Depois de mais postos, a mobilidade elétrica precisa de mais clareza

  • Daniela Simões
  • 24 Julho 2026

Mais escolha é uma boa notícia. Mais concorrência também. Mas nenhuma delas cria valor se não vier acompanhada de transparência, simplicidade e informação clara.

Durante anos, a principal questão da mobilidade elétrica em Portugal foi simples: haverá postos de carregamento suficientes para acompanhar o crescimento dos veículos elétricos? Hoje, pela primeira vez, sinto que começamos a ultrapassar essa fase da conversa.

Os números mostram-no. Em maio, a rede pública conectada à MOBI.E registou mais de 968 mil carregamentos, o melhor mês de sempre, aproximando-se de um milhão de sessões mensais. No primeiro semestre de 2026, foram matriculados em Portugal 34.706 veículos 100% elétricos, um crescimento de 38,7% face ao mesmo período do ano passado. Ao mesmo tempo, a rede pública ultrapassou os 15 mil pontos de carregamento previstos no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

Estes números dizem-nos uma coisa importante: a mobilidade elétrica está a entrar numa nova fase de maturidade. E é precisamente por isso que algumas discussões que antes pareciam exclusivamente técnicas começam agora a ganhar relevância para quem conduz um veículo elétrico no dia a dia.

Uma delas é a forma como o mercado da mobilidade elétrica se vai organizar nos próximos anos. Atualmente, a rede pública de carregamento em Portugal funciona através de uma plataforma comum, gerida pela Mobi.E, que liga os diferentes postos de carregamento, operadores e prestadores de serviços. Na prática, isto significa que um condutor pode utilizar o mesmo cartão ou aplicação para carregar em praticamente qualquer posto público do país, independentemente da empresa que o opera.

O novo enquadramento legal prevê uma abertura gradual do mercado e reduz esse papel central, permitindo que os operadores possam desenvolver e gerir as suas próprias redes e serviços de forma mais autónoma.Para os utilizadores, isto poderá traduzir-se numa oferta mais diversificada de serviços e soluções de carregamento, mas também numa experiência menos uniforme, com diferentes operadores a disponibilizarem aplicações, meios de pagamento, tarifas ou programas de fidelização próprios. Ou seja, em vez de uma experiência relativamente homogénea em toda a rede, os condutores poderão passar a ter de comparar diferentes serviços e condições para identificar a opção mais vantajosa em cada situação.

Para permitir a adaptação do setor a esta nova realidade, o Governo decidiu prolongar até ao final de 2027 o período de transição entre o modelo atual e o novo modelo.

Estas movimentações irão trazer mais concorrência e mais liberdade para as empresas. E isso é, em princípio, positivo. Mas também significa que quanto maior for a diversidade de opções, maior será a importância de garantir que o mercado continua simples de compreender.

Nos próximos anos, as dúvidas vão mudar: será igualmente simples perceber quanto custa carregar e qual a melhor opção para cada utilização? Conseguiremos manter a simplicidade numa realidade com mais ofertas e mais modelos de serviço? Será efetivamente vantajoso trocar a interoperabilidade por liberdade comercial – ou, até desafio, seria possível que coexistissem? Corremos o risco de tornar o carregamento mais difícil de compreender precisamente quando a mobilidade elétrica está a chegar a cada vez mais pessoas?

Na minha perspetiva, esta é uma das discussões mais importantes para o futuro da mobilidade elétrica em Portugal. Não porque a liberalização seja, por definição, positiva ou negativa. Mas porque o seu sucesso dependerá da forma como for sentido pelos consumidores.

Mais escolha é uma boa notícia. Mais concorrência também. Mas nenhuma delas cria valor se não vier acompanhada de transparência, simplicidade e informação clara.

A mobilidade elétrica cresceu porque milhares de pessoas confiaram nela. Agora, o desafio passa por garantir que a evolução do mercado continua a traduzir-se numa experiência simples e compreensível para quem o utiliza.

Porque, no final do dia, o sucesso da mobilidade elétrica não será medido apenas pelo número de postos instalados ou pelo número de veículos na estrada. Será medido pela confiança que os consumidores têm quando chegam a um posto de carregamento, sabem quanto vão pagar, conhecem as opções disponíveis e conseguem tomar uma decisão informada.

  • Daniela Simões
  • CEO e cofundadora da Miio

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