Exclusivo Dono do Grupo A4F põe negócios à venda, incluindo antiga Solvay

Manuel Gil Antunes adianta ao ECO que já tem propostas para as suas empresas, incluindo das próprias equipas de gestão, a quem dá preferência. Afasta-se para assegurar a continuidade dos negócios.

Complexo industrial da Hychem, em Vila Franca de XiraHugo Amaral/ECO

Os negócios do grupo de biotecnologia A4F estão à venda, incluindo a produtora de hidrogénio verde Hychem, a antiga Solvay Portugal, que foi adquirida há cerca de seis anos. “Temos muitos interessados, várias propostas em cima da mesa”, adianta o fundador e principal acionista Manuel Gil Antunes, em conversa com o ECO, assumindo que a venda das empresas é a “melhor forma de assegurar” o futuro. O processo deverá ficar concluído até final do ano.

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Gil Antunes adianta que tem propostas das próprias equipas de gestão (MBO, management buy out) para cada unidade do grupo, sendo que, para a Hychem, que é a maior empresa do grupo, com receitas acima dos 21 milhões de euros, recebeu ainda ofertas de investidores institucionais, incluindo fundos de investimento e grupos industriais.

Fundado há quase duas décadas e com interesses em áreas que vão desde a química, hidrogénio verde e biotecnologia, incluindo algas e ingredientes alimentares, o grupo deu início a um processo de atração de investidores há dois anos, com o objetivo de captar financiamento privado para vários projetos aprovados com apoios nacionais e comunitários entre os 40% e os 60%.

Esta operação trouxe várias manifestações de interesse, que revelaram três características em comum, conta Manuel Gil Antunes: investidores institucionais, com interesse em investir em projetos específicos e em ter o controlo de cada um desses projetos.

“Mas eu sempre tive dificuldade em aceitar a perda do controlo dos negócios”, respondeu a estes investidores num momento inicial.

“No entanto, circunstâncias pessoais levaram-me a mudar de perspetiva e a achar que, não tendo eu condições para continuar a ser o suporte destes projetos, devia pôr em primeiro lugar a continuidade das empresas e o seu desenvolvimento. Se isso significar que tenho de transferir o controlo das empresas, devo fazer. E é nesta fase que estamos”, relata.

Quando anunciou a sua intenção de vender os projetos, já após a reorganização do grupo levado a cabo no ano passado e que passou pela profissionalização da gestão, e no qual Manuel Gil Antunes passou para funções não executivas, as diferentes equipas de gestão manifestaram interesse em associar a investidores identificados em processos de MBO.

E eu privilegio esta lógica de MBO”, frisa. “O papel da gestão e dos detentores do know-how, que é a nossa equipa que está a desenvolver estes projetos há 18 anos, é muito relevante. É preciso encontrar soluções que mantenham o know-how e o conhecimento e as equipas onboard. Só uma lógica financeira não é a melhor”, salienta.

Manuel Gil Antunes detém 98% do grupo, enquanto os restantes 2% estão nas mãos das equipas de gestão.

O ministro do Ambiente, Matos Fernandes, visita o complexo industrial HyChem e a produção de microalgas da A4F - 23JUL21

“É para continuar com as pessoas que nos trouxe até aqui”

Com cerca de 180 trabalhadores, na sua maioria altamente qualificados o grupo de Vila Franca de Xira tem um negócio diversificado e dividido em três grandes blocos: algas (A4F, Algafuel e Algikey), biotecnologia não algas (Granutra e Biotrend) e químico (Hychem, detido pela Algora). Faz parte ainda do grupo a empresa de serviços partilhados Assergest.

Com os planos de investimento a serem concluídos dentro de um horizonte de dois anos, espera-se um “impacto muito significativo nas receitas” nos próximos anos. “Estas empresas têm um conceito de volume de negócios que está muito assente na despesa em inovação e nas receitas associadas a isso. Quando temos uma candidatura aprovada para um projeto, que habitualmente é de quatro anos, vamos desenvolvendo a tecnologia para explorar através de licenciamento ou em montagens de unidades industrial, são ciclos longos”, explica Manuel Gil Antunes.

Circunstâncias pessoais levaram-me a mudar de perspetiva e a achar que, não tendo eu condições para continuar a ser o suporte destes projetos, devia pôr em primeiro lugar a continuidade das empresas e o seu desenvolvimento.

Manuel Gil Antunes

Todas as empresas têm EBITDA positivos, são todas rentáveis e têm um potencial de crescimento significativo, mas para o qual é necessário investir para continuar este caminho”.

No caso da Hychem, que foi adquirida em 2020 ao grupo belga Solvay, há uma maior ambição em relação a este processo. Com 92 anos de atividade, é a maior empresa do grupo, representando cerca de dois terços de toda a faturação. “Tem uma base relevante”, adianta, contando que recentemente ganhou o concurso para o fornecimento de hidrogénio verde à rede de gás natural, um contrato de dez anos, além de ter duas concessões de exploração de sal e armazenamento em cavidade e um grande património imobiliário.

Manuel Gil Antunes admite que é altura de fechar um capítulo com a venda de todo o negócio: “É a melhor forma de assegurar a continuação das empresas que estão numa boa fase… se eu estiver a condicionar a entrada de investidores porque quero manter o controlo, é isso que mata a maior parte das empresas porque os donos não sabem afastar.”

Ainda assim, tem uma palavra para os futuros donos das empresas: “Imponho duas condições: é para continuar a trajetória e é para fazê-lo com as pessoas que fizeram isto e que conhecem e criaram este espírito que nos trouxe até aqui.”

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