A ‘água que nos une’ ou a escassez que nos separa
Se choveu tanto, porque falta água na Costa da Caparica?
Um centro de saúde fechado por falta de água, comércio sem condições de funcionamento, restauração parada, munícipes à beira de um ataque de nervos e bombeiros a distribuir água à população. Não estamos no interior, em seca extrema. Estamos na Costa da Caparica, a vinte minutos de Lisboa, num dos anos mais chuvosos das últimas décadas. Se choveu tanto, porque falta água?
Porque esta crise não é de seca, é da folga que se esgota. Em Almada juntaram-se três fatores: a procura a crescer, como era previsível, mais depressa do que a infraestrutura; uma rede envelhecida onde cerca de um terço da água que entra no sistema não chega a ser faturada; e uma origem única, o aquífero Tejo-Sado, partilhado com muitas outras captações, públicas e particulares. Nenhum destes fatores, sozinho, derruba um sistema. Os três juntos, num verão quente, derrubam.
O que inquieta é que Almada não é caso único. Uma conduta é feita para durar cerca de 50 anos. Ao ritmo a que Portugal renova a rede, 0,5% ao ano, exige-se, na prática, que dure 200. Em 2024, três em cada quatro entidades que distribuem água ficaram num nível de renovação que o regulador classifica insatisfatório. E há mais sistemas a percorrer, em silêncio, o mesmo caminho.
Basta olhar para os dados do regulador. Todos os anos, a água que se perde em fugas na rede, antes de chegar a uma torneira, vale cerca de 100 milhões de euros, ao preço a que os municípios compram a água tratada, à Águas de Portugal. É mais do que os cerca de 76 milhões que, segundo as nossas estimativas, se investem por ano a renovar as próprias condutas que provocam essas perdas, ou seja, paga-se mais pela água perdida do que se investe a resolver o problema que está na origem dessas perdas. E o atraso acumula-se. Cada ano, ao ritmo atual, adiamos a renovação de 1 210 quilómetros de rede. Numa década, são 12 mil quilómetros por renovar e 1,5 mil milhões de euros de investimento em falta. E ainda é preciso somar o custo social e económico de um sistema de água que começa a falhar. Água, o bem mais essencial à vida.
Como chegámos aqui? A forma como o setor está desenhado empurra o custo para a frente. Quando a tarifa da água não incorpora a renovação do ativo, parte do custo fica diferida e paga-se em perdas, em avarias e no investimento concentrado que virá mais tarde. Quando as recomendações do regulador sobre a renovação de redes não são de cumprimento obrigatório para as autarquias, a exigência fica sem meios.
A resiliência hídrica da Península de Setúbal já foi estudada – o anel adutor que interliga as captações da região e a ligação ao sistema de Lisboa que atravessa o Tejo – e está de volta à discussão. Sabemos que o caminho não precisa de ser inventado, precisa de ser retomado e atualizado.
Também há um papel a cumprir por cidadãos e empresas, que passa pela eficiência no consumo, pela denúncia de ligações abusivas e por tarifas que financiem a renovação da rede. O verão de 2026 está a provar aquilo que já todos sabemos, que adiar sai mais caro do que agir.
À engenharia e, sobretudo, ao planeamento cabe transformar o aviso em planos e os planos em obra, a começar no orçamento deste outono. Para que o que chegue a todos seja a água que nos une, e não a escassez que nos separa.
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