Anacom está “politizada” e “vazia de ideias”, acusa líder da Nos

Miguel Almeida endurece as críticas ao regulador das comunicações e admite reduzir número de trabalhadores se consolidação "não vier a tempo". No futuro, não quer ter "nada a ver" com o SIRESP.

O CEO da Nos insiste que tem de existir consolidação no setor das telecomunicações em Portugal: “Se nós não reduzirmos o número de operadores, estamos a condenar o país às trevas digitais”, afirma Miguel Almeida, entrevistado pelo Expresso. “Se a consolidação não vier a tempo”, reduzir o número de trabalhadores da Nos “terá de estar em cima da mesa”, para “aguentar à tona” com rentabilidade futura do setor, que será mais reduzida, adverte. Declarações publicadas no rescaldo da apresentação de resultados semestrais da Nos, cujos lucros cresceram a dois dígitos, mas as receitas com telecomunicações diminuíram.

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Para o CEO da Nos, “Portugal está claramente em sentido contrário ao resto do mundo” em matéria de regulação das comunicações. Endurecendo o discurso contra a Anacom, Miguel Almeida diz na entrevista que “este regulador é politizado”. “Tem uma estrutura que foi politizada na anterior administração” e que “obedece a critérios ideológicos” e não “técnicos”, acusa. Atualmente, a Anacom “tem uma administração sem qualquer tipo de visão e vazia de ideias, refém da estrutura. É isso que leva a este percurso. Temos um regulador que deveria atuar segundo critérios técnicos a fazer política. Não foram eleitos para isso”, lamenta, mostrando-se contra a decisão preliminar de renovar o espetro das operadoras por um período mais reduzido do que estas pretendiam.

Em 2022, a Nos venceu dois lotes do concurso público para a manutenção do SIRESP até 2027, a rede de comunicações do Estado, ficando responsável pelos serviços de transmissão por circuitos terrestres e pela redundância por satélite. Confrontado com as falhas que continuam a ocorrer no sistema, o CEO afirmou: “Nós não gerimos o SIRESP” nem a Nos participou “no desenho da sua arquitetura”. “A Nos fornece um serviço de acordo com os requisitos que foram definidos. Se depois o SIRESP tem debilidades, isso não tem nada a ver connosco”, refutou. Para o futuro, deixa já como ponto assente que a empresa que lidera não irá a concurso: “Nós não teremos nada a ver com isso. Não quero ter mais nada a ver com isto.”

Houve ainda tempo para abordar o tema dos conteúdos. O gestor desdramatizou o aparecimento do canal de YouTube LiveModeTV, “parcialmente concorrente” da Sport TV, da qual a Nos detém 25% — “um buraco financeiro”, admite o próprio –, e que se popularizou nas últimas semanas por transmitir gratuitamente os jogos do Mundial, após ter adquirido os direitos de transmissão. Ainda assim, diz que “os principais conteúdos desportivos não são sustentáveis num modelo baseado exclusivamente em publicidade”, mostrando-se mais avesso ao facto de “haver uma regulação tão assimétrica” entre a televisão linear e este tipo de plataformas.

Por fim, num ano em que aceitou pagar mais de 114 milhões de euros para renovar os direitos televisivos do Benfica até 2028, Miguel Almeida assegurou também que não é intenção da Nos manter-se no negócio do desporto: “Não queremos estar, não é a nossa vocação. E esse paradigma vai mudar, pois vem aí a centralização dos direitos televisivos no futebol português. As coisas podem, na nossa perspetiva, voltar à normalidade, que é, basicamente, nós não queremos ter nada a ver com isso.”

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