Presidente do DIW Berlin prevê que pico da inflação só será atingido no início do próximo ano. Alerta para "excessiva" dependência da China e dos EUA e pede união para reforço da posição europeia.
Marcel Fratzscher, presidente do German Institute for Economic Research, conhecido por DIW Berlin, alerta para a dependência da China e dos Estados Unidos e diz que a prioridade da Europa deve ser investir nas pessoas, na inovação e numa política energética comum, mas considera que os governos continuam a privilegiar os interesses nacionais em detrimento de uma posição comum.
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Em entrevista ao ECO à margem do Fórum do Banco Central Europeu (BCE), em Sintra, o economista que lidera um dos mais conceituados think-tanks dedicados à economia, revela apreensão com subida dos preços dos alimentos e acredita que a economia alemã vai recuperar, mas admite que são necessárias reformas, para as quais o governo e as empresas não estão preparados. O antigo quadro dirigente do Banco Central Europeu critica ainda as decisões do presidente norte-americano, Donald Trump, apelando à defesa do comércio mundial e do multilateralismo.
Como avalia a resiliência europeia ao choque económico provocado pela guerra no Médio Oriente?
A resiliência da Europa foi melhor do que se temia, pelo que a desaceleração económica não foi tão forte quanto receávamos. A inflação também não acelerou tanto, pelo menos em comparação com 2022. Essa é, naturalmente, uma comparação a fazer. Em parte, houve boa sorte. Esta situação foi gerível porque tínhamos bons níveis de armazenamento e reservas. Os decisores políticos também responderam de forma responsável, o que é positivo. Mas, ao mesmo tempo, temos de reconhecer que a Europa é mais vulnerável do que a maioria das outras regiões, mais vulnerável do que os Estados Unidos, porque dependemos muito dos combustíveis fósseis. Não conseguimos fazer a transição com a rapidez necessária. De um modo geral, penso que a situação não é tão má como parece, mas continua a ser um problema muito sério.
E qual é a sua perspetiva para os preços na Zona Euro? Acha que a inflação vai desacelerar ou que as famílias e as empresas devem preparar-se para custos energéticos elevados nos próximos anos?
Prevemos que a inflação aumente para perto de 3% este ano. Talvez o pico só seja atingido no início do próximo ano. Portanto, isto ainda não ficou para trás. Os preços continuarão a subir e a minha maior preocupação com os cidadãos está relacionada com o aumento dos preços dos alimentos. Os preços dos alimentos reagem com atraso ao aumento dos custos da energia, sendo os fertilizantes um bom exemplo. É preciso fertilizante para produzir alimentos e só depois vem a colheita. Diria que as pessoas terão também de se preparar para preços mais elevados dos alimentos. Nesse sentido, continuaremos a pagar o preço desta situação no próximo ano, sob a forma de preços mais elevados e, consequentemente, de menor poder de compra. Os salários não estão a aumentar mais rapidamente por causa disto, pelo que o rendimento disponível para consumo será menor. Este é um problema essencialmente social, porque os preços mais elevados dos alimentos e da energia afetam muito mais as pessoas com baixos rendimentos do que aquelas com rendimentos mais elevados. É uma preocupação em relação à qual gostaria de ver como resposta os governos a apoiar de forma mais direcionada as pessoas com baixos rendimentos.
Talvez o pico só seja atingido no início do próximo ano. Portanto, isto ainda não ficou para trás. Os preços continuarão a subir e a minha maior preocupação com os cidadãos está relacionada com o aumento dos preços dos alimentos.
Essa é também a recomendação de várias instituições.
Penso que isto é algo em que todos os governos da Europa deveriam concentrar-se mais, e é precisamente aqui que faço uma crítica. Isto não está a ser feito da melhor forma.
Por outro lado, o conflito com o Irão alterou a forma como a Europa deve pensar a segurança económica?
A guerra com o Irão não nos trouxe nada de novo e que já não soubéssemos. Com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, a Europa deveria ter agido mais rapidamente para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. Não apenas deixando de importar gás e petróleo da Rússia, mas tornando-se menos dependente dos combustíveis fósseis em geral. Nesse aspeto, precisamos de melhorar muito, em toda a Europa e em cada país, para cumprir os objetivos definidos para 2030. Isto significa acelerar significativamente a expansão das energias renováveis, em especial a energia eólica e solar. Precisamos de investir mais em infraestruturas energéticas e de adotar uma estratégia mais europeia, em que nos ajudemos mutuamente através de uma política energética comum. Nesse sentido, uma guerra é sempre terrível, mas espero que agora, finalmente, os políticos e também as empresas levem estas lições mais a sério e as implementem de forma mais rápida.

E os cidadãos estão conscientes da necessidade de mudar a forma como a Europa se posiciona perante a fragmentação geopolítica?
Assistimos a uma escalada dos problemas geoeconómicos com Trump, com as tarifas e com a China a tornar-se cada vez mais assertiva e a praticar uma concorrência cada vez mais desleal. Nesse sentido, já temos um plano de ação. Temos o relatório Draghi, temos o relatório Letta. Sabemos o que é preciso fazer. Mas vejo com muita preocupação, também como alemão que vive em Berlim e observa o Governo alemão, que os governos europeus precisam de se envolver muito mais no projeto europeu e não afastarem-se dele. Isto aplica-se à política de defesa, à política energética, como já discutimos, à política industrial comum para responder à China e aos Estados Unidos, bem como à inteligência artificial (IA) e à tecnologia. A Europa está complacente e a responsabilidade por isso não é de Bruxelas. A responsabilidade é de Berlim, Paris, Lisboa, Madrid e das restantes capitais nacionais.
A Europa está complacente e a responsabilidade por isso não é de Bruxelas. A responsabilidade é de Berlim, Paris, Lisboa, Madrid e das restantes capitais nacionais.
Portanto, não considera que os governos estejam mais preparados para agir?
Gostaria de estar otimista, mas neste ponto estou cético. Penso que estamos a assistir precisamente ao contrário. Também nesta crise, a maioria dos governos atua mais em função dos interesses nacionais do que dos interesses europeus. Temo que a situação tenha de piorar ainda mais na Europa antes de mudarmos de atitude.
A longo prazo, a Europa enfrenta uma combinação sem precedentes de desafios: crescimento mais fraco, ameaças geopolíticas, aumento da despesa com defesa, envelhecimento demográfico e a corrida pela liderança tecnológica. Qual destes considera ser o principal desafio para a competitividade europeia a longo prazo?
A questão mais importante, o maior desafio, são as pessoas. O mais importante para a Europa é formar os jovens, dar-lhes uma boa educação e tornar a Europa mais atrativa para a migração, porque, devido à evolução demográfica, temos uma população em declínio. Vemos cada vez mais jovens a emigrar, também para os Estados Unidos e para outras partes do mundo. Precisamos de fazer muito mais em termos de justiça intergeracional para com a geração mais jovem. Estamos a deixá-los sozinhos, não apenas no que diz respeito ao clima e à energia. Temos uma guerra na Europa, temos um aumento da dívida pública que recai sobre os ombros das gerações mais jovens e existem muitos outros desafios. Por isso, a prioridade número um, para mim, é investir nas pessoas na Europa.
Em segundo lugar, diria que a tecnologia, e em particular a IA, é um desafio ainda mais urgente do que o clima. Tem enormes oportunidades, mas também enormes riscos. Neste momento, os riscos predominam, porque estamos a deixar essa tecnologia nas mãos de um número muito reduzido de indivíduos extremamente ricos, que acabam por determinar as nossas vidas com isso. Este é, para mim, o segundo maior desafio. E o terceiro é, naturalmente, proteger o clima e o ambiente, porque sem isso enfrentaremos enormes dificuldades.
A tecnologia, e em particular a IA, é um desafio ainda mais urgente do que o clima. Neste momento, os riscos predominam, porque estamos a deixar essa tecnologia nas mãos de um número muito reduzido de indivíduos extremamente ricos, que acabam por determinar as nossas vidas com isso.
Em relação à competitividade, considera que a Europa investe pouco ou com demasiada lentidão?
Temos pessoas inteligentes, somos bons em inovação. O problema é que não somos suficientemente bons na implementação e na difusão dessa inovação. É aí que está o verdadeiro desafio. Precisamos de aproveitar muito melhor as nossas competências, o talento das nossas pessoas e a qualidade das nossas empresas. Isto remete para o meu primeiro ponto sobre produtividade e capital humano. É aí que precisamos de melhorar. Estou com esperança de que, se criarmos melhores condições para os jovens empreendedores, conseguiremos fazê-lo.
Falemos agora da Alemanha, que é tradicionalmente o motor económico da Europa, mas cuja economia tem estagnado. O modelo económico alemão atingiu o seu limite? Ou, como é que olha para o atual contexto?
O modelo económico da Alemanha continua a ser o melhor modelo económico possível para a Alemanha e para qualquer país europeu. Esse modelo baseia-se na abertura. No comércio com o resto do mundo, na diversificação dos riscos, na diversificação das origens dos produtos que importamos e dos mercados para onde exportamos. A Europa, como região, e a Alemanha, como país, estão entre as economias mais ricas do mundo. Ao investir noutras partes do mundo — China, Índia, resto da Ásia, África e América Latina — podemos participar em taxas de crescimento muito mais elevadas nessas regiões. Creio que o modelo económico continua a ser o adequado. O que precisamos é de reduzir a assimetria das dependências. Tornámo-nos demasiado dependentes de países como a China e os Estados Unidos. E esses países estão agora a abusar do poder que essa assimetria lhes confere e a chantagear-nos.
O que precisamos é de reduzir a assimetria das dependências. Tornámo-nos demasiado dependentes de países como a China e os Estados Unidos. E esses países estão agora a abusar do poder que essa assimetria lhes confere e a chantagear-nos.
Como é que se pode mudar isso?
Através da diversificação. Depender menos da China e dos Estados Unidos. Redirecionar a nossa dependência para a Índia, a Indonésia, outras partes da Ásia, África e América Latina. Esse é o primeiro ponto. Em segundo lugar, devemos concentrar-nos nos nossos pontos fortes e nas nossas posições estratégicas. Temos empresas fortes e produtos de que outras regiões e países do mundo necessitam. Precisamos de utilizar essas vantagens para nos protegermos e garantir a nossa segurança económica. E precisamos de multilateralismo, de reforçar as regras globais, o princípio da não discriminação. Precisamos de revitalizar as instituições multilaterais internacionais que Trump tem vindo a enfraquecer e não devemos permitir que continue a fazê-lo.

O Governo alemão anunciou um forte aumento do investimento público. Como é que avalia essa decisão? A Alemanha pode recuperar sem reformas?
A Alemanha, tal como qualquer outro país — Portugal incluído –, passou por períodos difíceis e, repetidamente, mostrou que consegue recuperar e fazer melhor. Por isso, a Alemanha vai recuperar. Numa democracia, muitas vezes é necessária uma crise profunda para que os governos implementem mudanças que são dolorosas e, infelizmente, ainda não chegámos a esse ponto na Alemanha. Precisamos de reformas difíceis, mas os políticos, as empresas e os cidadãos ainda não estão preparados para elas. Penso que teremos de ter um pouco mais de paciência.
Numa democracia, muitas vezes é necessária uma crise profunda para que os governos implementem mudanças que são dolorosas e, infelizmente, ainda não chegámos a esse ponto na Alemanha. Precisamos de reformas difíceis, mas os políticos, as empresas e os cidadãos ainda não estão preparados para elas.
Qual é a sua principal mensagem aos decisores políticos europeus para promoverem a recuperação da posição europeia mundial?
A primeira é reforçar a Europa. Sem uma Europa mais forte, não teremos qualquer hipótese de nos protegermos perante a China e os Estados Unidos. Mesmo países que se consideram grandes, como a Alemanha, precisam de perceber que não são grandes quando comparados com os Estados Unidos ou a China e que todos precisamos de uma Europa forte. Esse é, para mim, o primeiro passo. O segundo é investir muito mais em capital humano, inovação e educação de qualidade. Essa é outra grande lição. E precisamos de enfrentar os desafios demográficos, as alterações demográficas e a sustentabilidade da Segurança Social. Este é também um dos grandes riscos que temos de enfrentar. Estes são três dos muitos desafios que temos pela frente.
E até que ponto está preocupado com o impacto que as decisões de Trump podem provocar no comércio mundial e na economia global?
Trump já provocou muitos danos ao comércio mundial e ao multilateralismo, ou seja, à existência de uma abordagem comum, de regras comuns e de normas partilhadas. Não devemos permitir que continue a fazê-lo. Devemos formar coligações com outros países a nível mundial. Espero que, dessa forma, consigamos reduzir, pelo menos em parte, os custos dos estragos que tem vindo a provocar.
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