Continuamos agarrados ao mealheiro mas há luz ao fundo do cofre

As famílias continuam muito fiéis ao banco, mas já há sinais de que o medo de investir está a perder terreno. A poupança começa a ganhar outro fôlego e outra ambição, se bem que a conta-gotas.

Os portugueses continuam a tratar os depósitos bancários como se fossem uma almofada de segurança eterna, mesmo quando essa almofada já perdeu muito do conforto e quase todo o rendimento. A boa notícia é que, finalmente, há sinais de que a poupança começa a sair da gaveta, com as ações e as participações em fundos a ganharem terreno de forma clara e sustentada.

Num país que viu a taxa de poupança subir para mais de 12% no ano passado e que continua a deixar demasiado dinheiro parado no banco, há sinais claros de mudança e de uma relação mais adulta com o investimento.

De acordo com dados recentes do Banco de Portugal, o património financeiro líquido das famílias mais do que duplicou entre 2005 e 2025, ao passar de 172 mil milhões para 402 mil milhões de euros, o equivalente a subir de 108% para 131% do PIB. Significa que os portugueses estão hoje, em conjunto, muito mais ricos do que estavam há duas décadas, apesar da crise financeira, da troika e da pandemia pelo meio.

A explicação está numa equação simples. Em 2005, cada euro de dívida das famílias era compensado por cerca de 2,2 euros de ativos financeiros. Em 2025, essa relação subiu para 3 euros de ativos por cada euro de dívida. Isto não quer dizer que os portugueses tenham deixado de recorrer ao crédito, até porque os empréstimos às famílias permaneceram em valores historicamente elevados nos 164 mil milhões de euros, mas antes que a economia cresceu a um ritmo que tornou essa dívida menos pesada.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

Dito isto, não vale a pena fingir que os portugueses acordaram subitamente convertidos à filosofia de investimento de Warren Buffett. O numerário e os depósitos, incluindo os Certificados de Aforro e do Tesouro, continuam a ser o destino preferido do dinheiro das famílias, representando 44% de todo o património financeiro em 2025, acima dos 39% registados em 2005.

Em percentagem do PIB, o valor parado em contas bancárias e Certificados equivale agora a 86%, contra 73% há vinte anos, o que mostra bem que o hábito nacional de pôr o dinheiro de lado nunca desapareceu. Apenas cresceu.

Este continua a ser o retrato de um país que sabe poupar, mas que insiste demasiadas vezes em aplicar essa poupança em produtos que raramente batem a inflação, dos depósitos aos PPR mais medíocres do mercado.

O conforto ilusório dos depósitos continua a seduzir as famílias, mas a ideia de que basta guardar o dinheiro no banco para garantir o futuro está a desfazer-se, e ainda bem.

A comparação com a área do euro torna a fotografia ainda mais desconfortável. Por cá, os depósitos e os Certificados pesam 44% dos ativos financeiros, enquanto na média da Zona Euro ficam pelos 31%. Os seguros e fundos de pensões têm apenas 11% de peso em Portugal, face a 26% na média europeia, o que ajuda a explicar porque continuamos a falhar na rendibilidade acumulada da poupança nacional. Mas é precisamente aqui que a história ganha interesse, e alguma esperança.

Enquanto os depósitos continuam a ser o porto seguro de sempre, a componente que mais cresceu no património financeiro das famílias, tanto na última década como nos últimos cinco e vinte anos, foi a das ações e outras participações no capital de empresas, incluindo unidades de participação em fundos de investimento. Nada mau para um país tantas vezes descrito como avesso ao risco.

Este dado importa porque desmonta um mito teimoso. Os portugueses não sabem apenas poupar, como também começam a investir. Se a fatia dos depósitos ainda domina o bolo, a parte das ações e dos fundos é a que mais acelera, o que mostra que cada vez mais famílias perceberam que deixar o dinheiro a apodrecer numa conta a prazo tem um custo de oportunidade bem real.

O que torna esta radiografia tão interessante é precisamente a tensão clara entre o velho hábito e a nova realidade. O conforto ilusório dos depósitos continua a seduzir as famílias, mas a ideia de que basta guardar o dinheiro no banco para garantir o futuro está a desfazer-se, e ainda bem.

Para uma economia passa demasiado tempo a mascarar a inércia com o instinto de conservação, assistir a este “despertar” dos portugueses para o investimento é assistir a uma autêntica revolução silenciosa.

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