Levar o verde à refinaria, pensar ibérico e incentivar startups. Matosinhos desafia o país a acelerar a economia azul
Liderança e investimento marcaram a conferência "Matosinhos e a Nova Economia do Mar", dedicada à economia azul, onde investigadores e decisores defenderam uma estratégia capaz de acelerar o setor.
Muito mais que apenas um conceito ligado à sustentabilidade, a economia azul encerra o potencial para impulsionar a inovação, a economia e a competitividade de Portugal, missão dependente de escolhas que se estendem dos cientistas aos empresários e decisores. Na academia, Manuela Batista, investigadora do MARE-ULisboa, alerta que descarbonizar significa muito mais do que substituir combustíveis. “Descarbonizar é quase redesenhar a cadeia logística”, considera, e destaca que a transição exige, igualmente, investimento na capacitação das pessoas para responder aos novos desafios.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
O desafio foi lançado na conferência “Matosinhos e a Nova Economia do Mar”, na qual se reuniram representantes do poder local, empresas, centros de investigação e indústria.
Na abertura do evento, Luísa Salgueiro, presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, trouxe a lume uma reivindicação do município para o terreno da refinaria encerrada pela Galp no início da década. A autarca aproveitou a ocasião para deixar um apelo: retirar do impasse o projeto do futuro Centro Europeu de Biotecnologia Azul, previsto para os terrenos da antiga refinaria. “Este é um tema demasiado importante e trabalhado para estar sem conclusão”, afirmou, ao mesmo tempo que descreveu esta infraestrutura como “uma oportunidade para a Europa desde Matosinhos”.
-
Luísa Salgueiro, presidente da Câmara Municipal de Matosinhos -
Álvaro Sardinha, fundador e CEO do C2EA – Centro de Competência em Economia Azul
A necessidade de transformar potencial em ação foi também o ponto de partida da intervenção de Álvaro Sardinha, fundador e CEO do C2EA – Centro de Competência em Economia Azul. Para o responsável, o maior desafio não é tecnológico, mas de liderança: “A economia do mar é feita com gestores, mas a economia azul tem de ser feita com líderes. […] Para mudar o mundo, temos de começar por nós próprios”. Nesse sentido, defendeu a importância de haver “emocionalização” nos processos, a fim de mobilizar pessoas e organizações através de uma estratégia assente em três pilares: envolver, educar e empregar.
Essa estratégia terá de ser acompanhada pela descarbonização, que está dentro dos objetivos da União Europeia, e da qual o transporte marítimo faz parte. Mas não só. Também em terra é preciso repensar estratégias. Manuel Tarré, CEO da Gelpeixe, explicou de que forma a organização tem incluído a sustentabilidade no seu dia-a-dia. A aposta em painéis solares foi das primeiras decisões sustentáveis que a Gelpeixe tomou, mas não a única. Este ano, decidiram eletrificar a sua frota de camiões, mas com uma solução inovadora no transporte refrigerado: “Começámos a instalar nos camiões os motores de frio elétricos, que trazem um retorno em quatro a cinco anos, o que é aceitável, e não estamos a poluir”.
A responsabilidade tem de ser repartida entre o setor privado e as instituições públicas. E não só nas portuguesas. Pedro do Ó Ramos, presidente da Administração dos Portos de Sines e Algarve, chamou a atenção para os impactos das políticas públicas na competitividade do setor, com especial ênfase no atual modelo europeu de taxação das emissões de carbono, que considera que pode colocar os portos nacionais em desvantagem face a infraestruturas do Norte de África, que não estão sujeitas às mesmas regras.
“Alguns países já estão a perceber o erro que isto é. O prazo tem de ser mais dilatado e tem de haver aqui alguma isenção nos navios”, acrescentou.
O financiamento foi outro dos desafios identificados durante o debate, com Isabel Carneiro Kahlen, Co-Head of Team Genesis da Morais Leitão, a reconhecer que o investimento em startups tem vindo a crescer. “Há empreendedorismo e há foco em investigação nas empresas privadas. E agora também começa a haver, com a IA, business angels a investir em Portugal. No último ano, eu vi uma expansão fenomenal”, declarou.
-
1º painel de debate sobre "Logística Verde: Descarbonizar o Transporte Marítimo" -
Manuela Batista, investigadora do MARE-ULisboa -
Manuel Tarré, CEO da Gelpeixe -
Pedro do Ó Ramos, Presidente da Administração dos Portos de Sines e Algarve -
1º painel de debate sobre "Logística Verde: Descarbonizar o Transporte Marítimo"
Portugal tem uma “oportunidade enorme” para afirmar a economia azul como um dos motores do crescimento nacional, defende José Pinheiro, country manager Southern Europe da Ocean Winds e diretor do Fórum Oceano. Para tal, acredita, será necessário apostar numa estratégia mais coordenada e ambiciosa, que permita transformar esse potencial em resultados concretos: “Não se consegue fazer tudo isto localmente, tem de ser algo inter-regional. Aqui beneficiaríamos muito de uma lógica ibérica”.
Marisa Lameira da Silva, diretora-geral de Política do Mar, reforçou a ideia de que o mar deve ser encarado não apenas como um espaço de exploração, mas também de regeneração, inovação e responsabilidade. Neste sentido, lembrou que o valor acrescentado bruto da economia azul cresceu acima da média nacional, ao mesmo tempo que as emissões diminuíram, o que mostra ser possível conciliar crescimento económico com sustentabilidade. “A economia azul sustentável já não é uma ideia abstrata”, defende a gestora pública. O futuro do setor, considera, passa por reforçar “os três C”: conhecimento, cooperação e coordenação.
-
Miguel Marques, CEO Skipper & Wool -
António Larguesa, Editor ECO; e Miguel Marques, CEO Skipper & Wool
Na segunda talk do dia em Matosinhos, Miguel Marques, CEO da Skipper & Wool, destacou este município como um dos principais polos nacionais da economia ligada ao mar, e defendeu que Portugal tem condições para assumir um papel de relevo nesta área. O responsável sublinhou ainda que projetos ligados à biotecnologia azul e à transformação da fileira do mar exigem “investimento paciente”. Neste sentido, e abordando fundos europeus, aproveitou para anunciar a entrega dos 18 pacotes de produtos desenvolvidos no âmbito do Pacto da Bioeconomia Azul, resultado de um trabalho que envolveu “cerca de 900 cientistas ao longo de três anos” e “mobilizou mais de 139 milhões de euros” em investimento. São, considera, “18 pacotes de produtos transformadores para a economia nacional”.
A ciência, a inovação e o empreendedorismo estiveram igualmente no centro da discussão na conferência realizada em Matosinhos, por ocasião do décimo aniversário do ECO. Ana Paula Mucha, investigadora do CIIMAR e presidente do B2E CoLab, defendeu que o conhecimento científico deve ser colocado “ao serviço da sociedade”, através de soluções que tornem as zonas costeiras mais resilientes. “Não podemos ser irrealistas ao ponto de reverter a situação para o que tínhamos inicialmente, mas existem soluções baseadas em processos que permitem otimizar estes processos naturais”, garantiu.
A necessidade de proteger os recursos marinhos foi reforçada por Paulo Machado, administrador da Ramirez, que alertou para a importância de investir na monitorização e na prevenção, já que considera que só uma gestão mais eficiente permitirá assegurar a sustentabilidade da atividade económica ligada ao mar: “Há situações em que demoramos três anos a tomar medidas preventivas [na sardinha] e, quando as tomamos, já não eram preventivas, mas sim resolutivas”.
-
2º painel de debate sobre "A Nova Economia Azul: Ciência, Biotecnologia e Startups do Mar" -
Ana Paula Mucha, Investigadora no CIIMAR -
Paulo Machado, Administrador da Ramirez -
Isabel Carneiro Kahlen, Co-Head of Team Genesis Morais Leitão -
José Pinheiro, Diretor do Fórum Oceano e Country Manager Iberia da Ocean Winds -
2º painel de debate sobre "A Nova Economia Azul: Ciência, Biotecnologia e Startups do Mar" -
Encerramento com Marisa Lameiras da Silva, Diretora Geral de Política do Mar -
Marisa Lameiras da Silva, Diretora Geral de Política do Mar
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Levar o verde à refinaria, pensar ibérico e incentivar startups. Matosinhos desafia o país a acelerar a economia azul
{{ noCommentsLabel }}