Perdoai-lhes, São “Nossos”

Em Portugal, faz-se o inverso. Em vez de elevarmos a média, rebaixamos a fasquia para acomodar as incapacidades das nossas elites. Transforma-se a exceção em padrão e o desleixo em valor cultural.

Recentemente, num daqueles exercícios de descompressão sintética a que o X nos obriga, escrevi uma frase que me parece resumir a tragédia do nosso modelo de desenvolvimento: “Os países mais avançados não o são porque têm elites perfeitas, mas porque elevaram o nível do cidadão comum. O verdadeiro patriotismo consiste em aumentar a qualidade da média, não em fazer da mediocridade uma identidade.”

Num país normal, isto seria uma lapalissada de economia política. Em Portugal, ainda e infelizmente, soa a provocação. E soa a provocação porque contraria frontalmente a narrativa dominante produzida e consumida por um ecossistema endogâmico de comentadores, políticos e avençados do sistema que transformou a exceção à regra e o facilitismo institucional numa espécie de modo de vida português.

Na passada semana, escrevi sobre o “Abominável Homem das Neves”, essa figura que habita na penumbra das instituições, avessa à transparência, que sobrevive no frio da irresponsabilidade e se alimenta do silêncio dos seus pares. Esse homem das neves não é um acidente histórico; é o produto direto de um sistema que recusa medir-se pelos padrões da excelência e da exigência. E é ele que hoje nos quer convencer de que a boa gestão, o rigor escrupuloso e o cumprimento intransigente das regras são questiúnculas de somenos, meras picardias burocráticas impostas por almas insensíveis.

Assegura-se assim aquilo que designo como a banalização da “ilegalidade do bem”. É a ideia profundamente perversa de que o atalho, o favor, o contorno da lei ou a manobra de bastidor são desculpáveis se a intenção for nobre ou se a vítima for apenas o abstrato erário público. É este o caldo de cultura onde as liberalidades de um Ricardo Salgado puderam, por exemplo, ser olhadas por muitos como meros excessos de um sistema habituado aos “favores”, “amigos”, “cunha” e “facilitismos” e não como a erosão corrosiva da ética pública.

Não é por acaso que diagnósticos internacionais recentes, fundamentados na ciência económica consagrada com o Prémio Nobel, voltam a colocar o dedo na ferida institucional portuguesa. Ao demonstrarem como o Estado vive do compadrio e falha sistematicamente aos seus cidadãos, estes estudos não fazem mais do que dar respaldo científico àquilo que vivenciamos no dia a dia. Quando a proximidade ao poder vale mais do que a competência e o compadrio substituem o mérito, consagra-se um modelo extrativo que drena os recursos do país e empurra a sociedade para o desânimo.

Mas o fenómeno atingiu o seu cume de hipocrisia na linguagem. Vá-se à televisão (esse grande salão paroquial do debate público) e escutem-se os arautos do status quo. Quando confrontados com a necessidade de exigir o mesmo rigor ético e a mesma eficiência que se exigem a qualquer democracia europeia madura, surge imediatamente e de forma assustadoramente generalizada o argumento anestesiante: a defesa do “português médio”, do homem “como nós”.

Para fechar o cerco do debate, saca-se da caricatura fácil: “O que é que vocês querem? Santos e franciscanos no serviço público?”

Esta questão retórica revela tudo. Ao igualar o cumprimento básico da lei e a integridade à condição de santidade, o sistema assume implicitamente a sua falência moral. Diz-nos que a honestidade e a competência técnica são virtudes inalcançáveis para o comum dos mortais, devendo nós conformar-nos com a benevolência dos iluminados e os desvios de conduta dos habituais “espertos”. É a consagração da mediocridade como traço identitário nacional. Querem-nos fazer crer que ser português é ser benevolente com a incompetência e condescendente com a chico-esperteza.

Como se puxa um país para cima partindo desta premissa moralmente falida?

Não é, com certeza, alimentando os vícios do sistema nem desculpando o Abominável Homem das Neves. A resposta não está em esperar por uma elite perfeita ou por governantes imaculados caídos do céu. O verdadeiro motor das nações prósperas reside no patriotismo da média, sim na capacidade de a média impor as mudanças porque as exige como meio de desenvolvimento justo e capaz de tirar o pleno das suas capacidades e recursos.

Os países que admiramos no centro e no norte da Europa não são compostos por anjos. São compostos por instituições fortes que não dependem da virtude individual de quem as ocupa, mas sim da clareza das suas regras e da certeza da sua aplicação. Nesses países, o cidadão comum é respeitado porque dele se exige rigor, e ao Estado exige-se responsabilidade. A fasquia da média foi elevada ao longo de gerações através da educação, da literacia financeira e institucional, e de uma intolerância cultural absoluta à corrupção e ao facilitismo.

Em Portugal, faz-se o inverso. Em vez de elevarmos a média, rebaixamos a fasquia para acomodar as incapacidades das nossas elites. Transforma-se a exceção em padrão e o desleixo em valor cultural.

No entanto, recuso aceitar que a conformidade seja a nossa única herança. Portugal não é a pequenez das suas elites nem o cinzentismo de quem nos quer convencer de que a mediocridade é o nosso destino genético. Temos hoje a geração mais qualificada, informada e trabalhadora que este país já viu, um ecossistema vivo de talento que recusa ver na chica-esperteza um teto para as suas aspirações.

A razão e os factos provam-no sem rodeios: o facilitismo não é empatia nem tolerância, é a forma mais perversa de nos condenar ao subdesenvolvimento. Exigir rigor, integridade e regras iguais para todos não é um capricho burocrático, é a prova máxima de respeito por nós próprios e pelas gerações futuras. Uma nação próspera não subsiste na dependência paternalista do Estado, ergue-se na liberdade de escolha, na responsabilidade individual e no incentivo a quem assume o risco de criar e inovar. É tempo de recusar a gestão pela bitola do “deixa-andar” e fixar a fasquia onde ela sempre devia ter estado: no compromisso intransigente com a excelência. Portugal e os portugueses merecem, simplesmente, muito melhor.

  • Colunista convidado. Economista e professor na FEP e na PBS

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