Economia vai pesar quando os franceses forem a votos

Entre o défice que nunca mais desce, o crescimento que não sai da cepa torta e o "mamute gordo" da Função Pública, o novo ocupante do Eliseu vai ter de resolver estes cinco desafios.

Este domingo, os franceses vão escolher os seus favoritos para ocupar o Palácio do Eliseu, a residência do Presidente francês. Se a eleição só se decide na segunda volta — a 7 de maio — é certo que a primeira vai já deixar ver quais as visões de França que são mais populares entre os eleitores, e um dos prismas mais populares para estudar o país durante o período de campanha tem sido o económico.

Fotomontagem Raquel Sá MartinsFotomontagem: Raquel Sá Martins

Entre os temas a que é impossível escapar, o ECO juntou cinco: estes são os desafios da economia francesa que o novo Presidente vai ter de conseguir enfrentar para ser bem-sucedido. Conheça-os, e algumas das propostas dos principais candidatos.

O défice e o limite (imaginário?) dos 3%

A 24 de março, o instituto francês de estatísticas publicou o valor do défice de 2016: 3,4% do PIB, ainda acima do limite de 3% estabelecido para a Zona Euro e que os diferentes Governos procuram cumprir, mas representa uma queda ligeira relativamente ao ano anterior. O número ficou aquém do objetivo estabelecido de conseguir reduzir este indicador para os 3,3%, devido a receitas inferiores ao previsto, escreve o Le Monde (acesso livre). Assim, de acordo com as normas europeias, a França deve continuar a trabalhar para reduzir o valor. Mas nem todos os principais candidatos ao Eliseu acham isso. Tanto à esquerda como à direita há quem critique o limite dos 3% e não faça planos para o manter.

A candidata da Frente Nacional, a nacionalista Marine Le Pen, defende a saída tanto do euro como da União Europeia, pelo que para ela os 3% pouco significam — o que Le Pen quer é um referendo para sair dos tratados europeus e voltar a uma França isolada com todo o controlo sobre as suas contas públicas.

Mas à esquerda também há quem defenda que “a dívida não é o problema”, lembra o Le Figaro (acesso livre). Para Jean-Luc Mélenchon, o candidato mais à esquerda que está posicionado para sair bem colocado nas primárias, o objetivo é esquecer os pactos de estabilidade do Governo anterior, começar por aumentar o défice até aos 4,8% em 2018, com uma injeção de capital na economia francesa que depois permitiria voltar a reduzir o défice para os 2,5% no final dos cinco anos de mandato.

Então quem quer reduzir o défice? Não se pode contar com o PS, já que Benoît Hamon também não espera fazê-lo nos primeiros anos, nem mesmo com François Fillon, o candidato da direita que tem sido abalado por escândalos, cujo plano é de só reduzir para baixo do limiar simbólico em 2019. O candidato com o plano mais rápido para cumprir as metas europeias é mesmo o independente — e atual favorito numa eleição que já teve imensas voltas — Emmanuel Macron. Quando apresentou o seu plano orçamental, ainda que mais tarde que os restantes candidatos, Macron mostrou logo um compromisso de baixar o défice para 3% ainda este ano, e continuar a reduzi-lo anualmente até chegar a apenas 1% em 2022.

Desemprego: quem dá menos?

O desemprego em França tem-se mantido estável nos últimos meses. Os dados de fevereiro — os mais recentes disponíveis — mostram que o número de pessoas sem qualquer atividade diminuiu 0,1% em relação ao mês anterior, para uma taxa de 10% que representa 3,46 milhões de pessoas. No ano passado, em fevereiro, a taxa situava-se nos 10,2%, com a tendência a ser de redução ligeira ou mesmo de estagnação.

Quem agarra na bandeira do desemprego? François Fillon sim, mas de outra perspetiva: para chegar ao “pleno emprego”, a ideia sua ideia é a de mudar o sistema de indemnização por desemprego, para estimular uma retoma mais rápida do emprego. Assim, lembra o Le Parisien (acesso livre), Fillon pretende obrigar os desempregados a justificar a recusa de um emprego, e reduzir mais rapidamente o subsídio recebido conforme a quantidade de tempo em que se precisar dele.

Benoît Hamon, do PS, pega na questão pela outra ponta: sem intenções de tocar no subsídio de desemprego, o socialista muito desfavorecido nas últimas sondagens insiste na sua principal proposta, um “rendimento universal”. Esse rendimento universal seria pago também aos desempregados, suplementando o que faltasse aos subsídios para alcançar esse limiar.

“Apaixonar-se por uma taxa de crescimento”

A última estimativa do banco central francês deu numa revisão em baixa da estimativa de crescimento para o primeiro trimestre de 2017, mas manteve a previsão para o ano todo: 1,3%, após 1,1% registados no ano passado — um pouco abaixo dos 1,5% que o Governo pretende, estimativa considerada “um pouco elevada” pelo Tribunal de Contas. É pouco, e preocupa a opinião pública francesa, mas os principais candidatos parecem acreditar que facilmente conseguem muito mais, julgando pelas suas promessas — mais crescimento significa mais investimento, mais poder de compra, redução de impostos, e o défice em queda. Mas como é que os candidatos pretendem esse maior crescimento? Essa questão já é mais complicada.

Um slogan do Maio de 1968 era “não nos podemos apaixonar por uma taxa de crescimento”, mas parece que os políticos franceses estão a tentar provar o contrário, brinca o Les Échos (acesso pago). Entre os principais candidatos, Macron e Fillon querem um crescimento de 1,7% por ano, em parte por uma maior liberalização fiscal para as empresas, Marine Le Pen espera 2,3% no seu vago programa económico, Jean-Luc Mélenchon quer 2%, através de uma enorme injeção de capital na economia.

Mas a reviravolta mais engraçada é mesmo a de Benoît Hamon, que começou por dizer: “Já não acredito no mito do crescimento”. O candidato do PS, neste momento em quinto lugar nas intenções de voto, dizia acreditar que o progresso deveria ser “ecológico”, mas mudou de ideias a meio da campanha para começar a apontar para uma taxa de crescimento de 2% — um desacordo interno, explica o Les Échos, entre os economistas de diferentes correntes que compõem a equipa do socialista.

Frexit, Fremain, ou nem por isso?

A França vai ter de decidir como se posicionar na União Europeia destas eleições para a frente, e os candidatos à escolha dos eleitores representam quase todo o espetro imaginável nestas posições. Desde uma Le Pen que quer cortar todos os laços a um Macron que quer uma União Europeia mais próxima e mais funcional, uns querem rever tratados, outros só não querem aproximar-se mais. O que é certo é que esta integração na UE é, antes de mais, uma questão económica, e cada um dos principais candidatos tem a sua visão.

O que significaria, por exemplo, uma vitória de Marine Le Pen e um referendo ao Frexit, ou uma saída da moeda única? O euro quase de certeza cairia abaixo da paridade, e o regresso ao franco não fortaleceria a economia francesa, alerta o Les Échos, além de afetar os mercados negativamente — uma tendência que já se começa a notar nos juros a dez anos da dívida soberana.

Além de Marine Le Pen, também no outro canto do espetro há um argumento parecido: Jean-Luc Mélenchon, que tem subido nas sondagens e chegou a ultrapassar François Fillon, defende como Plano B uma saída da União Europeia — se o Plano A, de renegociar os tratados da UE para se tornarem mais representativos e democráticos, não resultar.

Já o candidato mais europeísta, Emmanuel Macron, quer uma União Europeia mais integrada em várias áreas, em especial um orçamento coletivo para a Zona Euro e controlo comum do investimento estrangeiro na UE.

Função Pública: é preciso “emagrecer o mamute”?

A Administração Pública — e em especial o número de funcionários públicos — acaba sempre por ocupar o centro do debate no discurso de campanha para as presidenciais francesas. Como destaca a televisão France Info, já em 1997 o ministro da Educação Claude Allègre usou o infame termo “é preciso emagrecer o mamute” sobre a quantidade de professores que existia. Os funcionários públicos representam um quarto da despesa pública francesa, segundo a mesma televisão, e o tema não faltou nesta corrida — uns querem acabar com centenas de milhares de postos, outros querem aumentá-los ainda mais.

O Le Parisien foi saber: há mesmo um número excecionalmente alto de funcionários públicos em França? É verdade que 13% do PIB serve para pagar aos funcionários públicos, o que é superior aos valores no Reino Unido (10%) ou na Alemanha (11%), mas um dos peritos consultados pelo jornal sublinhou que os números não são assim tão comparáveis. “Por exemplo, na Alemanha, a escola começa aos seis anos, e em França aos três. A Função Pública também reflete estas escolhas sociais”, afirmou.

Quem tem a proposta mais dramática para a Função Pública é François Fillon. Até ao final do seu mandato, o candidato do LR quer acabar com 500 mil postos, ou cerca de 9% dos efetivos, esperando poupar 100 milhões de euros nesse período.

Macron quer reduzir 120 mil postos até 2022, mas recrutando polícias e professores, o que é uma posição mais intermédia. Os outros três principais candidatos, Hamon, Mélenchon e Le Pen querem todos contratar, com destaque para Mélenchon, que quer criar 200 mil empregos na Função Pública. E parece estar a resultar — afinal o candidato que começou em quinto nas sondagens já ultrapassou Fillon, com as suas promessas de cortes. No domingo, tiram-se (em parte) as teimas: qual a economia que os franceses querem afinal?

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