Em quatro meses de missão na Estónia, o contingente português em missão de defesa aérea NATO realizou mais de 500 horas de voo e fez mais de 25 interceções de aeronaves russas.
Não faltam flores e cartazes em frente à embaixada russa em Talin. “O nunca está a acontecer de novo”, “Putin matou Navalyn” e muitas muitas referências ao ataque de Moscovo à Ucrânia tapam os separadores de metal atrás dos quais está a porta de entrada da embaixada, localizada na zona velha da capital da Estónia. Pela manhã, não se viam muitas pessoas pela rua, apenas alguns turistas faziam fila no interior do café mais antigo da cidade para comprar café e bolos ou não fosse o seu nome “Dente Doce”, numa tradução literal, traduz a assessora de comunicação do ministério da Defesa da Estónia, Eleka Rugam-Rebane.
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Mas doce é apenas o maçapão tradicional da Estónia — uma espécie de doce fino — porque a relação tensa com o vizinho a menos de mil quilómetros é tudo menos isso. Um carro no início da rua e uma dupla de polícias está atento às movimentações na zona circundante à representação de Moscovo. Mas não há embaixador a residir na embaixada Nem a Estónia tem embaixador na Rússia. Em 2025, a Estónia expulsou um diplomata russo por atividades subversivas contra o Estado, tendo ambos os países chamado os seus embaixadores, com as atividades a serem lideradas de forma interina pelos primeiros secretários, cumprindo-se a regra da reciprocidade.
Apenas um sinal evidente de que as relações entre os dois países estão longe de uma normalidade. Nada que surpreenda muito. Historicamente há muito que Estónia e Rússia mantêm uma relação tensa. Depois do colapso do Império russo, a Estónia ganhou a sua independência em 1920, mas para isso teve de lutar contra a Rússia soviética. A vitória é celebrada na Praça da Liberdade onde uma estátua em formato de cruz — a Cruz da Liberdade — assinala esse momento. Duas décadas depois foi anexada pela União Soviética.
Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, o território foi ocupado pela Alemanha nazi, tendo sido recapturado pelos soviéticos em 1944. Seguiram-se muitos anos de ‘ocupação’, deportações, repressão política das liberdades, com a Estónia só a recuperar a sua independência em 1991, após o colapso da União Soviética.
A invasão russa da Ucrânia só veio reavivar o peso dessa memória. Incursões de aeronaves ou de drones russas no espaço aéreo do país não têm ajudado a esquecer a longa sombra do gigante russo, mesmo ali ao lado.
Se a convivência tensa entre os dois países é visível na histórica cidade, torna-se evidente quando, a pouco mais de 40 quilómetros da capital, entramos a base área de Ämari, onde forças militares de países NATO operam missões de defesa área e policiamento dos céus estonianos e realizam exercícios operacionais.
Policiar os céus do Báltico
Rodeada de floresta, a base de Ämari estende-se por vários hectares, e não faltam edifícios e hangares distribuídos pelo espaço. É num deles que aguarda em parada, parte do contingente militar português de cerca de 95 militares da Força Aérea destacado para a Estónia. Mesmo ao lado, pilotos e forças de apoio do contingente turco que vai receber a passagem de testemunho. Pelo hangar, vê-se cadeiras, um pódio com microfones e ao fundo bandeiras dos países NATO que participam na missão na Estónia. Tudo pronto para a cerimónia de passagem de testemunho entre as duas forças militares da Aliança Atlântica.
Desde abril que um contingente de quase uma centena de militares portugueses — composto por pilotos-aviadores, operações/manutenção, segurança/Polícia Aérea, saúde e suporte (logística; relações públicas; finanças, etc.) — e quatro caças F-16 policiam os céus do país do Báltico no âmbito da missão Enhanced Air Policing 2026 (eAP26).
A missão integra a ação de dissuasão e defesa da NATO e é descrita como “uma das principais medidas de tranquilização implementadas pela Aliança no flanco leste europeu”. A partir da base aérea de Ämari, o destacamento português realizou missões de policiamento aéreo, participou em atividades de treino multinacional, contribuindo com isso para a vigilância, proteção e defesa do espaço aéreo dos Estados Bálticos: Estónia, Letónia e Lituânia.
Quando estes em 2004 aderiram à NATO não possuíam capacidade de garantir, de forma permanente, o policiamento do seu espaço aéreo, tendo para isso, a Aliança criado a missão Baltic Air Policing, baseada na rotação de destacamentos de aeronaves de países aliados. Em 2014, depois da anexação ilegal da Crimeia pela Rússia, a presença militar da Aliança no flanco leste foi reforçada com Medidas de Tranquilização (Assurance Measures).
Entre essas medidas está o Enhanced Air Policing — aumentando o número de aeronaves e militares destacados, bem como as bases de operação — uma missão permanente da defesa aérea integrada da NATO na região.
Desde 2007, é a nona missão que Portugal realizou na Estónia, lembra Nuno Melo, ministro da Defesa, cinco das quais como lead nation. Após quatro meses chega ao fim e segue-se agora a Turquia. A prova que “na NATO a geografia não limita a solidariedade”, destacou Hanno Pevkur, ministro da Defesa da Estónia, no seu discurso aos dois contingentes militares.
É a quarta missão da Turquia no país. “Depois seguem para a Roménia”, adianta a embaixadora da Turquia na Estónia, Başak Türkoğlu, perante o contingente turco, os Leopardos, também em formação, mesmo ao lado dos militares portugueses.
A Turquia levou consigo 76 militares e cinco caças F-16, um deles — com o símbolo Leopardo do destacamento — está mesmo parqueado fora do hangar, ao lado de um caça da Estónia.
Nem todos os militares do contingente nacional estavam presentes no hangar, afinal, apesar da cerimónia, 31 de julho ainda era dia de operações e havia que manter a vigilância. Para a força portuguesa foram mais de 500 horas de voo, mais de 25 interceções de aeronaves russas e 50 missões de apoio aéreo que os militares da Força Aérea Portuguesa realizaram em conjunto com forças de países bálticos, mas também França, Reino Unido ou Canadá.
Um empenho que o ministro da defesa da Estónia, Hanno Pevkur, considerou revelador do “compromisso de Portugal com a Estónia”. Os países até podem estar distantes geograficamente, “mas no que toca à segurança, o entendimento é o mesmo”, considera.
“O destacamento e o desdobramento das forças aqui demonstram claramente que, tal como é importante manter fechada a porta da frente, isso tem exatamente a mesma importância para Portugal”, disse o ministro da defesa da Estónia.
Estónia aumenta para 5% do PIB investimento em Defesa
Hanno Pevkur antecipa meses complicados. “A Rússia enfrenta sérias dificuldades internas. A Rússia está a arder, não apenas no sentido literal, mas também em sentido figurado. Enfrenta dificuldades na Ucrânia, no campo de batalha. Mas temos de manter essa pressão e continuar a ajudar a Ucrânia a lutar pela sua liberdade”, aponta o ministro da Defesa da Estónia.
“A Rússia não interrompeu a reforma das suas Forças Armadas. Apesar de estar a conduzir uma guerra de agressão em larga escala contra a Ucrânia, continua a reformar e a reconstruir o seu exército. Está a deslocar para a nossa vizinhança mais do dobro do efetivo militar, mais do dobro do equipamento, entre outros meios. Ou seja, está a reforçar as suas capacidades militares e nós temos de responder a isso”, refere.
“Para responder, temos de ser muito claros na nossa mensagem e nas ações que tomamos. Uma dessas ações é a transição das missões de policiamento aéreo para missões de defesa aérea. Isso envia uma mensagem clara à Rússia: estamos unidos e defenderemos cada centímetro do território da NATO”, destacou.
Mas o confronto com a Rússia não passa só pelo policiamento dos céus. Há muito que a Rússia desenvolve uma guerra híbrida que passa igualmente pelo ciberespaço e desinformação. “Relativamente à nossa região, compreendemos claramente que os próximos oito meses serão bastante difíceis, porque muitos de nós teremos eleições. Haverá eleições na Suécia, na Finlândia, na Letónia e na Estónia. Além disso, a França realizará eleições presidenciais. Perante este contexto, compreendemos que a Rússia não se concentra apenas nas ações militares, mas também nas ações híbridas”, alerta o responsável.
“Influenciar ou tentar condicionar eleições faz parte, digamos, da sua caixa de ferramentas. É, por isso, que temos de permanecer muito vigilantes”, refere ainda. Talvez não seja uma coincidência que a NATO tenha na Estónia um centro de Ciber Defesa.
Neste cenário, a Estónia tem vindo a reforçar as suas capacidades de defesa. “Estamos a reforçar muito rapidamente as nossas capacidades militares. Aumentámos a despesa com a defesa para mais de 5% do PIB na componente central da defesa, em todos os domínios: aéreo, marítimo e terrestre. Temos novas capacidades, mas isso não significa que deixemos de precisar dos nossos aliados”, continua.
O país é um dos 19 que recorreu ao programa de empréstimo SAFE para a compra de equipamento militar, tendo garantido junto de Bruxelas uma fatia de 2,3 mil milhões.
O investimento no reforço de capacidades está a traduzir-se igualmente no crescimento da indústria. “A indústria da defesa está a crescer muito rapidamente, também na Estónia. Há cinco anos tínhamos cerca de 50 empresas do setor da defesa, hoje temos perto de 250. Portanto, estamos a crescer, Portugal está a crescer, e é exatamente disso que precisamos, porque estamos a investir mais dinheiro dos contribuintes. E, quando investimos mais dinheiro dos contribuintes, precisamos igualmente de uma indústria capaz de fornecer aquilo de que necessitamos”, aponta o ministro da Defesa da Estónia.
A passagem de testemunho serviu também para Portugal e Estónia avaliaram potenciais níveis de colaboração também ao nível industrial. Na conversa que antecedeu a cerimónia, Hanno Pevkur conversou com o ministro da Defesa português, Nuno Melo, o que os dois países podem fazer “no domínio naval”, mas também na área dos drones.
“Há uma empresa portuguesa, a Tekever, que está muito ativa não só na Estónia, mas também no Reino Unido e em muitos outros países. A empresa tem mantido um contacto muito próximo com as nossas Forças Armadas. Este é apenas um exemplo, mas há muitas outras empresas que também estão a cooperar”, referiu.
E quando questionado sobre se equaciona comprar drones da Tekever, Hanno Pevkur responde: “Estamos nesse processo. Está a decorrer um procedimento de contratação pública. Portanto, sim, essa possibilidade existe. No entanto, naturalmente, não posso confirmar isso hoje, precisamente porque se trata de um procedimento de contratação pública.”
Em maio a fabricante de drones portuguesa abriu escritório na Estónia, tendo participado do “Spring Storm 2026”, o maior exercício operacional do ano das forças militares da Estónia, com mais de 12 mil participantes. Em meados de junho, durante o Eurosatory 2026, em França, assinou ainda um memorando de entendimento com a empresa estónia Skeleton Technologies para cooperar nas áreas da defesa, aeroespacial e tecnologias avançadas, com foco no Reino Unido, França, Estónia e no flanco leste da NATO.
FAP recebe novos caças “em breve”
Tendo o F-16 turco — o mesmo ‘modelo’ usado pela Força Aérea Portuguesa —, como pano de fundo e ladeado pelos responsáveis da Força Aérea, Nuno Melo comenta o processo de renovação da frota aérea militar nacional. Uma necessidade premente pois não só os caças estão em fim do ciclo de vida, como também o país precisa garantir que tem capacidade de cumprir com os compromissos internacionais como, por exemplo, missões NATO.
“Evidentemente que o F-16 terá de ser substituído e esse é um processo que não se abriu ainda, mas que será necessariamente em breve, tendo em conta a idade destas aeronaves”, disse Nuno Melo, sem, no entanto, precisar uma data.
“Quando o processo se abrir eu não escolho capacidades, a dimensão é eminentemente técnica. Há preocupações que temos: garantir a maior capacidade de sobrevivência e de combate dos nossos militares, o que significa que os equipamentos têm de ser fiáveis, têm de ser letais, têm de ser robustos, têm de ser tecnológicos. Mas essa avaliação não é minha enquanto representante da tutela”, frisa.
“Será seguramente de uma equipa técnica que nos habilitará politicamente também a decidir, tendo também em conta as circunstâncias geopolíticas, obviamente”, reforça.
O ministro da Defesa dá a decisão sobre os equipamentos militares a adquirir via SAFE — programa de empréstimo europeu no qual Portugal garantiu uma tranche de 5,8 mil milhões de euros e que, depois das fragatas, deverá ter os restantes processos concluídos até ao final do ano — como o modelo para uma futura decisão sobre quais os caças que irão reforçar as capacidades da Força Aérea Portuguesa.
Foi uma equipa técnica, do EMGFA, dos três ramos das Forças Armadas, da Direção-Geral de Política, da Direção-Geral de Armamento e Património da Defesa Nacional, da própria Secretaria-Geral, entre outros especialistas, que “determinou aquilo que é absolutamente necessário para a modernização e reequipamento das nossas Forças Armadas, permitindo esse cumprimento de missões e também ao encontro daquilo que são alvos capacitários da NATO”, descreve.
“Portanto, tudo feito de forma pensada, estruturada, avaliada tecnicamente e, por causa disso, também eu acredito bem decidida politicamente. Será assim também quando se abrir o processo da substituição das aeronaves F-16”, diz.
No SAFE o peso da compra de equipamento made in Europa, face ao momento geopolítico, e o retorno para a economia pesaram na decisão, no caso dos caças, que peso é que esse retorno para a economia e a questão geopolítica terá na tomada de decisão, questionamos?
“A questão geopolítica obriga-nos a investir no pilar europeu de defesa da NATO e suponho que quando investimos através do SAFE na defesa, ninguém pode pôr em causa que estamos a investir no pilar europeu de defesa da NATO”, refere o governante.
“O que estamos a comprar é europeu e em alguns momentos até com Portugal liderando. O projeto de veículos não tripulados é liderado por Portugal e a produção será 100% portuguesa. E em cada um dos outros equipamentos, as empresas portuguesas e a economia portuguesa estarão no ciclo de produção e ou no ciclo de manutenção”, reitera.
“No que tem a ver com a defesa nacional, o nosso critério é sempre no que seja possível em Portugal, no que não existe em Portugal, na Europa, e onde na Europa não se alcance, no resto do mundo, livre. Mas obviamente que há equipamentos têm que ser considerados caso a caso, e tem que se ver aquilo que existe na Europa, que existe em Portugal, e não existe na Europa e não existe em Portugal”, ressalva.
“Essa avaliação não se faz por antecipação e parte de um domínio que é técnico, em relação ao qual obviamente a Força Aérea, como primeira interessada, terá uma palavra muito importante a dizer, não apenas, mas também”, diz.
Tendo em conta que a Força Aérea já referiu por diversas vezes o interesse nos F-35, a decisão será 90% decisão Força Aérea e o restante retorno para a economia?
“A escolha, a seu tempo, quando tiver que acontecer, será política obviamente, mas balizada e assente em critérios técnicos e sempre com uma base de comparação em relação a tudo aquilo que existe no mercado. Porque o processo não se abriu e porque essa indicação a esse nível [do ramo] também nem sequer foi assim apresentada, num momento oportuno nós diremos o que há de ser feito”, diz.
“Quando o processo se abrir, vai haver uma avaliação técnica, um estudo comparativo, ponderação de todas as vantagens relativas, tendo em conta também o contexto geopolítico, e no final o Governo decidirá”, sintetiza.
A Saab (com os Gripen) e o consórcio Eurofighter são as empresas na corrida à substituição dos caças, juntamente com a americana Lockheed Martin.
#O ECO/eRadar viajou à Estónia a convite do Ministério da Defesa.
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