Principal atração em Portugal, Mercado da Ribeira quer agora brilhar nos EUA

O mercado lisboeta, concessionado à Time Out desde 2010, recebeu em 2017 mais de 3,6 milhões de visitantes e os lojistas residentes faturaram 33 milhões. Qual é o segredo do novo Mercado da Ribeira?

Algures em 2010, chegou à redação da revista Time Out Lisboa um desafio: as candidaturas da câmara municipal para concessionar alguns dos antigos mercados da cidade estavam abertas e a autarquia desafiou a revista a concorrer.

Na fase do desenho do projeto, a ideia era que o Time Out Market nascesse por necessidade. “Uma revista que todos conhecem, a Time Out Lisboa e, depois, a Time Out Porto, teve necessidade de se expandir como marca, de se estender e de criar um formato que pudesse dar consistência e muita viabilidade comercial aos seus conteúdos“, explica Ana Alcobia, diretora-geral do Time Out Market, em entrevista ao ECO. A questão era precisamente essa: a revista já produzia conteúdos “de muita qualidade” e tinha o know-how sobre quais eram os espaços onde toda a gente queria ir em Lisboa. Mas, por outro lado, faltava-lhe uma plataforma. “Porque não abrir um espaço onde pudéssemos ter o melhor de Lisboa debaixo do mesmo teto?”, questiona Alcobia.

O que era, em 2010, uma ideia “muito pouco objetiva”, saiu vencedora do concurso. E, aquela que era uma zona degradada da capital [Cais do Sodré] em 2010, transformou-se também pelo mercado, e através dele, num sítio onde todos querem ir. E estar.

Ana Alcobia, diretora-geral do Time Out Market.D.R.

Não é para menos: o Mercado da Ribeira tornou-se um dos espaços turísticos com mais sucesso em Lisboa, sendo o espaço da cidade que regista atualmente o maior número de visitantes. Só em 2017, registou 3,5 milhões de visitantes, um recorde de crescimento que sustenta a faturação dos lojistas residentes: 33 milhões em 2017. Já este ano, em março, o projeto recebeu o “Óscar” da restauração do Hamburg Foodservice Award, um prémio internacional que distingue os projetos mais visionários de restauração, e prepara-se para abrir a segunda e a terceira localizações do conceito, nas cidades de Nova Iorque e Miami, ainda em 2018.

“Quando se pensa numa solução para um grupo de media pensa-se sempre um bocadinho nessa possibilidade. Havia sempre a tentação de pensar que um dia, esta ideia portuguesa poderia escalar para o resto do mundo. Não pensámos foi que acontecesse tão rápido”, diz a diretora-geral do mercado.

Havia sempre aquela tentação de pensar que um dia, esta ideia portuguesa poderia escalar para o resto do mundo. Não pensámos foi que acontecesse tão rápido.

Ana Alcobia

Diretora-geral Time Out Market

Com mais de 300 postos de trabalho criados e três chefs com Estrela Michelin residentes, o Time Out Market continua a ser a “montra” da cidade em constante atualização, missão para a qual nasceu. “A ideia era muito mais criar uma sala-plataforma onde muitas coisas pudessem acontecer — e o Estúdio Time Out é um bocadinho o reflexo disso hoje em dia, porque recebe desde concertos a workshops, peças de teatro, etc… Mas estávamos à procura de um espaço com 1.000 metros quadrados, e não com 10.000 metros quadrados, que foi aquilo que aconteceu com o Mercado da Ribeira. Ainda fomos ver o Mercado de Santa Clara e o do Bairro Alto mas, quando viemos ver este, houve um interesse brutal, até porque acreditávamos que esta área [Cais do Sodré] ia ser muito diferente do que era na altura”, explica Ana Alcobia.

O sucesso do projeto ditou o resto: em 2017, o grupo internacional dono da Time Out comprou o negócio dos mercados e deu novo fôlego ao negócio, sobretudo com planos de expansão que passam por aberturas noutras cidades como Boston, Chicago e Montréal, em 2019. “Foi uma aventura gigante. E, tanto nós como os lojistas iniciais que aceitaram este projeto, tiveram uma enorme coragem, porque isto tinha tudo para correr mal”, acrescenta.

" Foi uma aventura gigante. E, tanto nós como os lojistas iniciais que aceitaram este projeto, tiveram uma enorme coragem, porque isto tinha tudo para correr mal.”

Ana Alcobia

Diretora-geral Time Out Market

Quatro anos depois, sítio mais visitado

O Time Out Market recebeu 3,6 milhões de visitantes em 2017. Criado para ser uma montra do que de melhor se faz na cidade, o Time Out Market Lisboa foi construído para ser uma mistura de um espelho do que se passava na cidade com uma curadoria que reflita a qualidade e as tendências. “No fundo é aquilo que nos guia todos os dias para o sucesso que temos: hoje em dia é extremamente notório o cuidado que continuamos a ter com o mix, são entradas que mostram o quanto o mercado quer estar e corresponder ao claim que assina”, assinala Ana Alcobia.

Por isso, salvo quando os contratos terminam porque os conceitos não resultam, neste mercado há uma seleção do que de melhor se faz na cidade, sem necessidade de branding associado. O barómetro continua a ser feito através de processos como inquéritos aos visitantes sobre as suas necessidades e, também, por via de “clientes mistério”, entre outros. “Além dos conteúdos que a revista vai fazendo, e que são essenciais para a escolha que a curadoria faz para dentro do mercado, a realidade é que continuamos a ter ‘cliente mistério’, inquéritos dentro do mercado. Para nós, o que o público local ditar é essencial e é regra. Fazemos muito aquilo que o público local nos vai pedindo”, diz Ana Alcobia assinalando por exemplo que, no caso da entrada do chef Vítor Sobral, o briefing dado pelo público e pela curadoria apontavam para a falta de um chef de ‘comida de tacho’ e que fosse especializado em ‘bacalhau’. O nome top of mind foi o chef fundador do Claro.

“Muitas vezes, as escolhas não têm a ver com o facto de um chef ser muito melhor do que outro mas de, com este chef, fazer muito mais sentido com a oportunidade e com as necessidades sentidas dentro do mercado.”

Também por isso, Ana Alcobia justifica que o sucesso do Mercado está relacionado com a qualidade do serviço mas, também, com a transformação sofrida pela cidade ao longo dos últimos anos. “Toda a Lisboa se tornou num enorme fenómeno e, nesse aspeto, é muito bom e positivo aquilo que está a acontecer com a nossa cidade. Aqui, porque a qualidade é sem dúvida notada em qualquer experiência que se faça aqui dentro: desde o éclair ao pastel de nata, até ao prato do chef estrela Michelin, a realidade é que as pessoas não sentem que existe qualquer tourist trap ou forma de enganar ninguém. O que temos aqui é nu e cru, aquilo que cada um deles representa. É por isso que não existem logos, é por isso que é o nome deles que lá está e não o do restaurante. É o chef que cá está, também um bocadinho para os responsabilizar por aquilo que vai sendo servido e que seja de enorme qualidade. E os turistas notam isso desde a primeira oportunidade”, diz, acrescentando que há inclusivamente turistas que, durante uma semana, almoçam e jantam sempre no mercado, tornando-se rapidamente “clientes habituais”. “E isso mostra o nível de qualidade e até de preço que o Time Out Market tem, esta democratização da comida para nós é muito importante”.

A fachada do Mercado da Ribeira foi mantida, mesmo com a concessão dada à revista Time Out, em 2010.

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