Receios de folhas perdidas, falhas na digitalização e atrasos na divulgação das notas estão a alimentar a desconfiança de alunos e famílias na correção dos exames nacionais.
- A divulgação das notas dos exames nacionais gerou uma onda de ansiedade entre alunos e pais, devido a atrasos e problemas técnicos na correção.
- Os alunos expressam preocupações sobre a integridade das suas provas, especialmente em relação às folhas de continuação, que podem não ter sido consideradas na avaliação final.
- A quebra de confiança no sistema poderá resultar num aumento significativo dos pedidos de reapreciação, exigindo uma resposta adequada do Ministério da Educação.
A ansiedade que acompanha todos os anos a divulgação das notas dos exames nacionais ganhou este ano uma nova dimensão. Depois dos atrasos na publicação das classificações e dos problemas registados na digitalização e correção das provas, vários alunos ouvidos pelo ECO dizem ter perdido a confiança no processo e receiam que a nota final não reflita aquilo que escreveram no exame.
O sentimento é praticamente unânime: o maior receio já não é ter errado no exame, mas que alguma resposta se tenha perdido pelo caminho. Quase todos garantem que vão consultar a prova assim que esta seja disponibilizada pelo Ministério da Educação e admitem pedir uma reapreciação caso encontrem alguma incongruência.
“O meu maior medo é algum tipo de resposta da minha prova se ter perdido”, confessa Mafalda Vilela Gomes, aluna do 12.º ano da Escola Secundária de Paços de Ferreira, que pretende ingressar em Bioinformática na Universidade do Porto.
O meu maior medo é algum tipo de resposta da minha prova se ter perdido.
A estudante, que repetiu o exame de Biologia e realizou também as provas de Matemática e Português, diz sentir “alguma insegurança em relação ao processo de correção” e garante que vai consultar o exame antes de aceitar a classificação.
“Vou pedir para ver o exame, para ver se está tudo direito e, se achar que alguma coisa não está de acordo com aquilo que penso, vou pedir à minha explicadora de Matemática para o corrigir.”
O adiamento da divulgação das classificações apenas agravou essa ansiedade. “Quando descobri que ainda ia demorar mais tempo os resultados a saírem senti a ansiedade a aumentar, principalmente porque pretendo continuar a estudar na faculdade e as datas dos concursos não vão alterar. Vou ter muito pouco tempo para me inscrever e isso stressa-me imenso”, confessa Mafalda Vilela Gomes.
A mesma preocupação é partilhada por Xavier Cartó, aluno do 11.º ano da Escola Secundária Rainha D. Amélia, em Lisboa. Apesar de esperar entre 19 e 20 valores no exame de Biologia e Geologia, admite que as notícias das últimas semanas alteraram a forma como olha para o processo de classificação.
“Utilizei uma folha de continuação e tenho medo do que possa ter acontecido a essa folha: perdeu-se? Foi para o exame de outro aluno? Não sei.” No entanto, Cristina Mota, porta-voz da Missão Escola Pública explicou ao ECO que nas escolas ficou registado o número de folhas de continuação utilizadas por cada aluno, pelo que, quando as provas deixarem de estar anonimizadas e forem disponibilizadas aos estudantes, será possível confirmar se todas essas folhas constam efetivamente do exame.
Mais do que a nota, Xavier Cartó diz que foi a confiança no sistema que ficou abalada. “Naturalmente que acaba por abalar um pouco a confiança de todos no sistema.”
Não faz sentido os alunos serem prejudicados por erros administrativos.
Se a classificação ficar aquém do esperado, garante que falará primeiro com os professores antes de decidir se avança para uma reapreciação. “Não faz sentido os alunos serem prejudicados por erros administrativos.”
Também Teresa Pinto, aluna do 12.º ano da mesma escola, considera que a ansiedade deste ano é diferente daquela que habitualmente acompanha a época de exames. “Acho inadmissível os alunos estarem sujeitos a um processo de correção que atualmente está completamente descredibilizado.”
Segundo explica Teresa Pinto, as notícias sobre os problemas técnicos fazem com que qualquer aluno que receba uma nota abaixo das expectativas passe imediatamente a questionar a forma como o exame foi corrigido. “Um aluno que tenha uma nota que não considera justa vai logo preocupar-se com a forma como o exame foi corrigido e em que condições. Isso deixa-me completamente ansiosa.”
Acho inadmissível os alunos estarem sujeitos a um processo de correção que atualmente está completamente descredibilizado.
Para a estudante de Humanidades, o problema vai muito além da divulgação tardia das classificações. “A entrada no ensino superior nunca foi uma certeza. Mas a correção dos exames era uma coisa tangível que podíamos controlar através do estudo. Todo o trabalho que fizemos para obter uma boa nota pode agora ser prejudicado pela confusão que está a ser o processo de correção”, lamenta Teresa Pinto.
Também ela pretende consultar a prova antes de decidir se pede uma reapreciação.
Pais receiam que as notas não reflitam o trabalho dos filhos
A perda de confiança estende-se às famílias. Anabela Abreu, mãe de uma aluna do 12.º ano da Escola Secundária Professor José Augusto Lucas, em Linda-a-Velha, faz questão de sublinhar que o problema não está no profissionalismo dos professores, mas nos constrangimentos técnicos registados ao longo do processo.
“Ela sabe o que fez, mas tem receio de que, devido a essas contingências técnicas, as notas não correspondam ao que fez”, afirma a mãe de Joana Abreu.
A maior preocupação prende-se com as folhas de continuação. “Imaginem que ela fez várias folhas de continuação e elas não estiverem junto do exame. Como é que eu provo que ela fez aquelas respostas?”

A encarregada de educação admite igualmente dúvidas sobre a forma como será disponibilizada a consulta das provas e teme que muitas famílias acabem por recorrer às escolas para confirmar se os exames estão completos.
Cristina Mota, porta-voz da Missão Escola Pública corrobora a ideia da mãe da aluna Joana Abreu e afirma que “não há informações claras de como aceder ao link, nem há informações claras de como vai ser o procedimento de reapreciação”, referindo-se à ligação através da qual, este ano, segundo o Governo, os alunos poderão consultar a correção da sua prova.
Por uma décima entra-se no curso que se quer; por uma décima não se entra.
Anabela Abreu afirma que “há um clima de muita incerteza, muita insegurança e muita ansiedade.“E lembra que, no acesso ao ensino superior, uma diferença mínima pode ser decisiva. “Por uma décima entra-se no curso que se quer; por uma décima não se entra”, lembra a mãe da estudante.
Missão Escola Pública aponta riscos para o rigor da classificação
Os receios manifestados por alunos e pais assentam nos problemas que foram sendo reportados durante o processo de classificação digital das provas. Para a Missão Escola Pública, a questão não está no trabalho dos classificadores, mas nas limitações do novo modelo.
“O processo de classificação não está a depender apenas de uma variável, que é o classificador”, afirma Cristina Mota, porta-voz do movimento.
Segundo explica, existem vários fatores externos que podem comprometer o rigor da avaliação, desde folhas de continuação em falta até problemas na digitalização e na classificação automática de parte das respostas. “O professor não pode assegurar que tem a totalidade das folhas correspondentes ao item que está a classificar”, refere Cristina Mota.
Um dos problemas mais reportados, acrescenta, prende-se precisamente com a ausência de folhas de continuação. “O professor apercebe-se que o aluno continua a responder, mas não existe a continuação da resposta.”
A porta-voz da Missão Escola Pública refere ainda que os professores receberam os itens “a conta-gotas”, tiveram de acompanhar constantemente a plataforma e, nalguns casos, receberam centenas de respostas para corrigir num único dia, reduzindo o tempo disponível para rever o trabalho.
Segundo a porta-voz da Missão Escola Pública, só na terça-feira, último dia previsto para a classificação das provas, uma professora recebeu 444 itens para corrigir (entretanto, o prazo foi prolongado mais um dia, anunciou o Ministério da Educação ao final da tarde desta terça-feira).
Outra das reservas prende-se com a classificação automática das perguntas de escolha múltipla. “Nós questionamos se podemos ou não confiar nessa classificação automática.”
Ainda assim, faz questão de sublinhar que o profissionalismo dos classificadores “não está em causa” e que os docentes “deram o seu melhor” perante as circunstâncias.
Cristina Mota recorda que a Missão Escola Pública alertou o Ministério da Educação ainda antes do arranque da época de exames para os riscos da generalização da correção digital. Segundo a porta-voz do movimento, o modelo tinha sido utilizado no ano passado apenas no exame de Filosofia, tendo já então sido identificados constrangimentos.
Apesar disso, acrescenta, este ano o sistema foi alargado à generalidade das provas do ensino secundário. “Não foi alarmismo. Foi um alerta que acabou por se revelar fundamentado.”
Xavier Cartó considera que os problemas eram evitáveis. O aluno lembra que o modelo de correção digital já tinha sido utilizado no exame de Filosofia do ano passado e defende que os constrangimentos então registados deveriam ter servido para corrigir falhas antes da generalização do sistema.
Federação Nacional da Educação antecipa aumento “excecional” dos pedidos de reapreciação
A quebra de confiança no processo poderá ter consequências já nas próximas semanas.
Em comunicado, a Federação Nacional da Educação (FNE) alerta que o Ministério da Educação deve preparar-se para um “aumento excecional” dos pedidos de reapreciação, admitindo um volume “cinco ou dez vezes superior ao habitual”.
Segundo a federação, em anos anteriores os pedidos de reapreciação representavam cerca de 2% das mais de 300 mil provas realizadas pelos alunos do ensino secundário. Este ano, considera plausível que esse número aumente para dezenas de milhares, uma vez que muitos alunos e famílias poderão querer confirmar se todas as respostas foram efetivamente consideradas antes de aceitarem a classificação atribuída.
A FNE defende, por isso, que o Ministério prepare um plano de contingência que assegure recursos humanos, capacidade tecnológica e administrativa suficiente para responder a um eventual aumento dos pedidos, sem voltar a sobrecarregar os professores classificadores.
Os problemas registados na classificação digital dos exames nacionais tiveram já várias consequências. O Ministério da Educação adiou a divulgação das classificações da primeira fase, alterou o calendário da segunda fase dos exames e prolongou o prazo de inscrição dos alunos do 10.º e 12.º anos para o próximo ano letivo. A tutela admitiu também que alguns professores tiveram de repetir correções depois de terem sido identificados problemas na digitalização das provas, garantindo, contudo, que esses procedimentos faziam parte dos mecanismos de controlo destinados a assegurar o rigor da classificação final.
A pressão sobre o Ministério aumentou ainda esta terça-feira com a demissão da vice-presidente do conselho diretivo da Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE), Salomé Augusto Branco, que deixou o cargo em plena polémica em torno da correção digital dos exames nacionais. As razões da saída não foram tornadas públicas. O Ministério da Educação garantiu que a responsável demissionária não esteve envolvida no processo.
Tanto o ministro da Educação como o primeiro-ministro tentam fazer passar que os imprevistos que têm divulgado são previsíveis numa transição, neste caso digital. Nós entendemos que não. Os imprevistos, que não são poucos, resultam de uma impreparação para esta transição.
Cristina Mota, porta-voz da Missão Escola Pública, considera “bastante grave” que o ministro da Educação, Fernando Alexandre, tenha desvalorizado a polémica em torno dos exames nacionais. “Tanto o ministro da Educação como o primeiro-ministro tentam fazer passar que os imprevistos que têm divulgado são previsíveis numa transição, neste caso digital. Nós entendemos que não. Os imprevistos, que não são poucos, resultam de uma impreparação para esta transição”, afirma.
Ao final da tarde desta terça-feira, perante todos estes problemas, o Ministério da Educação decidiu dar mais um dia para os professores classificarem os exames.
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“O meu maior medo é que alguma resposta da minha prova se tenha perdido.” Alunos sem confiança na correção dos exames nacionais
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