PQP e a boa teimosia na indústria

A base da economia nunca deixará de estar nas PME mas a existência de grandes grupos capazes de competir em mercados globais abertos são essenciais para a competitividade e criação de riqueza.

Pedro Queiroz Pereira (PQP) fez do Grupo Semapa muito daquilo que se diz que a economia portuguesa deve ser: aberta e competitiva, com uma forte base industrial, exportadora e virada para os mercados globais.

PQP manteve e reforçou o carácter industrial dos seus negócios quando o movimento em sentido contrário era intenso, com muitos grupos a desinvestirem na indústria para entrarem nas áreas financeira, de comércio ou serviços.

Nunca teve medo de estar em sectores de concorrência aberta, como são a celulose e papel e os cimentos, onde a competição é global e se faz pela eficiência e capacidade gestão.

Isto é a antítese dos mercados protegidos e dos negócios rentistas que vivem encostados ao Estado ou a concessões públicas e que foram uma das principais desgraças do país nas últimas décadas.

Numa economia que padece de falta de capital nas empresas, o Grupo Semapa manteve uma política de forte reinvestimento em sectores de capital intensivo, com a construção e operação de novas unidades fabris, tanto no país como lá fora.

Com esse investimento e capacidade produtiva a The Navigator Company tornou-se na segunda maior exportadora nacional – a seguir à Petrogal e antes da Auto Europa. Mas, se quisermos fazer o ranking pelo contributo líquido para a balança comercial, a Navigator é certamente líder, uma vez que, ao contrário das outras unidades, importa muito pouca matéria-prima ou componentes.

E tudo isto PQP foi fazendo com grande independência e distanciamento dos poderes públicos – com quem teve alguns embates pelo caminho, mas isso são ossos do ofício – e, preferencialmente, longe dos holofotes dos media. Na verdade, Pedro Queiroz Pereira não nutria grande simpatia por jornalistas e nunca cultivou com estes relações de grande proximidade. Ao contrário dos que anunciam aquilo que não sabem se vão fazer, preferia executar primeiro e anunciar depois.

No momento em que desaparece aquele que era o principal industrial do país, o episódio que mais tem sido recordado pelos media é o papel decisivo que PQP teve no princípio do fim de Ricardo Salgado e do Grupo Espírito Santo.

É, de facto, dos mais marcantes e de maior impacto público, até porque muitos portugueses só terão notado a existência de Pedro Queiroz Pereira quando este prestou o seu depoimento na altamente mediatizada Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES/GES.

E também isso foi um traço distintivo do que é a norma do país e das suas elites, sempre mais dispostas à cumplicidade do encobrimento mútuo e ao compromisso sem riscos do que a divergências assumidas e a confrontos assumidos, dos quais se pode sair ganhando ou perdendo.

Com o estrondoso fim do GES ainda longe, só um espírito frontal, com grande independência face aos poderes instituídos, com grande certeza do que estava a fazer, uma posição sólida e isento de “telhados de vidro” se aventuraria a confrontar o banqueiro mais poderoso do país da maneira que o fez para assegurar o controlo do seu grupo.

Com Belmiro de Azevedo e Américo Amorim, Queiroz Pereira foi dos empresários mais marcantes das últimas décadas em Portugal. Com origens muito diferentes – os dois primeiros vieram de famílias humildes – fizeram também trajectos diferenciados nos negócios. Mas partilhavam perfis semelhantes na capacidade de concretização de grupos sólidos e de dimensão internacional e no distanciamento desafiante que mantiveram em relação aos vários ciclos do poder político.

Temos falta, e não excesso, destas características. A base da economia portuguesa nunca deixará de estar nas Pequenas e Médias Empresas mas a existência de grandes grupos capazes de competir em mercados globais abertos são essenciais para a competitividade do país e para a criação de riqueza, até pelo efeito de arrasto que têm em relação a unidades fornecedoras mais pequenas que constituam fileiras sectoriais de valor. A eterna Auto Europa é o exemplo que temos sempre mais à mão, mas não é o único. Um dos problemas do país não é termos dois ou três casos com dimensão dos quais somos muito dependentes. É termos apenas esses dois ou três casos.

Mas tenho dúvidas que uma parte importante do país tenha noção dessa nossa fragilidade e necessidade. Continuamos com uma má relação com grupos económicos, grandes unidades industriais, com o sucesso empresarial e com a criação de riqueza. Por vezes dá ideia que preferimos viver na permanente indignação que nos provocam o fracasso e as falências, sejam elas fraudulentas e casos de polícia ou não.

É possível que isso seja uma contaminação da má relação que temos também com a generalidade dos que ganham dinheiro e são ou se tornam ricos. Sejam eles empresários que construíram do nada, desenvolveram e fizeram crescer grupos que herdaram, fazem negócios limpos que correram muito bem ou são profissionais competentes e reconhecidos noutras áreas, como apresentadores de televisão. Mas já vai sendo tempo de nos libertarmos dos resquícios salazaristas de associar a honradez e honestidade à pobreza.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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