Lagarde decreta o fim das medidas não convencionais. “Criou-se espaço para que a política monetária regresse ao essencial”
Presidente do BCE arranca fórum anual da instituição, em Sintra, a avisar que, depois de quinze anos, taxas de juro diretoras voltam a ser o principal instrumento para estabilizar inflação.
A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, considera que a política monetária entrou numa nova fase, regressando ao “essencial”, depois da resposta a crises na última década e meia ter passado pela utilização de instrumentos não convencionais, como a compra de dívida.
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“Nos últimos 15 anos, um contexto de pressões extraordinárias exigiu respostas não convencionais. Hoje, o enquadramento da política monetária mudou. Os choques afetam mais vezes o lado da oferta e a Europa construiu uma resiliência considerável em resposta a esses anos difíceis. Criou-se, assim, o espaço para que a política monetária regresse ao essencial”, afirmou esta segunda-feira Christine Lagarde, no discurso de abertura do Fórum do BCE, em Sintra, durante o jantar de boas-vindas aos convidados.
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"Nos últimos 15 anos, um contexto de pressões extraordinárias exigiu respostas não convencionais. Hoje, o enquadramento da política monetária mudou. Os choques afetam mais vezes o lado da oferta e a Europa construiu uma resiliência considerável em resposta a esses anos difíceis. Criou-se, assim, o espaço para que a política monetária regresse ao essencial.”
Do “essencial” citado por Lagarde fazem parte instrumentos como a estabilização da inflação, com as taxas de juro diretoras como principal instrumento, uma “atuação ponderada” e a tomada de decisões reunião a reunião. Uma descrição que contrasta com a posição adotada pelo banco central na resposta à crise da dívida soberana, da pandemia e energética desencadeada pela invasão russa da Ucrânia.
Na altura, a instituição apostou em medidas não convencionais, como programas de compra de ativos, operações extraordinárias de liquidez, a utilização do forward guidance e mecanismos destinados a evitar a fragmentação financeira da Zona Euro. Opção que pretende agora deixar para trás, naquele que é um claro aviso aos mercados.
“Já não precisamos de recorrer a instrumentos não convencionais. Embora disponhamos deles, podemos agora centrar-nos na estabilização da inflação com as taxas de juro diretoras como principal instrumento”, justificou, acrescentando que já não será preciso “formas complexas de indicações sobre a orientação futura da política monetária” dado que as decisões continuarão a ser tomadas “reunião a reunião” e dependentes da evolução dos dados económicos.
A presidente do BCE fez, contudo, questão de sublinhar que este “regresso ao essencial” não significa um regresso ao passado, considerando que o mundo continua a enfrentar não apenas choques frequentes como difíceis de antecipar, mas que a Europa está melhor preparada para responder aos desafios.
“O mundo de hoje coloca desafios que nos obrigam a aplicar os princípios essenciais de novas formas e a inovar nos domínios em que os quadros existentes são insuficientes“, assinalou.
Já não precisamos de recorrer a instrumentos não convencionais. Embora disponhamos deles, podemos agora centrar-nos na estabilização da inflação com as taxas de juro diretoras como principal instrumento.
Entre os fatores que justificam esta mudança, Lagarde destacou a arquitetura institucional construída na Europa ao longo dos últimos anos, destacando a importância do Instrumento de Proteção da Transmissão (TPI) como forma de reduzir o risco de fragmentação financeira entre Estados-membros e do Mecanismo Europeu de Estabilidade, bem como do NextGenerationEU.
No entanto, assinalou também que o atual contexto económico é distinto do ocorrido durante a pandemia, sendo agora os choques sobretudo do lado da oferta, com origem geopolítica e trajetórias que se alteram rapidamente. Exemplo disso é a guerra no Médio Oriente e os seus efeitos, apontou.
“Embora seja mais provável enfrentarmos choques que afastam a inflação do objetivo, a resiliência construída pela Europa implica que os efeitos desses choques na nossa economia são mais contidos. Podemos, portanto, encontrar-nos mais vezes numa zona intermédia, entre choques que podemos observar sem atuar e choques a que temos de reagir com determinação“, concedeu.
Reconhecendo todavia que esses choques são também mais difíceis de interpretar, realçou que o BCE apostou na melhoria dos indicadores estatísticos que utiliza, tal como das projeções macroeconómicas, a que se alia a análise de cenários.
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