A nova era de ouro do betão e do alcatrão

Num tempo de acelerada transformação tecnológica, convém ponderar o custo de oportunidade de fazer estes investimentos em vez de outros.

Nicolas Notebaert, CEO da Vinci Concessions e presidente da Vinci Airports, a empresa francesa que é dona da ANA, marcou presença no evento que a concessionária e o Governo promoveram esta semana sobre o novo aeroporto. E deixou uma frase que ajuda a colocar em perspetiva a obra que aí vem: “não há um projeto planeado para a Europa Ocidental tão grande” como o Luís de Camões.

Os números impressionam. O novo aeroporto de Lisboa vai ocupar uma área de 2.500 hectares nos concelhos de Benavente e Montijo, o terminal de passageiros vai ter 500.000 m2 e até 140 portas de embarque. Entre escavações e aterros será necessário movimentar 45 milhões de metros cúbicos de terra. O preço é a condizer: entre 7,9 mil milhões e 8,9 mil milhões de euros. Sem contar com as acessibilidades rodoviárias (250 km de estradas) e ferroviárias.

O novo aeroporto é a expressão maior da nova era de ouro do investimento em infraestruturas, mas está longe de ser a única.

Depois do boom das autoestradas entre o final do século passado e a primeira década deste, o investimento em infraestruturas quase desapareceu. Ao ponto de nas últimas décadas se terem acumulado necessidades muito avultadas de conservação das estradas, na ordem das centenas de milhões de euros, que só nos últimos anos se começou a recuperar.

O investimento na ferrovia, com algumas exceções, sobretudo nos anos 90, foi quase um deserto no Portugal democrático. A média de idades dos comboios da CP supera os 50 anos.

A visão começou a mudar nos últimos governos de António Costa, com a decisão de avançar para o novo aeroporto, tendo sido encomendando um estudo à Comissão Técnica Independente que ajudou a consensualizar a localização no Campo de Tiro de Alcochete. Foi também lançado um Plano Ferroviário Nacional, que só seria formalmente aprovado em 2025, e os estudos para os atuais projetos da Alta Velocidade Porto-Lisboa e Porto-Vigo.

Os governos da AD deram não só continuidade, mas um ímpeto reforçado ao investimento em infraestruturas. Vai avançar também a linha de Alta Velocidade Lisboa-Madrid, que vai passar pela Terceira Travessia do Tejo (TTT) e o novo aeroporto. O investimento nas três linhas soma cerca de 22 mil milhões, nas contas do Executivo.

Além da TTT, o Ministério das Infraestruturas já pediu os estudos para avançar também com o túnel Algés-Trafaria. O custo estimado para a primeira são 3,5 mil milhões e para o segundo cerca de 2 mil milhões.

O Governo está também a avançar com um conjunto de investimentos em 33 vias prioritárias, que vale 4 mil milhões, retirando o valor do túnel Algés-Trafaria, que é uma das obras da lista.

Nos transportes, entre expansão de redes e novo material circulante serão mais de 5,6 mil milhões, dos quais 1,8 mil milhões destinam-se a novos comboios para a CP.

Para os portos, também esquecidos durante décadas, está previsto um investimento de 4.000 milhões, cerca de um quarto suportado pelo Estado e fundos comunitários.

Já vamos em 50 mil milhões de euros, mas a lista não está completa. O secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Espírito Santo, falou num “ciclo expansionista de 75 mil milhões de euros em obras públicas para os próximos dez anos.”

Uma boa parte deste investimento será assumido por privados. O Luís de Camões é suposto ser pago através das taxas aeroportuárias, a TTT e o túnel pelas portagens de uma nova concessão que junta a Ponte 25 de Abril e a Vasco da Gama. Mas as PPP da Alta Velocidade são pagas pelo Estado, ainda que a Infraestruturas de Portugal depois receba das empresas que operarem nas linhas. O investimento nos transportes é pago pelos contribuintes, tal como os investimentos rodoviários onde não haja portagem.

Terá o país recursos financeiros para tanto? É que o dinheiro já não dá para tudo. A Linha vermelha e a Linha Violeta do Metropolitano de Lisboa saíram do PRR e agora não saem do papel por falta de financiamento, estando a aguardar novos cheques europeus.

Depois de décadas de indecisão, os grandes projetos avançam, e isso é positivo. Vão criar um país mais moderno, atrair investimento, melhorar a produtividade. Entre obra pública e habitação, a construção tem pela frente anos fartos. Mas num tempo de acelerada transformação tecnológica, será que se está a ponderar devidamente o custo de oportunidade de fazer estes investimentos em vez de outros?

Na apresentação do novo aeroporto, o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, afirmou que “o Portugal daqui a dez anos é um Portugal infraestruturado, capaz de ser o alicerce de todos os sonhos dos portugueses, de todos os sonhos e projetos dos empresários e de que quem quer investir em Portugal”.

Convém que o país sonhe com os pés assentes no chão.

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