2028. A inflação subjacente — que exclui energia e alimentos — deverá situar-se em 2,4% em 2025, 2,2% em 2026, 1,9% em 2027 e 2,0% em 2028.
No entanto, o setor dos serviços continua a ser uma fonte de pressão inflacionista na área do euro. “A subida da inflação nos serviços está relacionada com os salários”, explicou Lagarde, reconhecendo que “a inflação dos serviços tem sido o maior desafio” e permanece mais rígida do que o esperado.
Em novembro, a inflação nos serviços acelerou para 3,5%, o nível mais elevado desde abril, contra 3,4% em outubro. “A inflação subjacente continua consistente com o objetivo de 2% no médio prazo”, garantiu a presidente do BCE.
Os salários foram um tema central na reunião do Conselho do BCE e nas declarações de Lagarde. “Debatemos bastante sobre salários”, admitiu, acrescentando que o BCE “estará particularmente atento à evolução dos salários”. A presidente do BCE prevê que “o crescimento salarial deverá abrandar nos próximos trimestres antes de se estabilizar abaixo dos 3% no final de 2026”.
A economia tem sido resiliente (…), o crescimento liderado pelos serviços deverá continuar no curto prazo (e) a procura interna será o principal motor de crescimento nos próximos anos.
As mais recentes previsões destes indicadores sugerem essa desaceleração, com os números do BCE a apontarem para que os salários negociados na Zona Euro venham a cair para 1,87% no terceiro trimestre, face aos 3,95% do trimestre anterior, enquanto o crescimento salarial global desacelerou para 3% no terceiro trimestre, o valor mais baixo desde 2022.
Esta moderação salarial é essencial para o BCE manter a inflação ancorada na meta dos 2%, sobretudo considerando que o setor dos serviços, intensivo em mão-de-obra, continua a registar aumentos de preços persistentes.
Economia resiliente mas incerteza persiste
A decisão de manter os juros inalterados foi justificada também pela resiliência da economia da Zona Euro. “A economia tem sido resiliente”, afirmou Lagarde no decorrer da conferência de imprensa, destacando que “o crescimento liderado pelos serviços deverá continuar no curto prazo” e que “a procura interna será o principal motor de crescimento nos próximos anos”.
O BCE reviu em alta as projeções de crescimento para 1,4% em 2025, 1,2% em 2026 e 1,4% em 2027, mantendo-se em 1,4% em 2028 — valores superiores às projeções de setembro, graças sobretudo à força da procura doméstica.
“A perspetiva para a inflação continua a ser mais incerta do que o habitual”, notou a presidente do BCE, mas sublinhou que “as tensões comerciais aliviaram”.
As exportações foram outra surpresa positiva. “Surpreenderam-nos”, confessou Lagarde, sublinhando que “as exportações provaram ser sustentáveis”. Os dados oficiais confirmam esta tendência: em outubro, as exportações da Zona Euro cresceram 1% em termos homólogos, enquanto o excedente comercial mais do que duplicou para 18,4 mil milhões de euros.
Apesar dos sinais positivos, Lagarde manteve um tom cauteloso quanto às perspetivas futuras. “Simplesmente não podemos oferecer orientação prospetiva dada a incerteza”, declarou, reconhecendo que “a perspetiva para a inflação continua a ser mais incerta do que o habitual”. A presidente do BCE observou ainda que “a incerteza pode ter piorado”, mas também notou que “as tensões comerciais aliviaram”.
O ambiente comercial desafiante permanece uma preocupação para a autoridade monetária da Zona Euro. “O ambiente comercial desafiante será um travão ao crescimento”, alertou Lagarde, acrescentando que “o ambiente global provavelmente continuará a ser um travão”.
No entanto, existem fatores compensatórios. “A despesa governamental em infraestruturas e defesa deverá sustentar o investimento”, afirmou, referindo-se aos planos europeus de reforço das capacidades de defesa e infraestruturas críticas que podem totalizar 100 mil milhões de euros.
Questionada sobre a valorização do euro, Lagarde foi pragmática. “Não temos como alvo a taxa de câmbio”, esclareceu, mas reconheceu que “um euro mais forte poderia fazer baixar a inflação”. Além disso, identificou riscos para a estabilidade financeira, alertando que “uma possível repricing do mercado é um risco de estabilidade financeira”.
A decisão do BCE de permanecer em modo de espera reflete um equilíbrio delicado: inflação controlada mas com pressões persistentes nos serviços, crescimento económico acima das expectativas mas vulnerável a choques externos, e salários a desacelerar mas ainda acima dos níveis históricos.
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