De que ri o Doutor Centeno?

Será que o Doutor Centeno quer apenas reforçar a máxima de Bismarck: “Nunca se mente tanto como antes de uma eleição, durante uma guerra e depois de uma caçada”?

Faço um comentário preliminar a este artigo: Não conheço pessoalmente o Doutor Mário Centeno (amigos comuns dizem-me ser uma pessoa fantástica no trato pessoal). Nem discuto os seus méritos académicos (que são muitos, quer no Ph.D. em Harvard, quer nas publicações académicas).

Mas o Doutor Centeno tem uma característica pessoal que me deixa sempre desconfiado: está-se sempre a rir. Pode (seguramente é), defeito meu, mas acho estranho que uma pessoa esteja sempre a rir-se, independentemente do local onde está ou do assunto de que fala. Não é igual estar entre amigos a contar piadas ou histórias ou no salão nobre do Ministério das Finanças a falar sobre política orçamental e fiscal.
Mas de que ri Centeno?

Ri de uma “Geringonça” sem capacidade reformadora, incapaz de produzir as mudanças e reformas necessárias ao crescimento económico? De uma “Geringonça” criada apenas para servir os interesses do PCP/CGTP, a agenda mediática de costumes do Bloco e ambição desmedida de António Costa em ser primeiro-ministro?

Ri de uma “Geringonça”, que para servir o poder de António Costa, atirou fora as quatro principais medidas do programa económico do PS, feito pelo Doutor Centeno? (redução da TSU para empresas e para trabalhadores, IRS negativo como compensação pelo não aumento do salário mínimo e uma maior flexibilidade na contração e legislação laboral, permitindo acordos ao nível das empresas e não por setores). Ou o Doutor Centeno quer apenas reforçar a máxima de Bismarck: “Nunca se mente tanto como antes de uma eleição, durante uma guerra e depois de uma caçada”? Como o Doutor Centeno não foi à guerra nem consta que vá de fim-de-semana à caça…

Ri das suas declarações sobre como as instituições internacionais falharam as previsões económicas quando o programa eleitoral do PS (onde o Doutor Centeno se juntou a mais 10 economistas) previa um crescimento de 2,6% em 2016 e 3% em 2017, e o crescimento previsto é de 1,4% em 2016 e 1,5% em 2017 (metade da previsão)? Ou o Doutor Centeno quer apenas contribuir para aquela piada de que Deus criou os economistas apenas para parecer que os meteorologistas acertam muito? Ou ri-se do “spin” de rever o crescimento para 1,2% para que depois tendo 1,3%-1,4% apresentar isso na propaganda como uma fantástica vitória?

Ri dessas mesmas declarações quando o seu Orçamento para 2016 previa um crescimento de 1,8% e as instituições internacionais (Comissão Europeia, OCDE e FMI) já todas nessa altura previam crescimento inferior a 1,5%?

Ri da sua posição quando o governo foi formado, em que ficou como nº4 da hierarquia, atrás do inarrável Santos Silva e da Doutora Manuela Leitão Marques? Sem qualquer peso político? Ou ri do facto de ter tido um Secretário de Estado a ir a um jogo do Europeu por uma empresa com quem o Estado tem um contencioso fiscal, e esse Secretário não ter sido demitido, numa prova da falta de poder político do Ministro das Finanças?

Ri das suas próprias declarações em que referia que o seu principal papel é evitar um segundo resgate? Ou ri-se da forma como, levianamente, se disse que ou se vendia o Novo Banco até ao verão de 2017 ou o banco era objeto de uma resolução, levando a uma maior perda de valor do banco?

Ri-se de uma execução orçamental “maquilhada” e “manipulada” (conforme escrevi “O “PERES” Natal e os números de 2016” e “As contas de 2016 e o “milagre orçamental”), em que o défice de 2,3% resulta de medidas pontuais, corte no investimento e cativações? Ou ri da promessa de relançar o investimento público (para depois o reduzir em mais de 600 M€ face a 2015) e de melhorar os serviços públicos (para depois assistir a uma degradação como nunca visto)? Ou ri de que prometeu “virar a página da austeridade”, e a carga fiscal manteve-se? Ou ri do facto de um “governo de esquerda” apostar nos impostos indiretos, que são socialmente mais injustos?

Ri-se de um “governo de esquerda” reduzir a tributação em IRS e aumentar funcionários públicos (acima dos 1.500 €) e pensionistas (com o fim da CES para pensões acima dos 4.500 €), favorecendo assim as camadas populacionais com maiores rendimentos (mas procurando claros benefícios eleitorais)? Ou ri de um corte no IVA da restauração, que mais não é que um subsídio ou aos donos dos estabelecimentos ou as pessoas que mais consomem estes serviços (que em volume e preço são as pessoas com maiores rendimentos)? Ou seja, ri de uma política fiscal que privilegia aqueles com maiores rendimentos?

Ri do aumento dos spreads desde o final de 2015, com o spread face à Alemanha a passar de 150-170 bp para 400 bp? Ou ri das taxas de juro a 10 anos acima dos 4%? Ou ri do facto de a taxa de juro limite para a dívida Portuguesa, em torno dos 5%, estar próxima de ser alcançada? Ou será que ri dos mais de 200 milhões €/ano que as emissões de divida pública de 2016 custaram a mais face às condições de 2015 (ver “quanto nos custa a Geringonça”). Ou ri-se de que se perdeu uma oportunidade extraordinária de amortizar dívida ao FMI (poupando bastante dinheiro em juros: se se tivesse amortizado 10 mil M€ a uma taxa média de 2%, face aos 4% do FMI, ter-se-ia poupado mais 200 M€, em cima dos 200 M€ que referi antes)? Ou ri de que nem com a política monetária mais agressiva de sempre levada a cabo na zona Euro Portugal conseguiu ter juros aceitáveis? Ri da oportunidade perdida?

Ou será que se ri do aumento do Salário Mínimo Nacional, ao contrário e ao arrepio de tudo o que o académico Mário Centeno escreveu nos últimos 20 anos, em algumas das mais prestigiadas revistas académicas internacionais? Será que ri do descrédito em que caiu no mundo académico?

Ou será que ri do imbróglio da Caixa Geral de Depósitos? Ri-se de todo o seu comportamento para com as pessoas que convidou para a administração da Caixa? Sobre todo o processo aconselho a leitura do artigo de José Manuel Fernandes no Observador (““House of Cards” na Caixa Geral de Depósitos”).

Ri da mentira, da hipocrisia, da manha e do enxovalho público que sujeitou os ex-gestores da Caixa? Ou ri da forma como o Presidente da República o enxovalhou no comunicado que fez e ao obrigá-lo a fazer uma conferência de imprensa? Ou ri do facto de o Presidente da República o ter desautorizado, bem como ao primeiro-ministro, a lembrar Sampaio quando impôs a demissão de Vara (por motivos bem diferentes, diga-se em defesa do Doutor Centeno).

Ri-se da patranha de aprovar um diploma em Conselho de Ministros e guardá-lo durante um mês, à espera que ninguém desse conta da sua publicação? Ou ri-se da declaração mais cínica de todas, a de António Costa “Eu entreguei a minha declaração…”. Ou ri-se de ter mentido aos deputados e ao país? Ou ri-se da sua fantástica conferência de imprensa de segunda-feira? Ou ri-se porque a sobrevivência de António Costa e do PS é mais importante que o futuro do país?

Há no entanto uma outra hipótese. Há a hipótese de o Doutor Centeno ser ainda mais inteligente do que o seu percurso académico mostra. Quem nos garante que o Doutor Centeno não tem mesmo motivos para rir? Quem nos garante que todo este episódio da Caixa não é apenas o Doutor Centeno a procurar uma razão para se demitir ou ser demitido? É que pedirem-lhe para fazer de duplo do Professor Teixeira dos Santos, num remake de 2011, é capaz de ser demais. E o Doutor Centeno talvez já tenha percebido que é esse papel que lhe está reservado. Mais vale sair agora antes de a coisa dar o estouro. É que, depois, nem ele se vai rir, quanto mais nós.

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