BRANDS' ECO Inovação e novas tecnologias na defesa
A convergência entre as Forças Armadas e o ecossistema tecnológico tornou-se o pilar fundamental para responder à acelerada evolução geopolítica e assegurar a dissuasão militar na Europa.
A Sociedade de advogados PLMJ organizou na sua sede, em Lisboa, uma conferência dedicada ao tema “A nova economia da defesa”. O desenvolvimento tecnológico na área da defesa exige agilidade, uma característica intrínseca às empresas de base tecnológica que atuam no setor civil e militar.
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O primeiro painel da tarde foi subordinado ao tema “Organização da Inovação e Novas Tecnologias da Defesa”, com a abertura realizada por Pedro Siza Vieira, sócio da PLMJ. O ex-ministro da Economia afirmou que a esfera e a economia da defesa entraram na agenda europeia há 10 anos, mas de forma muito mais incisiva desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, e com um caráter de emergência desde a segunda eleição do Presidente Trump.
O responsável salientou ainda que, hoje, o objetivo geopolítico e geoestratégico da União Europeia (UE) passa por construir uma capacidade de dissuasão autónoma, suportada numa indústria de competências tecnológicas e militares próprias, de forma a enfrentar ameaças futuras no flanco europeu.
No debate moderado por Carla F. Machado, a sócia da PLMJ interpelou João Lima, engenheiro de prototipagem da Connect Robotics, sobre o papel da empresa no âmbito da defesa. O especialista destacou que o desenvolvimento tecnológico nessa área exige agilidade, característica intrínseca às empresas de base tecnológica, e que a tecnologia originalmente desenhada para o mercado logístico civil está a ser adaptada com sucesso para cenários de dupla utilização militar. Esta transição permite reaproveitar e robustecer sistemas comerciais para operar em ambientes táticos complexos, por exemplo, sob cenários de guerra eletrónica.
A tecnologia desenhada para o mercado logístico civil está a ser adaptada para cenários de dupla utilização militar
Nesta mesma linha, Luís Miguel Campos, presidente da Beyond Vision, apontou no evento que as exigências do teatro de operações moderno – amplificadas pelas lições da guerra na Ucrânia – obrigam as empresas a repensar os seus ciclos de vida tecnológicos. Drones operados em ambiente de combate real sofrem taxas de desgaste inauditas, o que força a indústria a desenvolver baterias e componentes descartáveis de baixo custo, mas de elevada resiliência operacional.
A complementar esta perspetiva, Miguel Cordeiro, head of sales da Spotlite, partilhou como o setor da defesa levou a sua empresa a transpor capacidades civis de monitorização de infraestruturas via satélite para o contexto militar. Esta integração exigiu a reestruturação profunda de protocolos internos, com foco em cibersegurança e rapidez de resposta, cujos impactos colaterais beneficiam agora os próprios serviços civis da tecnológica. A atuar originalmente no mercado civil com o propósito de monitorizar de forma remota, através de imagens de satélite, grandes infraestruturas como pontes, estradas e redes elétricas, a empresa já detinha na sua génese um conceito de dupla utilização (dual-use), o que lhe permite operar na esfera militar.
Espaço, visão operacional e co-inovação
O domínio espacial assume uma posição fulcral na articulação entre as dimensões civil e militar. João Bentes de Jesus, head of institutional affairs da Geosat, apresentou os desafios de integração no programa VLEO-DEF (Very Low Earth Orbit Satellite Systems for Defence), da Agência Europeia de Defesa (EDA), financiado por cinco países (incluindo Portugal) para desenvolver o primeiro satélite militar europeu de órbita muito baixa (entre 250 e 350 quilómetros da Terra). O responsável releva a importância estratégica da soberania e do controlo dos dados dos satélites obtidos em órbita muito baixa para a segurança nacional, enfatizando que este domínio tecnológico de vanguarda garante às Forças Armadas uma autonomia crítica na tomada de decisões em tempo útil e em cenários operacionais complexos.
Do ponto de vista das Forças Armadas, Pedro Costa, chefe do Centro de Operações Especiais da Força Aérea, enfatizou que o conceito de duplo uso só é pleno quando integrado numa atividade operacional real. Isto porque o caminho para mitigar complexidades de aquisição reside no estreitamento das relações e num canal de comunicação contínuo entre os ramos militares e o tecido científico e produtivo nacional, na medida em que o domínio espacial assume uma posição fulcral nesta articulação.
A interoperabilidade e a desburocratização dos testes e compras públicas são urgências nacionais
Agilidade internacional vs. entropia burocrática
Hélder Alves, diretor de defesa e segurança do Indra Group, advertiu, por sua vez, que, embora o país possua elevado apetite de inovação, enfrenta complexidades regulatórias. A partir da sua experiência de liderança, sublinhou que o avanço tecnológico exige uma joint vision e um alinhamento com a vertente militar e defende que Portugal deve focar-se em nichos de especialização inteligente. Apontou a falta de uma diplomacia económica ativa, sustentando que o Ministério da Defesa e o Governo deveriam assumir um papel muito mais assertivo na promoção internacional para apresentar as competências e as empresas nacionais em bloco nos mercados externos.
Por seu lado, Vítor Monteiro Correia, senior business development manager da Critical Software, abordou os desafios da co-inovação associada à capacidade de dissuasão militar, enquanto avaliou o risco assumido ao nível da investigação, onde múltiplos projetos inovadores acabam por ser descartados face à velocidade do mercado.
O responsável expôs ainda as entropias da contratação pública, notando que a base reduzida de utilizadores finais afeta a fluidez da cadeia de fornecimento, indicando o Reino Unido como um exemplo na aceleração de ciclos de compras (procurement), tendo apelado à necessidade urgente de fundos e redes colaborativas que permitam aos players do mercado nacional concorrer em igualdade de circunstâncias na UE de forma a assegurar a competitividade internacional.
O debate concluiu que a promoção da interoperabilidade e a desburocratização dos testes e compras públicas são urgências nacionais para fixar o valor acrescentado da defesa em Portugal.
Assista ao painel no vídeo abaixo.
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