Numerário: um direito de todos os cidadãos

  • Pedro da Cunha
  • 13 Julho 2026

Quase 30% das freguesias não possuem multibanco, mas um projeto-piloto agora lançado pode ser um caminho para devolver a inclusão a muitos milhares de portugueses.

Em Tó, no concelho de Mogadouro, levantar dinheiro voltou a ser possível sem sair da freguesia. Pode parecer um detalhe para quem vive numa cidade, mas, para muitos portugueses que vivem em territórios de baixa densidade, o acesso ao próprio dinheiro continua a implicar tempo, deslocações, dependência de terceiros e perda de autonomia. O Banco de Portugal, em conjunto com a Associação Nacional de Freguesias e a SIBS, iniciou, a 6 de julho, o projeto-piloto Multibanco + Perto, que permitirá aos cidadãos aceder a numerário e a outros serviços bancários essenciais através de Juntas de Freguesia. A iniciativa, que começou precisamente em Tó, merece ser saudada e representa um passo importante para combater a exclusão financeira em muitas zonas do país.

Atualmente, mais de 1.200 freguesias portuguesas (quase 30% do total) não dispõem de serviço multibanco, afetando centenas de milhares de pessoas que são obrigadas a percorrer distâncias significativas para aceder ao seu próprio dinheiro. O que para muitos é apenas uma deslocação curta, para habitantes de zonas de baixa densidade pode tornar-se um verdadeiro obstáculo ao exercício de uma liberdade básica.

A preocupação dos portugueses é evidente. Num inquérito realizado em 2025 pela Denária, mais de metade dos inquiridos considera que o acesso ao dinheiro físico está a tornar-se mais difícil, e quase 90% entende que cabe ao Estado garantir esse acesso.

O numerário não é apenas um meio de pagamento. É um instrumento de liberdade, inclusão e resiliência. Funciona em situações de falha tecnológica, protege a privacidade dos cidadãos, permite um maior controlo das despesas e constitui uma reserva de valor segura. Mas para cumprir essa função, tem de estar acessível. Um direito que existe apenas no papel, mas não chega às pessoas, é um direito incompleto.

O projeto agora lançado abrangerá inicialmente apenas 30 freguesias. É um começo positivo, mas não pode ser transformado em ponto de chegada. O objetivo deve ser garantir rapidamente este serviço às centenas de freguesias que continuam sem acesso local a numerário, avaliando o piloto com sentido de urgência e transformando as boas intenções em cobertura efetiva do território.

Este debate não é sobre nostalgia nem sobre resistência à inovação. É sobre liberdade de escolha, coesão territorial e igualdade no acesso a serviços essenciais. A digitalização dos pagamentos não pode deixar para trás quem vive longe dos centros urbanos, quem não domina ferramentas digitais ou quem simplesmente quer continuar a poder escolher como paga e como acede ao seu dinheiro.

Numa sociedade verdadeiramente inclusiva, o acesso ao dinheiro físico não pode depender do código postal. O numerário é um bem público e a sua acessibilidade deve ser assegurada a todos os cidadãos. A chegada do Multibanco + Perto é, por isso, uma boa notícia. Mas será ainda melhor se for o início de uma política pública estável, ambiciosa e verdadeiramente nacional de acesso ao numerário e liberdade na sua utilização enquanto meio de pagamento.

  • Pedro da Cunha
  • Secretário-Geral da Denária

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Numerário: um direito de todos os cidadãos

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião