Prescrição cultural nas empresas, faz sentido?

  • Maria Sousa Martins
  • 27 Julho 2026

As empresas que derem este passo não estão a reinventar o bem-estar corporativo, mas sim a elevá-lo.

A solidão mata tanto quanto fumar quinze cigarros por dia. Não é uma opinião – é o que a ciência nos diz, com a mesma seriedade com que fala de colesterol. E, no entanto, poucas são as empresas que têm planos robustos de prevenção para a solidão das suas pessoas colaboradoras.

Durante décadas, a medicina tratou a ansiedade com ansiolíticos, a depressão com antidepressivos, a obesidade com dietas, a diabetes com insulina. O modelo funciona, mas já não é suficiente. As doenças que mais aumentam neste século não são virais, mas sim sociais: nascem no isolamento, alimentam-se da ausência de sentido, prosperam no stress crónico.

É neste contexto que tem crescido a prescrição social, uma abordagem centrada na pessoa que, em vez de receitar um comprimido, liga indivíduos a apoios não clínicos. A prescrição cultural é a sua expressão mais rica: o encaminhamento de doentes, por profissionais de saúde, para atividades artísticas e culturais – um grupo de teatro, uma visita a um museu, uma aula de cerâmica, um clube de leitura. Não como entretenimento, mas como intervenção clínica sobre as causas da doença.

A ideia nasceu no Reino Unido nos anos 90 e em 2019 foi integrada no seu serviço nacional de saúde. Hoje está presente em mais de trinta países. Portugal não é exceção: do Alentejo ao Porto, há programas em funcionamento e um consórcio nacional em expansão, com perspetivas de alastrar a todo o território. A evidência aponta numa direção consistente: menos consultas, menos urgências, melhorias na ansiedade, depressão e qualidade de vida.

Tudo isto parece distante do mundo das empresas. Mas deveria mesmo ser?

O trabalho é hoje o principal contexto social de muitos adultos. É onde passamos a maior parte do nosso dia, e onde, inevitavelmente, construímos identidade, tecemos relações, encontramos – idealmente – sentido. É também, para milhões de pessoas, a principal fonte de stress crónico e isolamento funcional.

Perante o aumento de situações de burnout, ansiedade e baixas médicas por saúde mental, as empresas respondem com as ferramentas que conhecem: medicina no trabalho, seguros de saúde, programas de bem-estar e, mais recentemente, linhas de apoio psicológico. São respostas úteis, mas reativas por design. Tratam o sintoma depois de aparecer, sem trabalhar na prevenção.

O que a prescrição cultural nos ensina é diferente. A figura central não é o médico, psicólogo ou terapeuta: é o link worker: alguém que conhece a pessoa como um todo e os recursos culturais à sua volta, e faz a ligação entre ambos. Não é uma medida standard, mas uma ligação feita à medida, porque o que transforma não é a atividade em si, mas sim a combinação entre a pessoa certa, a experiência certa e o momento certo. A prescrição cultural procura ver o que pode faltar, e procura agir preventivamente, antes de o problema se instalar.

A questão que se coloca é se faz sentido replicar esta lógica no ambiente empresarial. A resposta, acredito, é sim – não como substituição das medidas existentes, mas como complemento numa abordagem verdadeiramente holística. Porque se a prescrição cultural demonstra, no contexto clínico, que ligar pessoas a experiências significativas reduz ansiedade, combate o isolamento e melhora a qualidade de vida, porque não aplicar a mesma lógica preventiva dentro das organizações? As empresas que derem este passo não estão a reinventar o bem-estar corporativo, mas sim a elevá-lo.

Há um argumento económico para quem precisa de números: em Portugal, o stress e os problemas de saúde mental custaram às empresas 5,3 mil milhões de euros em 2022 (em absentismo e presentismo). Por outro lado, por cada euro investido em saúde mental, estima-se um retorno de cinco euros, em menor utilização de cuidados de saúde, menos baixas médicas e equipas mais produtivas. Face a estes números, parece não só lógica como urgente a aposta em abordagens preventivas e holísticas de bem-estar.

Mas o argumento mais forte não é económico. O equilíbrio entre vida profissional e pessoal ultrapassou a remuneração como principal fator de escolha de empregador – as pessoas não ficam onde ganham mais, ficam onde se sentem bem e têm mais oportunidades de crescimento. E pessoas colaboradoras que se sentem bem não são apenas mais leais: são mais criativas, mais presentes e mais capazes de contribuir para uma cultura empresarial saudável.

É aqui que a prescrição cultural pode ser uma ferramenta diferenciadora, não como substituto do que já existe, mas como uma camada adicional de prevenção, mais personalizada e mais humana. E o horizonte é ainda mais amplo: a prescrição social vai muito além da cultura – inclui qualquer experiência que reconstrua ligação, propósito e sentido de pertença: passeios na natureza, grupos de meditação, workshops de cerâmica, voluntariado comunitário, repair cafés, etc.

A medicina percebeu isto. As empresas que perceberem também não vão apenas reduzir baixas médicas – vão construir ambientes mais holísticos e resilientes, onde o talento realmente quer estar.

  • Maria Sousa Martins
  • Gestora de Conhecimento e Formação do BCSD Portugal

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