BRANDS' ECO “Somos mais fortes quando estamos juntos”

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  • 29 Maio 2026

No primeiro dia dos AED Days, os responsáveis da Airbus, Siemens, OGMA, Critical Software e Tekever refletiram sobre a reinvenção de Portugal nas indústrias da defesa, aeronáutica e espaço.

Em menos de 20 anos, as indústrias aeronáutica, espacial e de defesa portuguesas sofreram uma mudança profunda e o país dá hoje cartas em setores antes virtualmente inexistentes. Uma transformação alicerçada na criação de um ecossistema industrial, na promoção e retenção de talento e valorização da inovação e parcerias internacionais. “Acreditamos que este é mesmo um tempo de mudança”, afirmou José Neves, presidente da AED Cluster Portugal, a propósito do momento de transformação do setor. “Estamos a dar os primeiros passos, mas a oportunidade existe”, acrescentou, explicando que o trabalho atual é apenas o início de um ciclo de crescimento.

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O papel de Portugal nestas áreas esteve em discussão na primeira tarde dos AED Days, a decorrer até sexta-feira, 29 de maio, e reuniu à volta da mesma mesa a Airbus, a Siemens, as OGMA, a Critical Software e a Tekever.

Duas ou três empresas dedicadas à aeronáutica, mas com uma total ausência de cadeia de abastecimento, uma indústria espacial incipiente, e um país onde a existência de uma indústria de defesa não era sequer tema de discussão. O retrato traçado por José Rui Marcelino, vice-presidente do AED Cluster Portugal e moderador do painel “Portugal como plataforma de lançamento: do investimento à valorização e internacionalização”, não pode ser mais contrastante com o momento atual em que empresas como a Critical Software e Tekever, que começaram como startups, ganharam projeção mundial.

“Procurámos e encontrámos aqui uma cultura de competência”, assumiu Nathalie Hellard-Lambic, Country Manager da Airbus Portugal. Nos últimos anos, o gigante da aviação tem vindo a apostar em Portugal, nomeadamente com o reforço do investimento na fábrica de Santo Tirso, no final de 2025. “Desenvolvemos fortes raízes em Portugal e criámos um ecossistema completo”, referiu a responsável que sublinha a confiança da multinacional no talento português. Uma confiança que se traduz, por exemplo, na escolha de parceiros e fornecedores locais ou na aposta em joint-ventures, como a realizada com a Critical Software, que deu origem à Critical Flytech, empresa dedicada ao desenvolvimento de software embebido e serviços para aplicações espaciais.

“Desde o início que a Critical se esforçou para trabalhar com parceiros internacionais”, contou Luís Gargate, criada em Coimbra, em 1998. Para o CRO da Critical Software, houve fatores, como a entrada de Portugal para a Agência Espacial Europeia, em 2001, que contribuíram para o crescimento, mas foi sobretudo a aposta no talento – numa fase inicial proveniente em grande parte da Universidade de Coimbra – o aparecimento de um ecossistema industrial e o foco no estrangeiro que garantiu o sucesso da empresa.

Não tínhamos 20 anos para desenvolver uma aeronave. Começámos a trabalhar dos dados para a informação, da informação para intelligence, daí para os processos de decisão

Pedro Petiz

Diretor de Desenvolvimento Estratégico da Tekever

Também Pedro Petiz, diretor de desenvolvimento estratégico da Tekever, assistiu a uma cada vez maior presença internacional da empresa de tecnologia espacial e drones. “Não tínhamos 20 anos para desenvolver uma aeronave. Começámos a trabalhar dos dados para a informação, da informação para intelligence, daí para os processos de decisão”, recordou. Em simultâneo, a mudança na postura de vários ramos das Forças Armadas, com uma maior abertura para trabalhar em conjunto com a indústria, ajudou à inovação. “Deu-nos o espaço para tentar e errar, e tentar e errar. Isto permitiu que a indústria e o ecossistema se desenvolvessem”, diz.

Espaço para crescer

Para Paulo Monginho, CEO das OGMA, Portugal oferece hoje possibilidades de crescimento para as empresas destes setores. No caso da OGMA, o desafio passa por fazer crescer e manter atual aquela que é uma das empresas aeronáuticas mais antigas do mundo. Fundada em 1918, mantém uma participação estatal, mesmo depois de privatizada e adquirida pela Embraer.

“Hoje temos um plano estratégico que aponta para uma receita de um milhão de euros em dois anos”, referiu Monginho, que apontou ainda a diversificação da atividade como uma vantagem para a empresa. “Hoje é possível crescer em Portugal e estabelecer relações fortes com os nossos clientes e parceiros”, acrescentou, salientando a importância de programas que ajudam a captar talento nacional e internacional, bem como a cooperação com empresas como a Lockheed Martin.

Usamos a nossa expertise em áreas como a automação e a eletrificação, o que permite às empresas inovar muito mais rapidamente e ter maiores ganhos de eficiência. E trouxemos muitas destas capacidades para Portugal

Sofia Tenreiro

CEO da Siemens Portugal

Por seu turno, Sofia Tenreiro, CEO da Siemens Portugal, sublinhou a troca de conhecimento que o atual ambiente industrial nacional permite. “Este tipo de indústria necessita de inovação de última geração. E nós usamos a nossa expertise em áreas como a automação e a eletrificação, o que permite às empresas inovar muito mais rapidamente e ter maiores ganhos de eficiência. E trouxemos muitas destas capacidades para Portugal”, referiu.

Portugal é hoje a sexta maior área tecnológica da Siemens à escala global, a seguir aos EUA, China, Alemanha, Índia e Áustria, lembrou Sofia Tenreiro, para quem o trabalho de proximidade com os parceiros é essencial. “Somos mais fortes quando estamos juntos”, defendeu a responsável que lembrou ainda que 95% dos motores usados na aeronáutica são concebidos com recurso a software de simulação da Siemens.

Seja na defesa como nas indústrias aeronáutica ou espacial, a Inteligência Artificial (IA) é um fator a ter em conta para o seu desenvolvimento. “A IA é um ativo e não uma ameaça”, defendeu Nathalie Hellard-Lambic, que se congratulou com o facto de, em Portugal, a empresa ter encontrado uma nova geração “fluente em IA”.

Para Paulo Monginho, é fundamental “não perder o comboio”, mas, no caso das OGMA, onde muito do trabalho depende fortemente da mão humana, é necessário procurar um equilíbrio entre a inovação e a tradição.

“A velocidade é chave”, defendeu por seu turno Luís Gargate, quando convidado a olhar para o futuro. “A IA vai ser disruptiva e a primeira coisa em que vai impactar é o mundo do software. É algo que nos traz oportunidades e nos permite construir soluções impensáveis ainda há poucos meses”, afirmou o responsável da Critical Software.

Já Pedro Petiz apontou a autonomia em termos de produto e a agilidade de processos como dois fatores a ter em conta no futuro. “Para tudo isto a IA é necessária. Temos de trabalhar com ela e não contra ela”.

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