Taxas de juro ainda vão subir mais, alerta Isabel Schnabel do BCE

O custo do crédito vai continuar a aumentar na Europa. Isabel Schnabel, do BCE, avisa que a luta contra a inflação ainda não terminou e que novas subidas das taxas são inevitáveis.

Há cerca de duas semanas, o Banco Central Europeu (BCE) quebrou uma pausa de um ano e subiu as taxas de juro em 25 pontos base, colocando a taxa de facilidade de depósitos nos 2,25%, ao mesmo tempo que cortou as projeções de crescimento da Zona Euro para 0,8% este ano e reviu em alta a inflação para 3%. Não foi um movimento isolado.

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Isabel Schnabel, membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu, alertou esta quinta-feira numa entrevista ao semanário alemão Die Zeit que o aperto monetário ainda não terminou e que quem conta com uma inversão de rumo a curto prazo está enganado.

“A trégua não é razão para os decisores de política monetária baixarem a guarda”, afirmou Schnabel, sublinhando que os preços da energia para entregas nos próximos anos continuam elevados, que os efeitos de segunda ordem — onde salários e preços se reforçam mutuamente — são um risco real, e que a decisão de subir as taxas na última reunião do Conselho do BCE foi “apropriada em todos os cenários considerados”.

A Europa está a perder terreno para a China no setor tecnológico e arrisca ficar para trás na corrida à inteligência artificial. Schnabel pede inovação, integração e soberania como resposta.

A mensagem central de Schnabel é que, “do ponto de vista atual, precisaremos de aumentar ainda mais as taxas de juro para trazer a inflação de volta à nossa meta de 2% a médio prazo”, afastando qualquer leitura de que o BCE está prestes a mudar de rumo.

A responsável do BCE argumenta que subir as taxas modera a procura, o que retira às empresas margem para repercutir os custos mais altos nos preços ao consumidor. O estímulo orçamental de vários governos europeus, com a Alemanha a investir pesadamente em infra-estruturas e defesa, é, aliás, identificado como um fator que pode alimentar a inflação a médio prazo, obrigando o BCE a uma resposta mais agressiva, reforça ainda a economista.

Mas Schnabel não ficou pela política monetária. Quando o tema virou para o estado da Alemanha e da Europa, o diagnóstico foi duro, notando que a economia alemã está estagnada desde 2019 por razões estruturais que não se resolvem com mais despesa pública. “O primeiro problema é a demografia. À medida que a força de trabalho diminui, o crescimento potencial cai, a escassez de trabalhadores qualificados agrava-se e a pressão sobre os sistemas de segurança social aumenta”, enumerou.

A isso junta-se a “queda da competitividade” face à China, que avança sobre o setor tecnológico, e o risco de a Europa falhar a transição para a inteligência artificial. “A Europa não pode perder esta revolução tecnológica”, avisa. O caminho, na perspetiva de Schnabel, passa por três prioridades que o relatório Draghi já identificou há meses: inovação, integração e soberania.

  • Inovação exige melhores condições para educação e investigação, bem como facilitar o crescimento das start-ups através de um quadro jurídico europeu unificado, o chamado “28.º regime” proposto pela Comissão Europeia.
  • Integração implica reduzir a proliferação de regulação nacional que trava as empresas inovadoras.
  • Soberania obriga a reduzir dependências estratégicas em áreas como a defesa, a tecnologia, a energia, as matérias-primas críticas e os sistemas de pagamento, motivo pelo qual o BCE avança com o euro digital.

A recente decisão dos EUA de cortar o acesso europeu a dois dos seus modelos de inteligência artificial mais avançados é, para Isabel Schnabel, “mais um sinal de alerta de que dependemos de outros países em áreas fundamentais“.

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