Com a tecnologia de ponta cada vez mais concentrada nos EUA e na China, a Europa está numa "situação frágil". Especialistas defendem que é urgente investir para recuperar autonomia e competitividade.
Superanus. Foi desta palavra latina que, mais tarde, nasceu o conceito de soberania. Durante séculos, o termo esteve associado ao poder dos Estados para governarem o próprio território, fazerem as leis e conduzirem, de forma independente, a política interna e externa.
Nos últimos meses, porém, a palavra ganhou um novo significado no debate europeu. A ascensão da inteligência artificial generativa e a crescente concentração do poder tecnológico nas mãos de empresas, sobretudo, norte-americanas e chinesas colocaram a soberania tecnológica no centro das preocupações da União Europeia (UE).
A dependência europeia de infraestruturas, chips, modelos de inteligência artificial (IA) e serviços de computação desenvolvidos fora do continente tornou-se um dos principais desafios estratégicos de Bruxelas. Esse debate intensificou-se ainda mais com o regresso de Donald Trump à Casa Branca, cujas políticas impostas pelo presidente dos EUA reforçaram a convicção, em várias capitais europeias, de que a Europa precisa de reduzir a sua dependência tecnológica e ganhar maior autonomia num setor cada vez mais determinante para a economia, a segurança e a competitividade.
O debate, que a Europa trava há vários anos, ganhou um novo fôlego no último mês na sequência de um episódio que veio expor, de forma particularmente evidente, a dependência tecnológica do bloco. Mas já lá vamos.
Recuemos até abril, quando a Anthropic, uma das maiores empresas de inteligência artificial generativa do mundo, apresentou o Claude Mythos, um modelo especializado em cibersegurança que descreveu como “o mais avançado até ao momento”, capaz tanto de prevenir como desencadear ataques. Ao contrário do que acontece com a maioria dos seus lançamentos, a empresa optou por não disponibilizar imediatamente o modelo ao público. Numa primeira fase, o acesso foi reservado a cerca de quatro dezenas de parceiros estratégicos, para que estes pudessem testar e desenvolver aplicações antes da abertura ao mercado. Entre essas cerca de 40 organizações não figurava nenhuma empresa europeia. Todas eram norte-americanas.
Pouco mais de um mês depois, no início de junho, a Bloomberg noticiou que a Anthropic iria conceder acesso ao Claude Mythos à Agência da União Europeia, numa decisão vista como um primeiro sinal de abertura ao bloco. No entanto, esse cenário rapidamente se alterou.
Na noite de 12 de junho, a empresa anunciou a suspensão do Claude Mythos e do Fable 5, outro modelo entretanto lançado, para todos os utilizadores. A decisão surgiu depois de a Administração de Donald Trump ter determinado restrições à disponibilização daqueles modelos a cidadãos não norte-americanos. Sem capacidade para limitar o acesso apenas aos utilizadores abrangidos pelas restrições, a Anthropic optou por suspender temporariamente o acesso global aos dois modelos. Foi nesse momento que a discussão sobre a soberania tecnológica europeia voltou a ganhar força.
Em entrevista ao ECO, Carlos Carvalho, CEO da Adyta, começa por sublinhar que “a única coisa positiva que isto trouxe foi obrigar as pessoas a pensar seriamente sobre este tema”. Para o responsável da empresa portuense especializada em cibersegurança e comunicações seguras, a dependência tecnológica da Europa não começou agora com a inteligência artificial. “Este é um problema que existe há décadas. Agora tornou-se mais visível por causa da IA, mas há muito tempo que dependemos de aplicações, redes sociais e ferramentas de trabalho desenvolvidas fora da Europa”.

Na sua perspetiva, essa dependência vai muito além dos modelos de IA. “Estamos a utilizar diariamente plataformas que analisam e recolhem informação sobre aquilo que fazemos. São ferramentas assentes em infraestruturas desenhadas, desenvolvidas e operadas fora da Europa, sobretudo nos Estados Unidos, mas cada vez mais também na Ásia, nomeadamente na China“, alerta. “Na Europa andamos distraídos e há muito tempo que andamos a colocar informação e valor nas mãos de países terceiros sem termos preocupação sobre isso, prossegue o CEO da Adyta.
Questionado sobre se a chegada da Administração Trump tornou este tema mais urgente, Carlos Carvalho considera que apenas tornou mais visível um problema antigo. “O perigo já existia. Vivemos num mundo em que hoje temos um aliado e amanhã não sabemos. Isso aplica-se até entre países europeus“, afirma, defendendo que o principal problema tem sido a falta de investimento e de uma estratégia consistente.
Na sua perspetiva, a Europa tem contribuído para o crescimento tecnológico de outras geografias. “Passámos anos a acelerar a tecnologia americana e chinesa”, afirma Carlos Carvalho, convicto que um dos grandes problemas da Europa, para lá da burocracia, é a falta de investimento. “Muitas das tecnologias nascem na Europa, mas quando chega a altura de escalar, as empresas acabam por encontrar o investimento de que precisam do outro lado do Atlântico e até na Ásia”.
Vivemos num mundo em que hoje temos um aliado e amanhã não sabemos. Isso aplica-se até entre países europeus.
David Grave, Cyber Security Senior Director da Claranet Portugal, também considera que reduzir o debate apenas à inteligência artificial é um erro. “Este tipo de migrações já aconteceu no passado, por exemplo com a cloud. O problema não é a IA, é a dependência sem alternativas”, afirma. “Se o interruptor está do outro lado, nunca temos verdadeiramente o controlo da tecnologia e da infraestrutura”, atira.
Para o responsável, a resposta não passa por rejeitar soluções estrangeiras, mas por adotar uma estratégia híbrida que permita decidir o que pode permanecer em infraestruturas públicas e o que deve ficar alojado em infraestruturas europeias. “O importante é garantir que os dados e os sistemas críticos permanecem sob controlo europeu”, defende.
David Grave reconhece que a Europa parte de uma posição de desvantagem por não estar na linha da frente do desenvolvimento tecnológico, o que a coloca numa “situação frágil”. Ainda assim, considera que já existem alternativas europeias credíveis, apontando como exemplo a francesa Mistral AI no desenvolvimento de modelos de IA. O responsável da Claranet Portugal sublinha ainda que a lógica da soberania tecnológica não se limita à inteligência artificial. “Podemos dizer o mesmo da cloud. Existem vários exemplos de cloud soberana implementados na Europa, incluindo agora em Portugal”, afirma.
As restrições como acelerador tecnológico e o risco das empresas ficarem para trás
É frequentemente em períodos de adversidade que surgem alguns dos maiores avanços tecnológicos da humanidade. A Segunda Guerra Mundial acelerou o desenvolvimento de tecnologias como o radar, os computadores eletrónicos e a energia nuclear. Mais tarde, em plena Guerra Fria, nasceu a ARPANET, a rede que viria a dar origem à internet. Para muitos, o atual contexto geopolítico poderá voltar a funcionar como um catalisador para a inovação na Europa.
Carlos Carvalho concorda com essa perspetiva, mas deixa um alerta: “É preciso perceber uma coisa: não vamos resolver em dois ou três anos um problema que se arrasta há décadas. É uma ilusão achar que vamos recuperar todo o tempo perdido de um momento para o outro, quase por decreto. Isso será impossível”, reitera.
O responsável sublinha que, além do tempo necessário para construir um ecossistema competitivo, persistem obstáculos estruturais, nomeadamente no acesso ao financiamento. “As empresas continuam a ter muita dificuldade em encontrar financiamento. Ainda é muito mais fácil escalar um negócio do outro lado do Atlântico, ou até na Ásia, do que na Europa. Enquanto não resolvermos esse problema, será muito complicado”, reforça.
Se, por um lado, as restrições impostas pelos Estados Unidos podem servir de catalisador para o desenvolvimento de tecnologia europeia, por outro também correm o risco de aumentar o fosso competitivo entre empresas dos dois lados do Atlântico. David Grave defende que a Europa “tem de acordar” e assumir uma posição de liderança tecnológica. “A Europa tem o seu espaço, tem a sua voz e precisa de ter também capacidade tecnológica para moldar o caminho que esta tecnologia deve seguir”, afirma.
Se não investirmos agora, o fosso tecnológico só vai aumentar. A Europa precisa de uma estratégia de inovação e de tecnologia de médio e longo prazo, com uma visão unificada que não mude de quatro em quatro anos.
Na sua perspetiva, limitar o acesso das empresas europeias aos modelos de IA mais avançados pode criar “assimetrias tecnológicas propositadas”, colocando-as em desvantagem face aos concorrentes norte-americanos. “No limite, estamos a falar de uma questão de competitividade económica”, alerta, lembrando que desenvolver modelos equivalentes exige anos de investimento e desenvolvimento.

Ainda assim, o responsável da Claranet Portugal considera que a única forma de reduzir esse atraso é começar já. “Se não investirmos agora, o fosso tecnológico só vai aumentar. A Europa precisa de uma estratégia de inovação e de tecnologia de médio e longo prazo, com uma visão unificada que não mude de quatro em quatro anos”, conclui.
Bruxelas não tem relevância tecnológica?
O debate sobre a soberania tecnológica ganhou uma nova dimensão na semana passada, quando o CEO da OpenAI, Sam Altman, defendeu, num artigo de opinião publicado no Financial Times, a criação de um fórum internacional liderado pelos Estados Unidos para definir normas de segurança da inteligência artificial e coordenar o acesso aos modelos mais avançados.
Não adianta a Comissão Europeia dizer que precisamos de desenvolvimento tecnológico se, depois, não cria condições para que quem sabe desenvolver tecnologia o possa fazer. Por vezes, é melhor estarem calados.
Embora defenda que os benefícios da tecnologia devem ser amplamente partilhados, Altman atribui a Washington um papel central na definição das regras do jogo. A proposta reacendeu a questão sobre a força da Europa. Para Carlos Carvalho, a resposta passa menos por discutir quem lidera e mais por perceber porque é que a Europa não conseguiu criar as condições necessárias para competir ao mais alto nível. “Isto tem de ser verdadeiramente entendido por quem governa a Europa, nomeadamente pelos países mais fortes economicamente”, afirma.
“A inovação não se acelera por decreto, acelera-se com mecanismos e políticas. Não adianta a Comissão Europeia dizer que precisamos de desenvolvimento tecnológico se, depois, não cria condições para que quem sabe desenvolver tecnologia o possa fazer. Por vezes, é melhor estarem calados”, finaliza o CEO da Adyta.
Apesar do atraso face aos Estados Unidos e à China, Bruxelas procura recuperar terreno. Em junho, a Comissão Europeia anunciou que escolheu o consórcio EUROPA para desenvolver um grande modelo de inteligência artificial em código aberto para toda a União Europeia. Com 400 mil milhões de parâmetros e capacidade para responder nas 24 línguas oficiais do bloco estratégico, o modelo pretende reforçar a autonomia tecnológica europeia e demonstrar que a Europa ainda quer e tem capacidade para disputar a liderança global da IA.
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A Europa perdeu a soberania tecnológica? “Passámos anos a acelerar os EUA e a China”
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