A ‘água que nos une’ ou a escassez que nos separa

  • Ana Teresa Silva
  • 24 Julho 2026

Se choveu tanto, porque falta água na Costa da Caparica?

Um centro de saúde fechado por falta de água, comércio sem condições de funcionamento, restauração parada, munícipes à beira de um ataque de nervos e bombeiros a distribuir água à população. Não estamos no interior, em seca extrema. Estamos na Costa da Caparica, a vinte minutos de Lisboa, num dos anos mais chuvosos das últimas décadas. Se choveu tanto, porque falta água?

Porque esta crise não é de seca, é da folga que se esgota. Em Almada juntaram-se três fatores: a procura a crescer, como era previsível, mais depressa do que a infraestrutura; uma rede envelhecida onde cerca de um terço da água que entra no sistema não chega a ser faturada; e uma origem única, o aquífero Tejo-Sado, partilhado com muitas outras captações, públicas e particulares. Nenhum destes fatores, sozinho, derruba um sistema. Os três juntos, num verão quente, derrubam.

O que inquieta é que Almada não é caso único. Uma conduta é feita para durar cerca de 50 anos. Ao ritmo a que Portugal renova a rede, 0,5% ao ano, exige-se, na prática, que dure 200. Em 2024, três em cada quatro entidades que distribuem água ficaram num nível de renovação que o regulador classifica insatisfatório. E há mais sistemas a percorrer, em silêncio, o mesmo caminho.

Basta olhar para os dados do regulador. Todos os anos, a água que se perde em fugas na rede, antes de chegar a uma torneira, vale cerca de 100 milhões de euros, ao preço a que os municípios compram a água tratada, à Águas de Portugal. É mais do que os cerca de 76 milhões que, segundo as nossas estimativas, se investem por ano a renovar as próprias condutas que provocam essas perdas, ou seja, paga-se mais pela água perdida do que se investe a resolver o problema que está na origem dessas perdas. E o atraso acumula-se. Cada ano, ao ritmo atual, adiamos a renovação de 1 210 quilómetros de rede. Numa década, são 12 mil quilómetros por renovar e 1,5 mil milhões de euros de investimento em falta. E ainda é preciso somar o custo social e económico de um sistema de água que começa a falhar. Água, o bem mais essencial à vida.

Como chegámos aqui? A forma como o setor está desenhado empurra o custo para a frente. Quando a tarifa da água não incorpora a renovação do ativo, parte do custo fica diferida e paga-se em perdas, em avarias e no investimento concentrado que virá mais tarde. Quando as recomendações do regulador sobre a renovação de redes não são de cumprimento obrigatório para as autarquias, a exigência fica sem meios.

A resiliência hídrica da Península de Setúbal já foi estudada – o anel adutor que interliga as captações da região e a ligação ao sistema de Lisboa que atravessa o Tejo – e está de volta à discussão. Sabemos que o caminho não precisa de ser inventado, precisa de ser retomado e atualizado.

Também há um papel a cumprir por cidadãos e empresas, que passa pela eficiência no consumo, pela denúncia de ligações abusivas e por tarifas que financiem a renovação da rede. O verão de 2026 está a provar aquilo que já todos sabemos, que adiar sai mais caro do que agir.

À engenharia e, sobretudo, ao planeamento cabe transformar o aviso em planos e os planos em obra, a começar no orçamento deste outono. Para que o que chegue a todos seja a água que nos une, e não a escassez que nos separa.

  • Ana Teresa Silva
  • Especialista Água e Saneamento, The Equator Company

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