Costa sobre venda das barragens da EDP: “Toda esta construção é, no mínimo, criativa”

  • ECO
  • 17 Março 2021

O primeiro-ministro acredita que que a diretora-geral da AT já mandou os serviços ver o que se passa com o negócio. "Se não o estiver a fazer, eu ficaria perplexo", disse Costa. 

O primeiro-ministro, António Costa, classificou esta quarta-feira o modelo de negócio da venda das barragens da EDP no rio Douro à francesa Engie através de uma cisão, seguida de fusão, como uma “construção, no mínimo, criativa” utilizada pela elétrica portuguesa.

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Um dia depois do CEO da EDP, Miguel Stilwell d’Andrade, ter ido ao Parlamento prestar esclarecimentos e ter garantido aos deputados que a venda “não foi uma operação montada com a intenção de planeamento fiscal agressivo”, Costa disse no debate sobre Política Geral estar a aguardar que “a Autoridade Tributária atue em relação a esse negócio como em qualquer negócio que se faz no país”.

Em resposta aos ataques dos líderes do Bloco de Esquerda e do PSD, Catarina Martins e Rui Rio, que acusam o Governo de isentar a EDP do pagamento de imposto de selo na venda das barragens, o que resultou numa “borla fiscal” de 110 milhões de euros, Costa disse que num Estado de direito não pode interferir. “Isso só acontece num Estado totalitário”, diz. O primeiro-ministro disse ainda que Rui Rio não tem qualquer razão para colocar em causa a idoneidade da Autoridade Tributária, referindo não acreditar que a diretora-geral da AT não tenha mandado já os serviços ver o que se passa com o negócio. “Se não o estiver a fazer, eu ficaria perplexo“, disse Costa.

Por seu lado, o líder do PSD insistiu no pedido de explicações: “Como é que explica que a Autoridade Tributária ao fim de 3 meses não tenha dito nada?”. Rio afirmou ainda que parece que há “advogados de defesa” da EDP no Governo e criticou a autorização de uma operação com uma “empresa-fantoche”.

“A EDP montou um esquema para tentar não pagar impostos: num dia cria uma empresa com um funcionário, no dia seguinte passa a exploração de seis barragens no valor de 2,2 mil milhões de euros, para essa empresa, nesse mesmo dia vende a empresa ao consórcio, que um mês depois a extingue”, disse Rio.

António Costa retorquiu dizendo que não é advogado, liquidador de imposto nem acionista da EDP ou da Engie. “Não sou nada, sou simplesmente primeiro-ministro. O que me compete dizer é que nos termos da lei quando um bem público é concessionado a uma determinada empresa e essa pretende transferir a concessão carece de autorização do Estado”, explicou, referindo que é a Agência Portuguesa do Ambiente que faz essa avaliação.

Sei que o senhor deputado não é jurista, mas há uma figura que é o desvio de poder“, disse, para justificar a inação da APA na parte fiscal. “Se houve simulação fiscal, isso é inaceitável, tratando-se da EDP ou de qualquer um de nós. Isso é básico”, garantiu

Por seu lado, Catarina Martins insistiu que a elétrica tem ainda de pagar 110 milhões de euros em impostos. “O negócio só podia acontecer com autorização do Governo”, disse no debate, questionando Costa sobre o porquê de ter autorizado a “fuga” de impostos da EDP.

António Costa respondeu que nesse processo interveio só para autorizar ou não a transferência da concessão. “É uma competência própria do Ministério do Ambiente”, esclareceu. Quanto à parte fiscal, o primeiro-ministro diz que não é da competência do Executivo, mas da Autoridade Tributária. O primeiro-ministro confia no Fisco, o qual “cumprirá as suas funções”. A líder do BE defendeu ainda que o Governo devia ter dito à EDP que não podia criar uma estrutura fiscal para evitar pagar o imposto devido.

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