Miguel Maya x Luísa Lopes: a resiliência treina-se (e a falha é importante nesse processo)

Miguel Maya, CEO do BCP, e Luísa Lopes, neurocientista, debateram no Festival ECO o papel do fracasso na construção da resiliência, apesar da cultura portuguesa de aversão à falha.

Miguel Maya, Millenium BCP, divide um painel no Festival ECO com a neurocientista Luísa Lopes.
Miguel Maya, Millenium BCP, divide um painel no Festival ECO com a neurocientista Luísa Lopes.
  • O Festival ECO, que decorre esta quarta-feira no CCB em Lisboa, marca o arranque das celebrações do 10.º aniversário do ECO com um festival de ideias, cultura, encontros e jornalismo ao vivo, reunindo leitores, parceiros e protagonistas de diferentes áreas num encontro que cruza economia, política, cultura, liderança e inovação.

Afinal, que papel tem o stress na liderança, na carreira e, enfim, na vida? Num painel no Festival ECO, o CEO do Millenium BCP, Miguel Maya, argumentou que sem stress “não teria havido evolução humana” e quem tem a responsabilidade de liderar tem de o gerir. “Mas não um stress tóxico“, frisou. Já a neurocientista Luísa Lopes reconheceu o papel do stress para a motivação humana e atirou que para treinar a resiliência é mesmo preciso falhar e perceber que “o mundo não acaba”. Destacou, ainda assim, a importância do descanso (e do sono).

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“Quem tem a responsabilidade de liderar tem de gerir stress, mas não um stress tóxico (…) Isto cria uma cultura de alto desempenho. O que me obrigo é que nunca se transforme num stress tóxico“, disse Miguel Maya, que sublinhou que os erros e o medo não podem paralisar uma organização. “Temos de ser capazes de impedir que os traumas nos impeçam de tomar risco” e valorizar a parte positiva do ensinamento, defendeu o gestor.

Já Luísa Lopes alertou que as novas gerações que estão a chegar ao mercado de trabalho são menos resilientes. Mas a boa notícia é que essa capacidade pode ser treinada. Como? Através dos insucessos. “Não há resiliência sem falhar. Em Portugal, temos alguma aversão ao risco. O cérebro tem de aprender que isto não é o fim do mundo“.

“Não há melhor forma de treinar o cérebro do que falhar mais vezes e perceber que não é o fim do mundo“, assinalou a neurocientista, que realçou também a pertinência de celebrar todos os pequenos sucessos para fomentar a capacidade de resiliência.

Os perfis

  • Miguel Maya está como CEO do Millenium bcp desde 2018 e é vogal do conselho de administração desse banco desde 2009. Licenciado em organização e gestão de empresas pelo ISCTE, fez também o programa de alta direção de empresas e o programa de corporate governance da Aese Business School, bem como o programa avançado de formação de quadros da INSEAD. Segundo o próprio, apesar de ter uma vida profissional “muito intensa”, procura ter tempo de qualidade para “ler, correr, praticar windfoil” e conviver com a família e amigos.
  • Luísa Lopes é neurocientista no Gulbenkian Institute for Molecular Medicine. Licenciou-se em Bioquímica na Faculdade de Ciências de Lisboa e, mais tarde, doutorou-se em Neurociências na Faculdade de Medicina da mesma universidade. Trabalhou nas universidades de Cambridge, no Reino Unido, e no Instituto Karolinska em Estocolmo, na Suécia durante o doutoramento. O seu trabalho centra-se nos mecanismos sinápticos do envelhecimento, com impacto na memória, e no desenvolvimento de modelos animais de envelhecimento para estudar o défice cognitivo e neurodegeneração.

O momento de humor

Logo nos primeiros minutos do painel, Luísa Lopes fez uma declaração de interesses, dizendo, com piada, que tem conta no Millenium BCP há vários anos e, portanto, quer muito que a saúde mental no banco e do seu CEO “estejam muito saudáveis”. Miguel Maya explicou também que convidou a neurocientista a falar com a direção do banco para apontar que os insucessos do passado devem servir de aprendizagem, mas não de condicionamento.

O momento de tensão

Depois de, num painel anterior, a CEO da Siemens Portugal, Sofia Tenreiro, ter dito que, durante vários anos, dormia apenas três horas por noite, nesta conversa a neurocientista Luísa Lopes deixou claro que “a falta de sono é das piores coisas que se faz ao cérebro“.

“Não tentem escamotear os factos científicos. São sete a oito horas por noite”, sublinhou. “Dormir é um seguro de vida“, insistiu. Em reação, Miguel Maya ironizou que “dorme como um bébé” e às vezes “acorda a chorar de três em três horas”.

O descanso é fundamental, o desporto é fundamental, a alimentação é fundamental e a vida social é fundamental. Nunca conheci um profissional que consiga um alto desempenho consistente sem estes elementos”, apontou o gestor.

A ideia para o futuro

Numa altura em que a inteligência artificial domina a agenda, o CEO do BCP perspetiva que é a inteligência natural que vai influenciar o que vamos fazer com essa tecnologia, daí que tenha convidado a neurocientista Luísa Lopes para o painel “Cérebro, decisão e risco, neurociência da liderança em tempos voláteis”.

“O trabalho dela é muito importante para um gestor. No final do dia, a principal função de um gestor é gerir pessoas, gerir emoções e estabelecer conexões. Interpretamos o outro percebendo-o“, afirmou Miguel Maya.

As frases

Não teria havido evolução humana sem stress. Quem tem a responsabilidade de liderar tem de gerir stress, mas não um stress tóxico.

Miguel Maya

CEO do Millennium BCP

Não há resiliência sem falhar. Em Portugal, temos alguma aversão ao risco. O cérebro tem de aprender que isto não é o fim do mundo.

Luísa Lopes

Neurocientista no Gulbenkian Institute for Molecular Medicine

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