BRANDS' ECONTAS Globalização acelera transformação fiscal
A globalização e a tecnologia estão a mudar a função fiscal das empresas, que têm de reforçar dados, competências e processos para responder a exigências regulatórias em tempo real.
Atualmente, a internacionalização já não é exceção, mas a regra. E, com ela, chegam exigências fiscais e regulatórias que atravessam continentes, setores e modelos de negócio. No mais recente episódio das Compliance Talks, uma iniciativa da Sovos Saphety e do ECO, participaram Ricardo Xavier Correia, Partner de Tax Technology and Transformation da EY Portugal, e João Ricardo, da Direção Financeira Responsável de Fiscalidade da Brisa, que explicaram como a função fiscal está a ser transformada pela globalização e pela tecnologia.
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“Existem aqui diferentes tipos de desafios: desafios de recursos humanos, de falta de recursos para a própria função fiscal, uma maior utilização da tecnologia, também um conjunto e um contexto regulatório mais agressivo e globalizante”, resume Ricardo Xavier Correia.
As iniciativas da OCDE, o BEPS (sigla em inglês para Erosão da Base Tributável e Transferência de Lucros), as normas IFRS (International Financial Reporting Standards) e a expansão da faturação eletrónica estão a criar um ambiente em que o erro custa caro e a falta de consistência nos dados se torna um risco real. “Melhores dados, garantir uma boa governança de dados, gerir ou ter um centro de competências de recursos específicos com processos sedimentados e ter tecnologia de suporte, é um ponto-chave”, reforça o Partner da EY.

No terreno, a Brisa é um exemplo de como esta pressão se materializa. Com um centro corporativo em Portugal e um grupo em fase de forte internacionalização, a empresa está a integrar novas operações, como a aquisição da francesa Access, mantendo o negócio a funcionar e, ao mesmo tempo, alinhando processos e reporte.
“Na Brisa temos um centro corporativo situado em Portugal e damos suporte a todas as empresas do grupo”, explica João Ricardo. Cada aquisição começa com um plano de integração detalhado, essencial quer numa primeira etapa de 90, 100 dias, quer depois no pós-integração. “É essencial perceber quais são as áreas mais críticas porque se quisermos ir a tudo ao mesmo tempo não vai funcionar”, refere o responsável da Brisa.
A questão é sobretudo humana, porque equipas habituadas a trabalhar numa realidade mais local passam a responder a um centro corporativo, com outras exigências de reporte e transparência. “Estamos a falar de pessoas. Os processos não funcionam sozinhos e aqui o capital humano também é bastante relevante”, sublinha. A cultura, lembra, é parte da equação da globalização.
Ricardo Xavier Correia insiste que a transformação da função fiscal passa por uma mudança no perfil das equipas, que devem ter menos tarefas operacionais e mais análise e estratégia. “As competências para a função fiscal estão a mudar de competências mais ligadas a uma componente mais funcional de tax, para componentes ligadas a tecnologia e a uma maior capacidade analítica”, descreve.
O objetivo é libertar tempo das equipas para atividades de maior valor acrescentado. “Ter equipas que dedicam menos tempo a funções mais operativas, mais operacionais, de transação, para se focar em áreas mais de analítica, de estratégia, de análise de dados”, acrescenta. Mas isso implica reskilling e gestão da mudança, admite.
Estamos a fazer, não só enquanto organização, formação e literacia em termos de tecnologia e, sobretudo, de inteligência artificial e automatização de processos, porque é o caminho que temos de seguir
A resposta, acredita o Partner da EY, passa por formação, aprendizagem em contexto de trabalho e pela combinação de gerações dentro das equipas. “Formação, learning on the job, alteração do mix de equipas. Ter uma equipa com novos recursos, com outras competências, também faz com que as pessoas aprendam por defeito com os novos recursos”.
Na Brisa, a resposta tem passado por construir uma cultura de formação contínua e de experimentação. “Temos uma preocupação de constante formação dos colaboradores a todos os níveis”, afirma João Ricardo. Na área fiscal, isso significa combinar formação técnica com desenvolvimento de soft skills e literacia tecnológica. “Estamos a fazer, não só enquanto organização, formação e literacia em termos de tecnologia e, sobretudo, de inteligência artificial e automatização de processos, porque é o caminho que temos de seguir”. Para fazê-lo, a empresa criou um verdadeiro laboratório interno, onde a tentativa e erro fazem parte da cultura. “Nem sempre a primeira solução é a mais óbvia”.
A agenda digital da Brisa ganhou velocidade com a entrada de novos acionistas, em 2020, e essa mudança de paradigma inclui inovação tecnológica na área fiscal, que tem de construir business cases claros para justificar investimento em automatização e inteligência artificial.
É importante haver uma estratégia global de inteligência artificial para a empresa
Ricardo Xavier Correia lembra que também as administrações fiscais estão a investir em tecnologia e em inteligência artificial para cruzar dados e detetar incoerências. “Existe um progresso ao nível das autoridades tributárias. Não só cada uma delas individualmente, mas também integradamente, comunicarem cada vez mais dados entre elas”, afirma.
Para as empresas, isso significa que não basta adotar ferramentas genéricas, mas que é preciso desenhar aplicações específicas para a função fiscal, com dados, regras e objetivos bem definidos. “É importante haver uma estratégia global de inteligência artificial para a empresa”, defende o Partner da EY. E, dentro dessa estratégia, programas específicos para a área fiscal. Caso contrário, há o risco de repetir o erro dos grandes sistemas de gestão que, no passado, deixaram a função fiscal para segundo plano.
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