Redes privadas 5G ganham terreno nas operações críticas
Da energia à indústria, especialistas defendem que as redes móveis privadas podem transformar operações mais sensíveis, mas exigem planeamento, investimento e casos de uso claros.
O próximo passo do 5G está na utilização empresarial da conectividade avançada, em especial através das redes móveis privadas. Esta foi uma das principais conclusões da conferência “Futuro Hiper Digital – 5G e MPN”, organizada pelo ECO com apoio da Vodafone Business.
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Na abertura, Henrique Fonseca, administrador da Vodafone Portugal, afirmou que o 5G é “um agente poderoso da transformação da economia”, porque permite comunicação entre máquinas, interpretação inteligente de dados e resposta imediata. O responsável considera a mudança como “o salto da conectividade genérica para a conectividade estratégica”, pelo que permitem fazer, nomeadamente em termos de customização.
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Manuel Ricardo, professor no INESC TEC -
António Costa, diretor do ECO, deu as boas-vindas em mais uma conferência Futuro Hiperdigital -
Henrique Fonseca, Administrador da Vodafone Portugal -
No debate, moderado pelo subdiretor do ECO Tiago Freire, participaram Manuel Ricardo (INESC TEC), Pedro Salgueiro (Vodafone Portugal) e Roberto Almeida Santos (EMACOM)
As redes móveis privadas, ou MPN, foram apresentadas como uma espécie de “bolha de conectividade”, com acesso privativo e prioritário, configurada à medida das necessidades de cada organização e aplicável a serviços críticos, ainda que não só.
A conectividade é cada vez mais não só um facilitador, mas um fator direto de competitividade
Entre os exemplos já em curso, Henrique Fonseca destacou a rede privada 5G da EMACOM, na Madeira, que cobre 24 localizações críticas da infraestrutura elétrica, e projetos com a Cimpor, a Marinha Portuguesa e a NATO. “A conectividade é cada vez mais não só um facilitador, mas um fator direto de competitividade”, afirmou, antecipando “uma separação clara entre as empresas que já usam esta conectividade avançada para decidir melhor mais cedo e de forma preditiva e aquelas que continuam apenas a reagir”.
Conectividade como fator de competitividade
No keynote speach, Manuel Ricardo, professor no INESC TEC e na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, explicou que o valor do 5G está na capacidade de diferenciar tráfego e garantir qualidade de serviço em aplicações críticas. “A rede 5G é capaz de garantir que o tráfego proveniente destes serviços mais críticos, robôs, sensores, veículos, possa ser transportado com garantias de qualidade de serviço, coisa que outros tipos de redes não conseguem fazer”, afirmou.
Quando há necessidade de se mover e de cobertura enquanto se movem, não tenho dúvidas que a solução tem que ser uma rede de 5G devidamente engenheirada
O investigador distinguiu também o 5G do Wi-Fi em ambientes industriais. Enquanto o Wi-Fi pode ser suficiente em escritórios, quando há mobilidade, grandes áreas de cobertura, requisitos de latência, fiabilidade ou continuidade operacional, a resposta tende a mudar para a rede móvel. “Quando há necessidade de se mover e de cobertura enquanto se movem, não tenho dúvidas que a solução tem que ser uma rede de 5G devidamente “engenheirada” e considerando os use cases da empresa”, defendeu.
Ao contrário do que acontece em países como a Alemanha ou Reino Unido, onde existe espectro reservado para empresas criarem redes privadas próprias, em Portugal esse caminho não foi previsto no leilão do 5G. Por isso, explicou, “se quiserem fazer uma rede privada, têm que se articular com o operador”. Esta diferença no modelo nacional não impede, no entanto, a evolução das redes móveis privadas, sobretudo em setores com operações críticas, grandes áreas de cobertura e necessidades de mobilidade, em áreas como a da energia, indústria, portos, minas, defesa ou investigação.
Onde as redes privadas já fazem diferença
No debate, moderado pelo subdiretor do ECO Tiago Freire, Manuel Ricardo sublinhou que uma rede privada 5G usa a mesma tecnologia das redes públicas, mas com outro âmbito: “A área que ela vai cobrir é uma área muito bem definida”. O conjunto de utilizadores é fechado (só entra quem tem autorização específica) e os casos de uso são identificados à partida.
Pedro Salgueiro, Head of Large Enterprise and Public Sector da Vodafone Portugal, reconhece que houve um trabalho prolongado de sensibilização junto das empresas para alertar para a importância do tema. “Já andamos nisto há cerca de seis anos, a fazer esta evangelização”, partilhou, considerando que o mercado está a mudar à medida que surgem exemplos concretos. “É muito ver para crer”, resumiu.
Neste momento o que se está a ver é o avançar para crescer na cadeia de valor da própria produção. Por exemplo, utilizar as câmaras que estão dentro destas mobile private networks para fazer controlos de qualidade. E aí já começa a ter impactos diretos nos negócios dos clientes
Segundo o especialista, a adoção ganhou tração quando os projetos passaram a traduzir-se em “realidade e benefícios operacionais”. Entre os casos de uso, destaca câmaras com inteligência artificial para contagem de pessoas, deteção de fumos ou outras anomalias em perímetros definidos, leitura automática de painéis, funcionamento de veículos autónomos e drones, localização de ativos, manutenção preditiva e sistemas de comunicação crítica. “Neste momento o que se está a ver é o avançar para crescer na cadeia de valor da própria produção”, disse, apontando impactos diretos na qualidade dos produtos e nos processos de negócio.
Roberto Almeida Santos, General Manager da EMACOM, explicou que a rede da Madeira nasceu de um plano para tornar a economia regional “mais resiliente” e inicialmente mais ligada ao turismo, mas teve de ser ajustada à realidade regulatória portuguesa. “Transformámos um projeto que se chamava rede privada numa coisa que se chamava rede privativa”, contou.
O objetivo aqui foi conseguir ligar estes 24 locais e garantir que conseguíamos introduzir comandos, receber informação e garantir que todo o sistema estava operacional
“O objetivo aqui foi conseguir ligar estes 24 locais e garantir que conseguíamos introduzir comandos, receber informação e garantir que todo o sistema estava operacional”, explicou. A rede suporta câmaras 5G com inteligência artificial, digital twins, push-to-talk, realidade aumentada, IoT, contadores inteligentes e controlo da iluminação pública. Para equipas no terreno, o push-to-talk – que permite contacto imediato, geral ou segmentado, entre os colaboradores – é “qualquer coisa de outro mundo”.
A resiliência foi outro dos temas centrais e Manuel Ricardo avisou que não basta instalar uma rede privada para garantir disponibilidade permanente. “Temos que perceber quais são os fatores de risco”, lembrou, defendendo que é necessário planear redundâncias, serviços mínimos e planos de recuperação. Roberto Almeida Santos acrescenta que, em sistemas críticos, a alimentação elétrica é decisiva. “Não há redes infalíveis”, disse, e, num cenário prolongado de falha energética, baterias e geradores também têm limites.
Apesar dos desafios, os participantes concordam que a infraestrutura abre caminho a aplicações ainda imprevisíveis. “Instala-se a rede e passado algum tempo surgem aplicações novas que vão tirar partido daquilo que está instalado”, disse Manuel Ricardo. “Vale a pena instalar porque as coisas vão aparecer seguramente”. A tecnologia de base do 5G e a arquitetura inicial das redes móveis privadas está disponível, e depois cabe a cada organização e cada projeto definir as necessidades e as especificações em concreto.
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