Projeto de 60 milhões cria nova geração de calçado sustentável

O BioShoes4All, maior projeto da indústria portuguesa do calçado, mobilizou 60 milhões de euros, 69 parceiros e gerou mais de 200 resultados científicos, tecnológicos e industriais.

Biomateriais produzidos a partir de cortiça, caroço de azeitona e resíduos agrícolas, inteligência artificial nas fábricas e 50 novos produtos de menor pegada ecológica são alguns dos resultados do BioShoes4All, o maior projeto da indústria portuguesa do calçado, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que envolveu um investimento de 60 milhões de euros.

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Os resultados finais do BioShoes4All estão a ser apresentados esta quarta-feira, em Felgueiras, numa sessão que conta com a presença do ministro da Economia.

Ao longo de mais de quatro anos, a iniciativa mobilizou 69 parceiros, entre empresas, centros tecnológicos, universidades e entidades públicas e gerou mais de 200 resultados científicos, tecnológicos e industriais, muitos dos quais já estão preparados para aplicação pelas empresas, segundo a Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (Apiccaps).

Segundo a associação, foram concluídas 46 linhas de investigação, desenvolvidos mais de 50 produtos de menor pegada ecológica, implementadas 25 linhas piloto industriais, criadas oito plataformas e bases de dados e promovidas sete simbioses industriais.

Entre as soluções desenvolvidas encontram-se novos biomateriais, como couros produzidos com extratos vegetais e alternativas ao crómio, biopolímeros e compósitos obtidos a partir de cortiça, resíduos agrícolas e marinhos. O projeto permitiu ainda desenvolver têxteis com recurso a caroço de azeitona e resíduos de castanha, bem como novas solas, palmilhas e componentes de origem biológica.

Na área da economia circular, foram criadas soluções para reincorporar resíduos de couro, polímeros, borrachas e têxteis em novos produtos, recuperar materiais provenientes do pós-consumo e promover a reutilização de matérias-primas entre diferentes setores de atividade.

O BioShoes4All apostou também na digitalização da produção, através da introdução de tecnologias como inteligência artificial, visão artificial, Internet das Coisas, gémeos digitais, robotização, corte inteligente de materiais e sistemas avançados de controlo da qualidade, com o objetivo de aumentar a eficiência produtiva e reduzir desperdícios.

Segundo a associação liderada por Luís Onofre, muitas das soluções foram validadas em ambiente industrial, através de linhas piloto e da demonstração de novos processos de fabrico, aproximando a investigação da aplicação nas empresas.

Na apresentação dos resultados do BioShoes4All, o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, defendeu que o desafio do setor passa agora por transformar os resultados da investigação em negócio. “O trabalho começa agora. É transformar isto em faturas”, afirmou.

Mantenham este consórcio de pé, porque este consórcio vai ter de se candidatar aos fundos da competitividade.

Manuel Castro Almeida

Ministro da Economia

O governante defendeu ainda que, depois de apoiar a investigação através do PRR, o Estado deverá ajudar as empresas na comercialização das soluções desenvolvidas e apelou à manutenção do consórcio criado no âmbito do BioShoes4All para concorrer aos futuros fundos europeus destinados à competitividade. “Mantenham este consórcio de pé, porque este consórcio vai ter de se candidatar aos fundos da competitividade“, afirmou Castro Almeida.

“O maior resultado deste projeto não é apenas os materiais desenvolvidos, as tecnologias demonstradas ou as soluções criadas. A nossa maior conquista é a capacidade que construímos em conjunto”, afirma o presidente da Apiccaps, Luís Onofre, citado em comunicado. Para o responsável, o projeto deixa “uma indústria mais preparada, uma rede de colaboração mais forte e a confiança de que somos capazes de continuar a liderar a transformação do setor“.

Luís Onofre, presidente da APICCAPSRicardo Castelo/ECO

Já a coordenadora do projeto, Maria José Ferreira, considera que o BioShoes4All demonstra que “a bioeconomia sustentável constitui um caminho credível e exequível para a transformação do cluster do calçado”, reforçando a capacidade da indústria para desenvolver soluções de maior valor acrescentado.

O comissário europeu para a Economia e Produtividade, Valdis Dombrovskis, considera que o BioShoes4All “é o tipo de investimento de que a Europa precisa: direcionado, prático e ligado às necessidades reais da indústria”, defendendo que iniciativas deste género reforçam a competitividade europeia através da inovação e da sustentabilidade.

Para além dos produtos desenvolvidos, o BioShoes4All deixa à indústria novas capacidades de investigação e desenvolvimento. Segundo a Apiccaps, o conhecimento e as infraestruturas criadas deverão acelerar a adoção de soluções mais sustentáveis pelas empresas do setor.

A inovação surge num momento em que a indústria portuguesa do calçado procura reforçar a sua posição nos mercados internacionais. Em 2025, o setor voltou a crescer nas exportações, após dois anos de queda, com as vendas ao exterior a aumentarem 0,8%, para 1.718 milhões de euros, correspondentes a 68 milhões de pares de calçado, contrariando a contração registada pelos concorrentes italianos e espanhóis.

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