ECO da Campanha. Caravana vira à direita às ‘cavalitas’ das sondagens e do voto laranja
Com Ventura e Seguro alinhados na bipolarização, Cotrim e Mendes disputam ombro-a-ombro a “utilidade” do voto que foi da AD nas legislativas. Almirante já admite criar um partido em caso de derrota.

Com o palácio cor-de-rosa à vista, parece agora ser o voto laranja o mais disputado na reta final desta campanha para as presidenciais que movimenta mais de 90 milhões de euros em apostas.
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Todas as sondagens indiciam que André Ventura tem ‘lugar reservado’ na segunda volta, ao segurar o eleitorado fiel do Chega. E a hipótese de ser António José Seguro a disputar-lhe o assento em Belém – a corrida a dois está calendarizada para 8 de fevereiro – amplificou a disputa entre João Cotrim de Figueiredo e Luís Marques Mendes pela “utilidade” do voto que foi da AD nas últimas legislativas e garantiu a reeleição de Luís Montenegro.
Com o primeiro-ministro envolvido em cartas e aparições [ver abaixo], André Ventura aproveitou o embalo das sondagens para se colocar como a “alternativa” a António José Seguro e apelar ao voto do “povo de direita, centro-direita e antissocialista”. E o candidato apoiado pelo PS fez questão de alinhar nessa bipolarização e na dramatização de um “pesadelo”, ao pedir a concentração dos votos na sua candidatura “para que a democracia passe à segunda volta”.

Porém, contrariando o estudo da Católica para a RTP divulgado na véspera, ao final da tarde surgiu uma sondagem da Intercampus a dar esperança a Marques Mendes na disputa à direita com Cotrim – e a deixar tanto Seguro como Gouveia e Melo para trás. No caso do ex-chefe do Estado-Maior da Armada, uma tendência confirmada em todos os inquéritos.
Em cima da meta, o almirante na reserva que partiu para esta corrida como favorito e está agora “verdadeiramente angustiado” com o “risco da escolha de um mau Presidente da República”, admitiu num programa da Antena 3 que poderá criar um partido em caso de derrota: “Não ponho de parte qualquer projeto político de futuro, se isso estiver dentro da minha capacidade”.

Tema quente
A carta
Embalado pela sondagem da Católica que o mostrava como o único com hipóteses de disputar a ida à segunda volta com André Ventura e António José Seguro, João Cotrim Figueiredo pôs a circular durante a madrugada uma carta dirigida a Luís Montenegro em que apela ao voto do PSD na sua candidatura para não “dispersar votos” no espaço político da AD, admitindo que deixar cair Marques Mendes “exige coragem”. E até citou Sá Carneiro: ‘Primeiro o país, depois o partido e, por fim, a circunstância pessoal de cada um’.
Esta missiva acabou por contaminar a campanha, com Marques Mendes a logo acusar Cotrim de fazer um “número político” e de “exibicionismo”. No mercado de Alvalade, em Lisboa, Gouveia e Melo criticou a iniciativa do liberal por “mostrar uma subserviência que não é boa na Presidência da República”.
Seguro quis passar ao lado do tema – “a carta que escrevo todos os dias é a cada portuguesa e a cada português”–, mas Ventura viu Cotrim “um pouco de cabeça perdida” por pedir apoio ao líder do Governo após andar “metade do ano a dizer que era contra o Orçamento do Estado de Montenegro”.

Ao lado de António Filipe numa ação de campanha no Parque Industrial da Mitrena, em Setúbal, o comunista Paulo Raimundo preferiu a ironia ao aludir ao facto de o candidato liberal ser um defensor das privatizações.
“Já ouvi dizer que esse candidato terá enviado duas cartas ao primeiro-ministro. Não acredito porque se tivesse mandado duas cartas, só iam chegar depois das eleições, tendo em conta a privatização dos CTT com que Cotrim Figueiredo está profundamente engajado”, atirou Paulo Raimundo.
A figura
Luís Montenegro
Depois ter participado numa ação de campanha de Luís Marques Mendes na Batalha a 4 de janeiro, logo no arranque da campanha para as presidenciais – nessa altura, com as sondagens a darem resultados bem diferentes, advertiu que votar em Seguro e Cotrim seria facilitar a passagem de “dois candidatos populistas” (leia-se, André Ventura e Gouveia e Melo à segunda volta), Luís Montenegro voltou esta quarta-feira à estrada, em Vila Nova de Famalicão, para tentar dar um empurrão ao candidato apoiado pelo PSD e também pelo CDS.
Gouveia e Melo classificou a reentrada do líder social-democrata como uma “tentativa desesperada” de ajudar Mendes e contestou que “o lugar de primeiro-ministro obriga a um conjunto de responsabilidades” e que esta nova participação não lhe parece correta “em termos éticos”.
André Ventura ironizou que Montenegro é “o salva-boias” [salva-vidas] de Espinho para tentar ajudar a campanha de Mendes. Embora duvide que seja bom para o candidato, frisando que a saúde está num “caos” e vários setores queixam-se de um Governo que “não está a fazer nada por eles”.

O número
4,9%
Dois professores do IPAM analisaram a forma como os candidatos presidenciais comunicaram nas principais redes sociais no mês de dezembro. A análise incidiu sobre 2.104 publicações nas redes sociais Facebook, Instagram e TikTok de oito candidatos: André Ventura, António Filipe, António José Seguro, Catarina Martins, Cotrim Figueiredo, Gouveia e Melo, Jorge Pinto e Luís Marques Mendes.
Segundo a análise feita por Luís Bettencourt Moniz e João Andrade Costa, o candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS nesta corrida surge como aquele com “menor tração digital”. É que, apesar de ter 226 publicações, “o engagement médio não ultrapassa os 4,9%, com cerca de 141 mil interações, o que indica dificuldades na mobilização da audiência e na criação de uma relação digital significativa”.
A frase
"Desistir a favor de António José Seguro? O assunto está fechado. As únicas desistências até hoje foram em 1996, numa altura em que não havia voto antecipado e em que os emigrantes ainda não votavam. Milhares de portugueses estão a votar há mais de uma semana.”

Norte-Sul
Tal como aconteceu nas últimas eleições legislativas, os principais candidatos presidenciais vão andar sobretudo pelo Norte do país no penúltimo dia na estrada, antes de fecharem a campanha na sexta-feira na região da capital. António José Seguro arranca o dia em Anadia e terá depois passagens por Póvoa de Lanhoso, Famalicão e Braga. André Ventura, que na sondagem da Católica para a RTP surgia a par do socialista no topo das sondagens, fará um almoço-comício em Ponte de Lima e jantará numa quinta em Tentúgal, no distrito de Coimbra.
João Cotrim Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo arrancam ambos o dia em Gondomar. O liberal visita o Centro de Dia de Soutelo e segue depois para a Maia, antes de fechar o dia no Porto, enquanto o almirante visita a feira de Gondomar e terá ações de campanha na Afurada (Gaia), na ANJE e na Rua das Flores (Porto) antes de fechar em festa na Alfândega.
Luís Marques Mendes também não sairá desta área metropolitana: acorda em Amarante, almoça com estudantes no Porto e ao final da tarde andará pela Baixa da cidade a contactar com a população.
É provável que o candidato apoiado pelo PSD e CDS se cruze no Mercado do Bolhão com Catarina Martins, que antes disso andará pela feira de Barcelos e irá visitar o supercomputador Deucalion na Universidade do Minho (Guimarães).
Jorge Pinto vai estar de manhã em Gaia (Santo Ovídio) e à tarde atravessa o Douro para visitar a Escola Artística Soares dos Reis e contactos com a população em Cedofeita.
Já António Filipe arranca o dia em Almada, mas sobe depois para uma arruada no Porto (Praça da Batalha) e um comício noturno em Braga (Escola Sá de Miranda).

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