Contra a nivelação salarial nas universidades (e não só)
O verdadeiro desafio não está em nivelar salários, mas em assegurar que a remuneração acompanha o mérito.
Antes de discutir diferenciação salarial no ensino superior, importa reconhecer um problema estrutural mais profundo: O subfinanciamento crónico das universidades portuguesas, em parte associado a um sistema de propinas artificialmente baixo — tema que já tive oportunidade de discutir noutro artigo, em linha com a posição defendida pelo ministro da Educação, Fernando Alexandre. Ao manter preços artificialmente abaixo do custo real, o Estado preserva um modelo excessivamente dependente de financiamento público, limitando a autonomia e capacidade competitiva das instituições. As consequências são evidentes: menor margem para atrair e reter talento académico, menor investimento em investigação e maior rigidez na gestão universitária.
É neste contexto de restrição financeira estrutural que surge o debate sobre salários. Ignorar essa realidade e focar apenas na “equidade” entre docentes é discutir sintomas sem enfrentar a causa. A entrevista ao ECO de Jorge Bacelar Gouveia, em março último, trouxe para o debate a alegada existência de “professores de primeira e de segunda” decorrente de regimes salariais diferenciados. A conclusão implícita — nivelar salários — pode parecer intuitiva, mas é economicamente errada e revela uma leitura bem mais corporativa e jurídica do que propriamente económica do funcionamento do ensino superior contemporâneo.
Em rigor, não existem apenas “professores de primeira e segunda”. Existem de primeira, segunda, terceira e quarta linha. E isso é perfeitamente natural. Qualquer sistema competitivo sério assenta precisamente no reconhecimento da heterogeneidade de desempenho, mérito, produtividade e impacto. Fingir que todos contribuem igualmente para investigação, financiamento, reputação internacional ou produção científica não é igualdade; é negação da realidade. Pelo mesmo motivo, não faria qualquer sentido que, por exemplo, todos os professores associados de uma universidade recebessem exatamente o mesmo salário independentemente do número e qualidade das publicações, da capacidade de atrair financiamento competitivo, da orientação de estudantes, da avaliação pedagógica ou da projeção internacional que geram para a instituição.
A polémica que continua em torno da Universidade Nova de Lisboa — e em particular da Nova SBE — revela precisamente esta incompreensão profunda dos incentivos que regem o ensino superior globalizado. Universidades competem globalmente por talento académico, onde investigadores produtivos recebem ofertas constantes, onde rankings importam, onde publicação científica gera reputação e onde a capacidade de atrair alunos internacionais depende diretamente da qualidade média do corpo docente. Nesse contexto, diferenciação salarial não é distorção; é mecanismo básico de retenção e atração de talento. Sistemas que ignoram estas diferenças tendem inevitavelmente a proteger desempenhos medianos enquanto penalizam quem mais contribui para a missão académica da instituição. Quando se reduz artificialmente a recompensa associada ao mérito, cria-se exatamente o clássico problema económico do free rider: o esforço adicional deixa de ser racionalmente compensado e o sistema passa progressivamente a incentivar conformismo, acomodação e mediocridade institucional.
O verdadeiro problema das universidades portuguesas não é existir diferenciação salarial. É existir tão pouca.
- Mercados de trabalho académicos, concorrência internacional e externalidades da internacionalização. Os professores universitários não são homogéneos — nem dentro da mesma faculdade, nem entre áreas. Economia, engenharia, medicina ou direito enfrentam mercados internacionais distintos, com diferentes níveis de procura e remuneração. O ensino superior opera numa economia aberta, onde universidades competem globalmente por docentes e estudantes. Ignorar esta heterogeneidade é negar o funcionamento de um mercado de trabalho qualificado, onde salários refletem escassez e competição internacional. No contexto específico da Nova SBE, que compete com escolas europeias e norte-americanas, uma grelha salarial rígida equivale a impor um teto abaixo do equilíbrio — afastando talento e reduzindo qualidade. Universidades no Reino Unido e nos Estados Unidos recorrem amplamente a esquemas salariais flexíveis e a “named professorships” para captar e reter académicos de topo. Este não é um conceito distante: a Nova SBE pratica há anos este mecanismo, mobilizando financiamento privado para criar posições mais competitivas. Pretender competir mantendo salários rigidamente tabelados é inviável. A contratação de professores internacionais não é um luxo, mas um investimento: traz redes globais, eleva padrões científicos e reforça reputação institucional. Limitar essa capacidade implica abdicar totalmente desses ganhos.
- Produtividade marginal, incentivos e equidade. A ideia de que professores que “fazem mais ou menos o mesmo trabalho” devem auferir o mesmo salário ignora um princípio central da economia: a remuneração deve refletir a produtividade marginal. Dois docentes podem lecionar as mesmas horas, mas ter impactos radicalmente diferentes em investigação, publicações, captação de financiamento ou reputação institucional. A verdadeira equidade não implica que todos recebam o mesmo, mas que recebam em função do seu contributo. Quando a remuneração deixa de refletir desempenho, os incentivos enfraquecem-se, o esforço adicional deixa de ser recompensado e surge um clássico problema de risco moral.
- Risco, precariedade e escolha individual. Um aspeto frequentemente ignorado neste debate é a diferença nas condições contratuais. Os docentes em regime de direito privado — como na Nova SBE — enfrentam maior precariedade e risco — podem ser dispensados com maior facilidade — enquanto os que estão sob o regime público beneficiam de elevada estabilidade. Existe, portanto, um claro trade-off entre risco e retorno. Salários mais elevados no regime privado não são um privilégio arbitrário, mas uma compensação por esse risco adicional. Neste contexto, faria sentido permitir maior liberdade de escolha: docentes poderiam optar entre regimes com diferentes combinações de estabilidade e remuneração. A possibilidade de escolha melhora a eficiência e alinha incentivos com preferências individuais.
- Universidades não são repartições públicas. As universidades públicas não são empresas, mas também não devem funcionar como extensões da administração pública. Produzem conhecimento, competem internacionalmente e operam num ambiente altamente competitivo. Por isso exigem autonomia, flexibilidade e capacidade de adaptação incompatíveis com lógicas excessivamente burocráticas e uniformizadoras.
Em conclusão, a narrativa de “professores de primeira e de segunda” pode ser politicamente apelativa, mas assenta numa visão profundamente errada do funcionamento das universidades. Instituições que competem internacionalmente não podem ignorar diferenças de desempenho e contributo. A diferenciação salarial não é uma distorção, é um instrumento necessário para atrair, reter e incentivar os melhores académicos. Naturalmente, essa diferenciação deve assentar em critérios transparentes, objetivos e verificáveis, refletindo contributos efetivos para investigação, ensino, captação de financiamento e projeção institucional.
O verdadeiro desafio não está em nivelar salários, mas em assegurar que a remuneração acompanha o mérito. Sistemas que recusam reconhecer essa realidade acabam, inevitavelmente, por proteger a mediocridade e penalizar a excelência.
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