BRANDS' ECO Colocar Portugal no mapa europeu da identidade digital e da IA

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  • 26 Maio 2026

José Pedro Rodrigues, CEO da Caixa Mágica, defende que o país pode afirmar-se como referência europeia em identidade digital, cibersegurança e software de confiança. Mas há desafios, avisa.

Da distribuição Linux ao desenvolvimento de soluções de identidade digital, inteligência artificial (IA) e cibersegurança, a Caixa Mágica percorreu um caminho pouco comum no ecossistema tecnológico português. Em vésperas do início da conferência LisbonID, que ajudou a criar, o CEO José Pedro Rodrigues fala sobre soberania digital europeia, o papel do open source, os desafios da regulação e a crescente necessidade de sistemas de confiança num mundo marcado pela IA e pela desinformação.

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José Pedro Rodrigues, CEO da Caixa Mágica

Para o responsável, Portugal tem condições para ganhar relevância neste ecossistema, desde que saiba valorizar o know-how tecnológico desenvolvido dentro de portas.

A Caixa Mágica nasceu muito associada à distribuição Linux e ao open source, mas fez um caminho que a trouxe até ao posicionamento atual, mais ligado à engenharia de software, cloud, IA e identidade digital. Como é que olha para esta evolução?

A Caixa Mágica nunca deixou de ser ela própria – apenas evoluiu para onde a sua capacidade técnica a levou. As distribuições Linux concentraram-se globalmente em meia dúzia de referências, e o sistema operativo passou a dominar o server-side, onde a customização local pesa menos. Mas a nossa matéria-prima – desenvolvimento de baixo nível, espírito open source, à-vontade para intervir no código que os outros preferem não tocar – continuou a ser a nossa mais-valia. Foi natural canalizá-la para setores onde diferencia: identidade digital, cibersegurança, IA aplicada com critério. Não mudámos o nosso ADN; encontrámos novas aplicações. É a mesma Caixa Mágica de sempre, agora a resolver problemas que há vinte anos ainda nem sequer existiam

Num mundo em que um documento, um email ou um post falsos podem ser indistinguíveis de um real, o bom senso já não chega – é preciso algum tipo de validação criptográfica

José Pedro Rodrigues

CEO da Caixa Mágica

A empresa tem hoje uma presença muito forte em áreas como identidade digital, cibersegurança e soluções empresariais. Quais são os principais setores que vos procuram e que problemas vos pedem para resolver?

Tudo começou no setor público, fomos parceiros do Estado português no middleware do Cartão de Cidadão. E os projetos governamentais de identidade digital são das áreas mais exigentes da engenharia de software. A partir daí o caminho desdobrou-se em duas direções: geograficamente, com projetos internacionais na mesma área; e setorialmente, na banca, utilities e telecom, onde a confiança digital deixou de ser um “nice to have” para passar a infraestrutura. O que mudou foi a urgência. As empresas estão finalmente a dar ao tema a importância devida. Num mundo em que um documento, um email ou um post falsos podem ser indistinguíveis de um real, o bom senso já não chega, é preciso algum tipo de validação criptográfica. Tudo vai precisar de ser identificado, dos documentos oficiais ao post na rede social do vizinho. É exatamente aí que queremos estar.

Apesar da transformação ao longo dos anos, o open source continua a ser um dos vossos pontos distintivos. Num momento em que se fala tanto de soberania digital europeia, o código aberto voltou a ganhar importância?

“Open source” diz o que é: abertura. Sempre defendemos esta filosofia, não como cruzada anti-conglomerados, mas pelo princípio – o direito a olhar para dentro, escrutinar e evoluir – e pelo modelo de negócio que daí decorre: o valor é capturado pela engenharia que se entrega, não por um lock-in que prende o cliente por um período indeterminado. Dito isto, não somos dogmáticos. Se um cliente prefere uma stack proprietária, trabalhamos com ela com a mesma exigência. Com a IA, o argumento é ainda mais relevante. Quem quer ficar refém de uma tecnologia que não consegue observar – opaca nos custos, nos “bias”, nas decisões algorítmicas – quando há ferramentas para se ser autónomo? E, para a Europa, é provavelmente a melhor janela para acelerar e reduzir a dependência das grandes tecnológicas.

A Europa está muito dependente, em matéria tecnológica, dos hyperscalers, nomeadamente norte-americanos e chineses. Estão a crescer as alternativas europeias, tanto na IA como na cloud?

A dependência é hoje preocupante. A Europa tem o Mistral, em França, e a Aleph Alpha, na Alemanha – propostas relevantes, mas em segunda linha, quer em investimento quer em resultados. O movimento mais interessante vem da China: cientes de que não venceriam a guerra de marketing das tecnológicas americanas, libertam os modelos em open source e open weights. O suposto DeepSeek V4 – ainda não oficial – terá 1,6 biliões de parâmetros, à escala dos maiores da OpenAI e da Anthropic. É quase como disponibilizar os planos da bomba atómica em código aberto, se me é permitida a hipérbole.

E é aqui que vejo o caminho europeu e o nosso. À semelhança da Aleph Alpha, apostamos em explicabilidade (ou seja, porque é que respondeu isto?), hosting europeu, compliance na UE e integração enterprise e governo. Em 90% dos casos reais, IA será adequação e controlo, não tamanho. Não faz sentido pôr um autocarro de passageiros a transportar uma só pessoa; do mesmo modo, não faz sentido convocar um modelo gigante e generalista para uma necessidade específica num processo fabril objetivo.

Não queremos um evento massivo à imagem da Web Summit – queremos um fórum de referência, ao nível das iniciativas anuais equivalentes do centro e norte da Europa em identidade digital

José Pedro Rodrigues

CEO da Caixa Mágica

Ajudaram a fundar o LisbonID, que acontece a 27 e 28 de maio. Criaram este evento para tentar responder a estes desafios? Pode Portugal ter um papel neste ecossistema europeu?

Portugal é, provavelmente a seguir à Estónia, um dos países mais avançados em identidade digital. Não é coincidência: resulta de uma política pública continuada e da maturidade técnica de várias empresas portuguesas – Caixa Mágica, Biometrid, Lizar e tantas outras. Sempre que discutimos com clientes e parceiros internacionais, este know-how é elogiado. Está na hora de o capitalizar.

E capitalizar significa duas coisas. Primeiro, criar oportunidades de internacionalização para as empresas portuguesas que dominam o tema. Segundo, valorizar essa expertise nas grandes empresas portuguesas, em vez do reflexo de contratar exclusivamente multinacionais que acabam por internalizar lá fora o know-how e os proveitos.

O LisbonID nasce precisamente para potenciar este polo. Não queremos um evento massivo à imagem da Web Summit, queremos um fórum de referência, ao nível das iniciativas anuais equivalentes do centro e norte da Europa em identidade digital. Um sítio onde a discussão é técnica, profunda e útil, e onde Portugal se afirma onde já é forte.

A nova carteira europeia de identidade digital pode tornar mais simples o acesso a serviços públicos e privados. O maior desafio está ainda na tecnologia ou é sobretudo uma questão de confiança dos cidadãos?

Há um desafio tecnológico e regulamentar significativo: múltiplos países, com legislações, práticas e procedimentos distintos, a aplicar em conjunto tecnologia muito inovadora e de elevada complexidade. Mas o maior obstáculo é a confiança. Há uma narrativa anti ciência e anti tecnologia que desconfia das iniciativas reguladas e que, curiosamente, abraça plataformas altamente tecnológicas “antissistema” como as criptomoedas, sem o mesmo escrutínio

A privacidade e a limitação dos poderes pela letra da lei são essenciais. Por muito que se queira dar a volta ao tema, isso só é alcançável com uma arquitetura tecnológica sólida, ancorada e limitada pela legislação dos Estados. É difícil discutir isto sem soar a defensor da burocracia. Não é disso que se trata. Trata-se de simplificar sem abrir mão da robustez.

E Portugal tem aqui um caso para exibir: a Chave Móvel Digital. Um exemplo notável de simplificação sem comprometer segurança, robustez ou privacidade. Se conseguirmos replicar este equilíbrio à escala europeia, a carteira digital tem tudo para ser uma iniciativa de sucesso.

Quais são os casos de uso da identidade digital que lhe parecem mais transformadores nos próximos anos?

A identidade digital vai deixar de ser apenas validação de cidadãos para se tornar uma camada transversal, com muitos outros usos: controlo de acessos físicos, assinaturas digitais com certificados – para documentos oficiais e privados –

e autenticação em recursos digitais, seja como segundo fator, seja em modelo passwordless. Para muitas empresas, esta camada vai deixar de ser opcional e passará a requisito: quem a ignorar coloca o próprio negócio em risco.
Cartões físicos e eWallets vão coexistir, não competir. O cartão físico continua imbatível em vários pontos: serve de backup, é mais robusto por estar imune a vetores de ataque puramente digitais, suporta assinaturas biométricas e tem uma usabilidade difícil de bater. Vai continuar a existir durante bastante tempo.

Estamos a trabalhar com clientes em soluções integradas precisamente desta natureza, onde identidade, acesso físico, assinatura e autenticação digital convergem num mesmo modelo. É aí que está o futuro.

A IA está a entrar no desenvolvimento de software, na deteção de fraude e na automação de processos. De que forma é que a Caixa Mágica está a integrar IA nas suas equipas e nos seus produtos?

A Caixa Mágica é hoje uma empresa AI-first. Não no sentido publicitário do termo, mas no operacional: IA atravessa todas as áreas, do desenvolvimento de software ao marketing, com objetivos claros de produtividade e eficácia. O Digitarq, para a Torre do Tombo, ilustra bem a dimensão: treinámos um modelo próprio e processámos milhões de documentos do arquivo nacional, com uma qualidade que dificilmente se obteria de outra forma. Mas há um princípio que não cedemos: controlo humano sobre os workflows, auditabilidade, replicabilidade e segurança. Sem isto, IA é uma lotaria, não engenharia.

A área de eID não é exceção. Usamos IA desde a produção de código até soluções de Edge AI para controlo de qualidade na emissão de cartões de identificação, onde tem de funcionar em tempo real, no próprio equipamento, sem comprometer dados nem decisões. É aqui que IA deixa de ser uma ferramenta de apoio e passa ao centro da operação.

Quais são hoje as principais barreiras que as PME enfrentam na adoção de IA?

Ao contrário do que aconteceu com outras vagas tecnológicas, as PME não precisam de ficar fora do comboio da IA por falta de capacidade de investimento. Desde APIs a self-hosting de modelos open source, há hoje oferta de qualidade a custos perfeitamente acessíveis. A barreira é outra, e curiosamente económica.

Está a acontecer com a IA o mesmo que acontece numa economia em deflação: como todos esperam que os preços baixem mais ou que a tecnologia amadureça, ninguém compra agora. Em Portugal, sobretudo no que toca a soluções estruturadas (e não apenas chatbots a apoiar tarefas lineares), nota-se claramente esse compasso de espera. O risco é evidente: quem fica em modo “aguardar para ver” arrisca-se a não desenvolver internamente as competências que o próprio negócio vai exigir num mundo dominado por IA.

Se uma empresa consegue fazer negócio sob RGPD, NIS2 e AI Act, então é seguro confiar-lhe algo tão sensível como a identificação

José Pedro Rodrigues

CEO da Caixa Mágica

O que recomendamos é adoção imediata, mas estruturada e sem criar custo adicional. É possível e é precisamente o que estamos a fazer com vários dos nossos clientes.

A crescente regulação tecnológica, nomeadamente na cibersegurança e na IA, representa hoje um peso adicional para as empresas europeias. Olha para isto como um travão à inovação? Ou este enquadramento regulatório pode ser uma vantagem competitiva?

No mercado de eID acontece um fenómeno contraintuitivo e revelador: fornecedores europeus com soluções governamentais são valorizados fora da Europa. A lógica do cliente internacional é simples: se uma empresa consegue fazer negócio sob RGPD, NIS2 e AI Act, então é seguro confiar-lhe algo tão sensível como a identificação. A regulação europeia funciona, aqui, como selo de qualidade.

Dito isto, esta vantagem nasce de um excesso. A Europa tende a regular cedo, mesmo em áreas onde ainda não somos tecnologicamente líderes e a IA é o exemplo evidente. Há uma diferença entre regular o que se domina e regular o que se tenta acompanhar.

O ponto de equilíbrio é difícil. Os Estados Unidos optaram pela aceleração total e pela desregulação; a China escolheu a nivelação tecnológica em IA, retirando deliberadamente o upside às grandes tecnológicas americanas com os seus modelos open-weights. A Europa precisa de manter a regulação – é parte da nossa identidade e do nosso modelo – sem matar o dinamismo nem a inovação. Mas é mais fácil dizer isto do que fazer.

Dentro de portas, como é que está hoje Portugal no que à tecnologia diz respeito? O país tem agora a Agência para a Reforma Tecnológica do Estado (ARTE). Pode isso melhorar a relação dos cidadãos e das empresas com o Estado, mas também do Estado com fornecedores?

A ARTE, que nasceu da AMA, é, no meu entendimento, um caso de sucesso de aceleração tecnológica do Estado, e a sua longevidade prova-o. Como tudo, tem aspetos a melhorar: maior valorização das PME tecnológicas portuguesas e mais comunicação e colaboração com o setor na definição das direções a seguir.

Mas o principal bloqueio à reforma do Estado não está aí. Já não é, sequer, a falta de fundos. É a lentidão da contratação pública, contaminada por uma litigância generalizada. A Caixa Mágica, mesmo sendo uma PME, tem estado envolvida em vários litígios resultantes de concursos públicos — processos que demoram anos a resolver e que tornam muitos projetos inviáveis, por falta de financiamento entretanto consumido ou por obsolescência tecnológica.

Acredito que todos os agentes estão de boa-fé. Mas a combinação de facilidade de litigação com lentidão de decisão está a sufocar a contratação pública. E tem um efeito perverso ainda mais grave: empurra os organismos públicos a desenharem critérios de avaliação “blindados” – não contestáveis, mas tecnicamente menos exigentes – que acabam, ironicamente, por prejudicar os melhores fornecedores. É um nó que tem de ser desfeito.

O que antecipa para o futuro neste mercado?

Se alguém disser que sabe exatamente o que vai acontecer, está certamente iludido. As variáveis são tantas que é impossível antecipar onde estaremos daqui a alguns anos.

Dito isto, há duas convicções que tenho. A primeira: soluções de identificação robustas e abrangentes vão ser centrais ao setor tecnológico em que nos movimentamos e à generalidade das atividades humanas. Sem identidade não há confiança, e sem confiança não há economia digital.

A segunda diz respeito à IA. Muitas atividades vão precisar de menos recursos; outras tornar-se-ão obsoletas. Mas muitas que até aqui não faziam sentido económico passam, agora, a ser viáveis. Como noutras vagas tecnológicas, vamos assistir a uma reconfiguração das atividades, não a um colapso. Basta lembrar que, hoje, a maior parte daquilo a que dedicamos tempo e dinheiro – entretenimento, turismo, cultura, desporto, luxo – não é essencial à sobrevivência da espécie. E nem por isso o mundo é mais pobre. Muitas atividades vão expandir-se, muitas outras vão nascer. Animação, pelo menos, é o que não vai faltar.

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