Portugueses em Angola preparados para “mudança histórica” no país

País de êxodo para muitos portugueses nos últimos anos, Angola apresentou-se como uma oportunidade de ganhar mais dinheiro em menos tempo. Há muitos que, apesar da crise, continuam por lá.

No dia em que chegou a Luanda, em fevereiro de 2015, Joana Frade sentiu de imediato alguns “constrangimentos pessoais” por se ter mudado para um país onde “não podia” movimentar-se “com toda a liberdade a que estava habituada”. Depois de Portugal, Macau, Hong Kong e Emirados Árabes Unidos, países onde já tinha vivido e trabalhado, a portuguesa estranhou a mobilidade limitada angolana.

“Chegada a Luanda, estive a viver algum tempo num hotel, sem carro próprio mas com apoio de motorista da empresa, como é comum aqui para um expatriado. Tive de me habituar aos condomínios fechados”, recorda. Joana conta que a capital angolana “não é propriamente o local mais seguro do mundo, onde se possa andar a pé ou onde existam transportes públicos como noutras cidades”, apesar de, sublinha, “desde há um ano já serem frequentes táxis de cinco lugares”, por exemplo.

Joana, 31 anos, mudou-se para Angola depois de saber de uma oferta de trabalho numa empresa angolana.D.R.

“Nas províncias angolanas não tenho qualquer problema em andar de moto-boy ou de candongueiro (táxis de 14 lugares) mas, em Luanda, nunca aconteceu por não ter tido essa necessidade e por não ser aconselhado em termos de segurança. Depois de me ter sido alocada viatura própria pela empresa, sempre fiz o meu dia-a-dia normal de idas para o trabalho, supermercado, programas com os amigos, sozinha a qualquer hora do dia ou da noite, sem constrangimentos e problemas maiores. Comparativamente ao meu dia-a-dia em Lisboa, sinto falta de uma boa esplanada com vista citadina ou de uma avenida como a marginal, de ler num jardim público ou de passear numa Baixa”.

"O que mais me faz falta em Luanda é a sensação de plena segurança e a existência de zonas históricas para caminhar.”

Joana Frade

Portuguesa a viver em Angola

Só que essa sensação não faz Joana abdicar de atividades como praia, caça, pesca, campismo, fotografia e voluntariado. “Gosto de ir aos bairros, aos mercados, de conhecer o dia-a-dia das pessoas, de os ver sembar e de apreciar os seus sorrisos. Angola ainda não é um destino turístico, e portanto, muita da natureza do país ainda está por explorar, o que adoro. A contemplação da beleza natural, a aventura pelo desconhecido num país tão vasto, a ouvir as magníficas músicas angolanas durante as viagens que faço pelas províncias, são os meus programas de eleição”, assegura.

A portuguesa Joana Frade (à esquerda) está há mais de dois anos em Angola. A fotografia com a lagosta foi tirada na praia do Namibe.D.R.

A nível pessoal, como chegou mesmo no rebentar da crise financeira, diz ter sentido um misto de emoções: desistir ou não? “Somente em junho de 2017 vi a maior parte dos meus ordenados, desde 2015, serem creditados em Portugal e estava a ser muito complicado gerir esta situação”, conta, sobre as dificuldades em transferir dinheiro de volta ao país de origem.

Admiro muito os angolanos, desde a ‘zungueira’ ao mais alto cargo empresarial. Sempre tive um ambiente de trabalho excelente, os colegas angolanos são exímios e isso também se deve à cultura envolvente que bem caracteriza o povo angolano.

Joana Frade

Portuguesa a viver em Angola

“Quando pensei na hipótese de ir para Angola, estava reticente porque sempre ouvi falar das dificuldades que os expatriados viviam no seu dia-a-dia, nomeadamente da questão de falta de segurança. Hesitei em enviar o meu CV durante algum tempo. Tive de ponderar bem os pós e contras, riscos e oportunidades”, conta, em entrevista ao ECO. No entanto, a gestora de marketing acrescenta que nunca se arrependeu da decisão que tomou. “As razões que me levaram a deixar o Dubai, na altura, e ir para Angola, foram o facto de não estar profissionalmente feliz e pelo sonho antigo em seguir as pegadas da família”. Há dois anos e meio, a gestora de marketing mudou-se para Angola depois de ter sabido de uma vaga numa empresa angolana que se adequava às suas competências.

Sou filha de mãe natural do Huambo, o meu avô materno viveu 25 anos em Angola, e toda a restante família da terceira geração, tanto materna como paterna, viveu na República Democrática do Congo e na República do Congo. Desde recém-licenciada que tinha o objetivo de trabalhar em África em organizações internacionais ou ONGs mas a oportunidade de pisar o solo africano surgiu oito anos depois”. Entretanto, mudou de trabalho quatro vezes desde 2015, “sobretudo devido à instabilidade económica que o país atravessa”.

Semanas normais, fins de semana de praia até no Cacimbo

Joana tem um dia a dia normal. Trabalha de segunda a sexta, nunca menos de 10 horas por dia. Nos dias úteis vai ao ginásio, logo às 7h. Almoça no refeitório da empresa com os colegas ou, num restaurante próximo do escritório. Quando não opta por um ou outro, come em casa: afinal, demora cinco minutos no percurso casa-trabalho. “No dia-a-dia laboral, desde que se tenha um uninterruptible power supply (UPS), temos o trabalho sempre salvo. Infelizmente, a falta de energia ainda é frequente”, conta. Ao final do dia faz natação, lê matérias para a tese de doutoramento ou vê televisão. Podia ser em Lisboa? Sim. Em Luanda, pouco muda. E, aos fins de semana, jantar fora é comum. Talvez aqui o caso seja diferente. É que “as melhores festas são em casa”. A praia está também sempre presente, “mesmo no cacimbo” [inverno].

“Vou sobretudo à praia dos surfistas, em Cabo Ledo, ao Mussulo ou às praias do Namibe, destinos sempre mais afastados das cidades. Para sair à noite e jantar, o local com maior oferta é a Ilha do Cabo. Organizamos entre amigas idas a orfanatos e centros de acolhimento de jovens, onde tentamos proporcionar momentos diferentes com simples gestos. Nos últimos tempos, quando trabalhava longe de casa, passava em média três a quatro horas por dia no trânsito, era desesperante e extremamente arriscado a nível de segurança. (…) Comparativamente ao estilo de vida que tenho hoje em dia melhorou substancialmente pelo simples facto de trabalhar ao lado de casa”, diz.

Mais oportunidades e… mais desigualdades

Cátia Teixeira chegou em janeiro de 2005 a Luanda. Licenciada em química aplicada pela Nova de Lisboa, trabalhou cerca de um ano na área e, em 2005, passou a dedicar-se à área do desenvolvimento. Em Luanda, esteve onze anos: regressou a Portugal em maio de 2016. Foi sobre esse período — entre a chegada e a partida — que falou ao ECO. Pisou África pela primeira vez em 2005, durante o estágio integrado no mestrado da University College of London. “Estive cerca de seis meses num hospital em Moshi a fazer investigação. Quando regressei a Portugal, em setembro de 2004, não tinha trabalho”.

Angola surgiu logo depois de começar a trabalhar pro bono em Lisboa, com a oportunidade de ir coordenar o programa de implementação dos Centros de Aconselhamento e Testagem Voluntária do HIV em Luanda. Nem pestanejou. “Disse logo que sim porque não estava a conseguir encontrar trabalho na área. E também porque depois de seis meses na Tanzânia percebi que tinha de voltar a África. Foi “A” minha grande oportunidade”, conta, sobre a proposta de trabalho.

Sabia que vir para Angola era uma grande aventura, com riscos elevados, mas neste momento não me vejo a viver noutro país. Angola é só para os duros, e aqui sinto-me em casa.

Joana Frade

Portuguesa em Angola

Em Luanda, conta, viveu uma life experience: descobriu a vocação através da coordenação de cinco centros na cidade e o constante contacto com muita gente que estava envolvida no projeto — desde financiadores, governo, auxiliares e a comunidade — ajudou a perceber que era mesmo aquilo que queria fazer. Mas as grandes revelações não foram apenas a nível profissional: filha de retornados, Cátia sentiu que, vivendo em Angola, fechava um ciclo iniciado pelos pais muitos anos antes.

Com um pai branco angolano — filho de portugueses nascido em Luanda — e mãe moçambicana — filha de português e mauriciana, não tinha terra. Os meus pais conheceram-se em Moçambique enquanto jovens e já vieram para Portugal em 1977, casados. Eu nasci em 1979. Vieram sem nada por isso foi um começar de novo”. E se, na família, não havia grande cultura africana, o caril e as histórias do passado eram ‘ementa’ dos dias de festa. “Sabia que estava a faltar qualquer coisa em mim, porque sempre tive muita curiosidade por outras culturas e por pessoas também. Os 11 anos de Angola foram de total encontro com uma cultura que agora faz parte de mim e da qual não abdico: o convívio próximo com os outros, o à vontade, a partilha, a música e a comida”, explica, em entrevista ao ECO.

Cátia Teixeira viveu mais de 11 anos em Angola. Voltou em 2016.D.R.

Filha de pais retornados, Cátia diz que a família sempre falou de Angola com certa magia. “A vida era muito boa — tanto em Angola como em Moçambique. As pessoas trabalhavam e tinham tempo… tempo para ir almoçar a casa. Agora em Luanda é impossível. O tráfego é enorme, parado mesmo. Agora a vida também está muito cara. Comer carne e peixe é um luxo. Mas, a nível de relações interpessoais penso que é tudo aquilo que eles contavam: espírito de ajuda e partilha ao nível mais profundo. No fundo, acho que é o espírito que se vive enquanto emigrante em qualquer parte do mundo”, ressalva.

O resultado mais do que esperado

Tiago Faneca vive em Luanda há cinco anos. É empresário e investidor em Angola.D.R.

Tiago Faneca, 34 anos, vive há cinco em Angola. Designer industrial, mudou-se assim que conseguiu visto, e por uma verdadeira paixão… pelos negócios. Mudou-se com o pai para investir. “As razões sempre foram o próprio país. Conhecer algo novo e ganhar mais dinheiro”, explica.

“Ainda nem se sabe quem ganhou mas, quero dizer, há 20 anos que se sabe quem vai ganhar”, brinca, em conversa com o ECO. “As pessoas comentam que o MPLA devia sair, mas não vejo qualquer desânimo com a situação atual. Só mesmo os estrangeiros quererem comprar ou enviar dinheiro para fora”, diz, a respeito das remessas enviadas que sofreram uma queda de 30% desde 2013, motivada pela crise do petróleo que se transformou numa crise de divisas sem precedente.

O problema das divisas

A passagem de divisas do país de volta a Portugal talvez seja um dos temas mais marcantes quando se fala com os portugueses em Angola. “Vim para cá como investidor mas, como se tornou difícil comprar matéria-prima fora de Angola, tive de desistir para já. Aceitei vir trabalhar para uma empresa, e estou satisfeito. Países em crise são sempre os melhores para investir, mais tarde ou mais cedo vão crescer. E o que se ganha aqui é muito mais do que o que se ganha em Portugal“.

Sobre o mesmo tema do repatriamento das divisas, Joana diz que “a questão das dificuldades de transferências salariais dos expatriados continua a ser um problema. Caso as empresas e os Ministérios competentes não encontrem alternativas, não vejo como incentivar o cidadão estrangeiro a permanecer no país. Devido a condições meramente políticas do país nunca ponderei sair de Angola. Vivo há quatro anos fora de Portugal com o objetivo de melhores condições salariais e poder um dia comprar casa no meu país, mas infelizmente isso ainda está longe de acontecer. Se tivesse de sair de Angola provavelmente o próximo destino não seria Portugal”.

A remuneração foi também o fator essencial para Maria Maló mudar de ideias e decidir… mudar-se. “Quando surgiu a oportunidade, disse logo que não. Depois pensei, pensei, pensei e arrisquei. Mudei-me pela experiência e pelo desafio profissional mas principalmente pela questão financeira”.

Com a família com uma clínica em Luanda e a precisar de uma pessoa “da máxima confiança permanente in loco” aliada à falta de emprego na área e aos “ordenados miseráveis que o nosso país oferece” foram as condições necessárias para a “tempestade perfeita”. “Sonhei com várias dificuldades e ponderei vários cenários possíveis na minha cabeça, mas nunca aquilo que vivo atualmente“, conta, ao ECO. “Os portugueses, ao contrário do que eu pensaria, não se ajudam, não se motivam… Vivem em constante disputa de ‘quem é melhor que quem’ e, quem disser o contrário, está-lhe a mentir. Isto dentro da mesma empresa. Todos os portugueses com quem me relaciono têm imensos problemas laborais com os portugueses”. Em relação ao trabalho com angolanos, Maria diz que o ritmo de trabalho é mais lento. E que, por isso, os portugueses passam a acumular funções em simultâneo. “Somos capazes de fazer o trabalho de dois ou de três”, diz.

"Quando surgiu a oportunidade, disse logo que não. Depois pensei, pensei, pensei e arrisquei. Mudei-me pela experiência e pelo desafio profissional mas principalmente pela questão financeira.”

Maria Maló

Portuguesa a trabalhar em Luanda na área de costumer care

Já para Joana, a experiência tem sido bastante diferente e, a nível profissional, um constante desafio. “Aprendo muito num país emergente, onde há oportunidades em quase todos os setores da economia. Há sempre muito trabalho a fazer, sobretudo nas minhas áreas profissionais de gestão e saúde. O facto de poder efetivamente mudar algo é constante e isso é extremamente gratificante. Trabalhar com angolanos foi o que mais me marcou até agora profissionalmente. Cheguei sozinha, sem conhecer ninguém, e fui extremamente bem recebida neste país. Tenho conhecido pessoas incríveis, a garra, a dedicação em obterem formação e um trabalho melhor é constante”, explica.

 

Tiago Faneca com a “família” do crossfit, modalidade que pratica em Angola.D.R.

Segundo Maria Maló, em época de eleições nota-se uma maior animação nos locais. “Acho que começa a haver em Angola uma maior consciencialização do ‘poder escolher’. A questão dos tempos de antena dos vários partidos veio mudar um pouco a visão política do país. De qualquer forma, nas ruas, o MPLA mostra bem a sua força, com milhares de bandeiras espalhadas, outdoors luminosos, festas em todos os bairros (comícios), até bicicletas com o logótipo andaram a distribuir aos miúdos”, conta a portuguesa de 30 anos, a viver em Angola há seis meses.

“Acho que, no geral, os angolanos estão num estado de ansiedade enorme”, atalha Joana. E, ainda que não saiba se este entusiasmo se trata de animação ou desânimo, Joana diz que o povo angolano manifesta “boas esperanças no candidato mais aclamado” [MPLA]. “Acredito que o povo está animado no geral, já os membros do partido que está no poder neste momento, tudo dependerá das mudanças pós-eleições. Foram muitos anos com o mesmo Presidente e esta mudança irá certamente mudar a História de Angola”, diz. Essas expectativas manifestam-se sobretudo nas conversas de rua: Joana diz que nunca viu tanta gente a falar de política desde que chegou.

“O cidadão está mais consciente dos seus direitos e das suas vontades. Nesta fase há sempre mais agitação nas ruas, nomeadamente carros em caravana a buzinarem, e penso que esse facto demonstra ânimo. Há uma mudança visual significativa nos bairros e vias principais das cidades. A cidade de Luanda está vestida de preto e vermelho. As ruas, casas e carros têm as bandeiras partidárias do MPLA e muitos cidadãos andam com as respetivas t-shirts vestidas e bonés. Não sei quantos pesquisadores estarão no terreno, mas vejo diariamente serem feitas em tablets confirmações de local de voto aos recenseados, em zonas de grande aglomerado de pessoas”, conta, a respeito da campanha eleitoral.

Maria Maló vive em Luanda há seis meses.D.R.

Talvez por isso, Joana mantenha maior atenção nestes últimos tempos. “Há os cuidados normais de segurança a ter, nomeadamente a nível rodoviário e de segurança pessoal. Nos dias de eleições e no seguinte é de evitar andar nas ruas mais movimentadas de Luanda sobretudo pelo trânsito que possa existir. Se tivesse de ir votar teria a minha vida complicada porque a afluência de pessoas é grande, muitas horas de espera e muita confusão”. Só que, se aparentemente, as perspetivas poderiam alterar-se, Joana garante: a época eleitoral não muda rigorosamente nada na vida e nas rotinas da portuguesa.

“Estava em Angola nas duas últimas eleições. Como o meu pai nasceu em Angola, tive direito à nacionalidade, por isso votei. Enquanto, então trabalhadora da indústria do oil & gas, tínhamos de estar completamente alinhados com o Governo. Por exemplo, no meu caso, éramos pressionados para ter mais projetos sociais para inaugurar. Não muito diferente do que acontece em Portugal”, assinala Cátia Teixeira.

Sobre o resultado, a gestora de marketing acrescenta: “Penso que esta será uma fase de mudança drástica na política de Angola à qual os cidadãos, a seu tempo, se adaptarão. É muito comum em altura de eleições os expatriados estarem ausentes do país. No meu caso, neste momento, como a proximidade de casa e trabalho é mínima, os riscos são menores no que diz respeito a questões de segurança, e esse é um facto no dia-a-dia angolano, mesmo sem ser em época pré-eleitoral. Tenho até bastaste orgulho em assistir de perto a esta mudança na História do país”.

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