Isabel Guerreiro, a primeira mulher a liderar um grande banco em Portugal

Isabel Guerreiro assumiu a liderança do Santander Portugal em março e já teve de lidar com efeitos de uma guerra. “A instabilidade é algo que já nos habituamos”.

  • Retrato é uma rubrica do ECO na qual, durante o mês de agosto, é publicado diariamente o perfil de uma personalidade que se distinguiu no último ano, em Portugal

É uma “viajante frenética” e não é de se ficar no hotel, conta quem conhece muito bem a primeira mulher a liderar um grande banco em Portugal.

Isabel Guerreiro assumiu a liderança do Santander Portugal a 1 de março, apenas um dia depois de o mundo ter sido virado novamente do avesso com o início dos ataques entre EUA e Irão, numa escalada das tensões que ainda não tem um fim à vista.

O tal espírito de aventura que os colegas lhe reconhecem tem ajudado a comandar o barco nos primeiros meses de forte ondulação.

“Os primeiros quatro meses têm estado a correr genericamente bem. A minha função é outra, mas já estava na comissão executiva há 7 anos, há uma vantagem de conhecer bem o banco. A instabilidade é algo que já nos habituámos, veio para ficar”, reconheceu a gestora na apresentação dos resultados do banco no primeiro semestre há duas semanas.

Foi a primeira aparição pública enquanto CEO e já se notam mudanças: a conferência de imprensa teve lugar no Work Café das Amoreiras, um novo conceito no qual o Santander está a apostar, numa lógica de ser mais do que um balcão tradicional.

Até 2028 serão meia centena destes balcões do futuro em todo o país e refletem como Isabel Guerreiro olha para o banco.

Sucessão natural na escola da banca

Internamente, a ascensão da então vice-presidente ao topo do banco para substituir Pedro Castro e Almeida – que foi assumir funções de administrador do risco a nível do grupo, a partir de Madrid — foi vista como uma “sucessão natural”.

É algo a que o banco está há muito habituado: Castro e Almeida sucedeu a António Vieira Monteiro, que sucedeu a Nuno Amado, que sucedeu a António Horta Osório, nomes que deixaram uma forte marca na história da banca em Portugal e que deram forma ao que no meio se chama de ‘Escola Santander’.

Isabel Guerreiro, 54 anos, segue as mesmas pisadas, apesar de ser formada em engenharia informática e computadores e ter iniciado carreira como analista de sistemas na Novabase antes de ir para o Totta para subdiretora da área de negócio de retalho, na viragem do milénio.

Se havia dúvidas sobre isso, a presidente do Santander, Ana Botín, desfê-las: “Personifica a cultura Santander”.

Isabel Guerreiro é a nova CEO do Santander PortugalFilipe Amorim/Lusa

Na passagem de testemunho, Pedro Castro e Almeida deixou o melhor elogio que se pode fazer: “Talvez o maior desafio da Isabel seja fazer dois mandatos em Portugal sem que a mandem para fora”, disse em referência ao facto de Ana Botín vir com muita frequência recrutar em Portugal para cargos de topo no gigante financeiro espanhol. A tal ‘Escola Santander’ em Portugal é claramente apreciada na Cantábria, onde o banco espanhol continua a ter a sua sede.

Isabel Guerreiro devolveu o elogio na altura: “Tive a sorte de estar na equipa do Pedro desde a primeira hora. (…) Queria aproveitar publicamente para agradecer ao Pedro porque nos trouxe até aqui. Temos uma história bastante bonita para contar”.

Herdámos um banco extremamente saudável”, comentou ainda.

Tecnologia, IA e concorrência

A missão agora é dar continuidade a um caminho de sucesso, mas com muitos desafios pela frente, desde logo tecnológico, uma área que conhece muito bem e onde já assumiu responsabilidades não só em Portugal, mas a nível das operações europeias do Santander.

Castro e Almeida já tinha notado isso: Isabel Guerreiro alia “um entendimento de tecnologia” a “uma grande experiência de banca”.

Para explicar o facto de o Santander contar com o melhor rácio de eficiência da banca portuguesa, mencionou a forte aposta tecnológica e em Inteligência Artificial nos processos internos e que já está a levar a ganhos de produtividade.

Isabel Guerreiro gosta de estar sempre em cima do acontecimento em relação às novas tendências. Como também sabe ouvir os jovens sobre as suas preferências de consumo. ‘Aconselha-se’ junto das suas duas filhas, Rita e Marta, e sabe bem como novos players como a Revolut ou Trade Repulic estão a conquistar terreno nestes segmentos e podem causar muitos danos aos incumbentes.

“Um dos maiores riscos que as empresas bem-sucedidas correm é o risco da complacência. Portanto, é muito importante continuar a garantir que aqui existe concorrência”, é assim que vê essas investidas.

Isabel Guerreiro, CEO do Santander, apresenta os resultados do banco relativos ao primeiro semestre de 2026Hugo Amaral/ECO

Família e Sporting

Liderar um grande banco ocupa muitas horas do dia. Ainda assim, Isabel Guerreiro faz por manter um equilíbrio com a vida familiar e qualquer buraquinho da sua agenda é uma oportunidade para ligar às filhas.

O ginásio faz parte da rotina, assim como os podcasts e os livros e tem cuidado com a alimentação. Em casa, deixa os cozinhados com o marido, mas arruma a mesa depois.

O marido é sócio do Sporting e por isso também acompanha o clube leonino, incluindo nas idas ao estádio, mas não partilha do mesmo entusiasmo. Esse guarda-o para os dias de semana e para o banco que tem pela primeira vez uma mulher à frente.

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