OPA à Ercros. Montenegro “satisfeito por ver uma empresa portuguesa comprar uma espanhola”

Primeiro-ministro lembrou que operação de aquisição da empresa espanhola "teve a sua dificuldade e complexidade", que o Executivo acompanhou "do ponto de vista diplomático".

Quatro meses depois de a Bondalti ter conseguido comprar mais de 77% do capital da gigante espanhola Ercros, numa operação longa e complexa, que envolveu a diplomacia portuguesa, o primeiro-ministro Luís Montenegro mostrou-se “satisfeito por ver uma empresa portuguesa a adquirir uma espanhola”, aplaudindo o negócio protagonizado pela química portuguesa do grupo José de Mello.

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Fico satisfeito por ver uma empresa portuguesa adquirir uma empresa espanhola“, afirmou Luís Montenegro, a falar na na apresentação da conclusão do REPower Chemicals, num evento que decorreu esta quinta-feira em Estarreja. O primeiro-ministro acrescentou que “se tivesse sido ao contrário não ficava tão contente, mas teria de reconhecer o mérito que num contexto competitivo estas operações podem contemplar“.

O chefe do Governo lembrou que “a operação teve a sua dificuldade e complexidade, que o Executivo acompanhou “do ponto de vista diplomático” e reforçou o facto de ter ficado “satisfeito pela opção tomada”, realçando que a “escala com a aquisição que fez em Espanha é o caminho com o qual nos identificamos e queremos estimular em Portugal e a nível europeu”.

“Em meu nome e do Governo de Portugal, não temos que temer campeões europeus, temos é de ser parte deles. Naqueles onde não temos posição direta, colaborar com eles”, acrescentou o líder do Governo.

Montenegro insistiu que a Europa deve apostar na escala para ganhar competitividade. “A Europa está num ponto onde os grupos económicos mais fortes não devem asfixiar os mais frágeis, mas devem conviver com eles“, afirmou, notando ainda que as empresas terão de apostar em consórcios quer à escala nacional, quer europeia, para captar fundos europeus no futuro.

Após dois longos anos, a Bondalti concluiu em março com sucesso a oferta pública de aquisição (OPA) sobre a espanhola Ercros. A oferta de 3,505 euros lançada, em março de 2024, pela química portuguesa sobre 100% do capital da companhia catalã foi aceite por 77,23% dos acionistas, um resultado que superou amplamente o mínimo de aceitação fixado em 50% do capital.

Sobre o investimento de 76 milhões de euros para descarbonizar a operação na unidade industrial de Estarreja, que contou com um apoio de 32 milhões do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), Montenegro sublinhou que este é “um investimento estratégico das empresas mas também do Estado”, numa parceira que junta recursos públicos com privados.

“Este projeto, que é de modernização, descarbonização, de inovação, de alavancagem económica de uma área de atividade e por via dela de várias consequências”, nomeadamente a “possibilidade de dinamizar outras industrias, melhores empregos, ter clusters de atividade que façam com que vários ecossistemas económicos funcionam”.

Descarbonizar sem “acabar com a indústria”

João de Mello, presidente da Bondalti, lembrou o momento difícil que a indústria química europeia, recordando que há duas décadas “era líder global e a mais competitiva do mundo. Desde então, a nossa indústria tem vindo a deteriorar-se a um ritmo acelerado, perdendo competitividade internacional, apesar de o setor ter quadruplicado em valor à escala global”.

João de Mello diz que é preciso proteger “mãe de todas as indústrias”Ricardo Castelo

“Há vinte anos, 30% dos produtos químicos vendidos no mundo eram produzidos na Europa. Hoje, a nossa quota de mercado mundial é de apenas 12% — muito longe da China, cuja quota no mercado internacional ascende aos 46%. Segundo o Cefic, o Conselho da Indústria Química Europeia, enfrentamos a crise mais profunda desde o início do século”, detalhou, destacando que “as exigências impostas pelos objetivos climáticos colocam a indústria química europeia em pé de desigualdade face a outros mercados”.

Para o empresário, “é preciso uma política ambiental que reduza as emissões, mas não a indústria”. “Nos últimos anos, o setor perdeu 10% da sua capacidade de produção na Europa. Mais de 100 mil postos de trabalho foram destruídos ou estão em risco, e assistimos ao encerramento de fábricas no nosso continente e ao desvio de investimentos para mercados concorrentes”, atira.

Lembrando que a “indústria química é a mãe de todas as indústrias”, João de Mello disse que a Bondalti quer ser parte da solução, mas é preciso juntar esforços para proteger o setor. “Tenho a expectativa otimista de que o REPower demonstra, quando o setor público e o privado cooperam, a transformação industrial é possível. Mas é urgente acelerar este caminho, criando as condições para que a indústria continue a investir, a descarbonizar e a competir”.

Precisamos de uma política ambiental que reduza as emissões, mas não a indústria“, concluiu.

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