EUA ‘agarram’ iene para proteger a sua própria dívida
O iene afundou para mínimos de 40 anos e obrigou os EUA a entrar em cena. Ao ajudar o Japão, Washington tenta sobretudo proteger as suas obrigações, que já se encontram altamente pressionadas.
- Os EUA e o Japão realizaram uma intervenção conjunta no mercado cambial para estabilizar o iene, que atingiu mínimos históricos face ao dólar.
- A operação envolveu a compra de ienes no valor superior a 50 mil milhões de euros, ajudando a moeda japonesa a recuperar cerca de 5%.
- A intervenção sinaliza a disposição de ambos os países para atuar em conjunto, mas a vulnerabilidade do iene persiste sem mudanças estruturais na política monetária japonesa.
Numa rara incursão direta no mercado cambial, os EUA juntaram-se ao Japão para travar a queda do iene, que vinha a afundar para mínimos de quase 40 anos face ao dólar.
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À primeira vista, trata‑se de mais uma operação técnica para segurar uma taxa de câmbio, mas o envolvimento de Washington mostra que está muito mais em jogo do que o valor de uma moeda asiática. Está em causa a estabilidade dos mercados de dívida pública norte‑americanos e, por arrasto, de todo o sistema financeiro global.
O Ministério das Finanças japonês confirmou que, em coordenação com o Departamento do Tesouro dos EUA, realizou na última semana uma intervenção conjunta de compra de iene, num montante que poderá ter ultrapassado os 50 mil milhões de euros.
A operação ajudou a tirar a moeda japonesa do fosso dos 164 ienes por dólar, o nível mais baixo em quatro décadas, para a zona dos 156–157 ienes, recuperando cerca de 5% mas apenas até níveis semelhantes aos de maio — um efeito modesto face a intervenções passadas.
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Para o Japão, o problema não é apenas financeiro. Um iene fraco encarece importações de energia, alimentos e bens intermédios, alimentando a inflação e pressionando os orçamentos das famílias. O próprio Banco do Japão manteve, na semana passada, inalterada a taxa diretora em 1%, mas já admitiu que a inflação subjacente pode ultrapassar a meta de 2% a partir de setembro.
A entrada dos EUA em cena não se explica apenas pela vontade de apoiar um aliado estratégico na Ásia, mas por o Japão ser o maior detentor estrangeiro de dívida pública norte‑americana, com uma carteira superior a 1,1 biliões de dólares em Treasuries, o que faz de Tóquio um credor-chave de Washington.
Num cenário de intervenções unilaterais de grande escala, o Governo japonês poderia ser forçado a vender parte significativa desses títulos para financiar compras de iene, empurrando ainda mais para cima as taxas de juro de longo prazo dos EUA, já em níveis historicamente elevados.
As Treasuries a 30 anos, por exemplo, encontram-se a negociar com uma yield acima dos 5,22% depois de na sexta-feira terem renovado máximos de 19 anos, ao transacionarem acima dos 5,26%.
Os EUA e o Japão mostram que estão dispostos a atuar em conjunto sempre que o câmbio se aproxima de níveis considerados “desordenados”.
Para Washington, evitar esse choque adicional num mercado obrigacionista sensível é uma forma de autopreservação, dado que uma subida brusca das yields americanas tende a contagiar os mercados de dívida globais, incluindo os europeus. É aqui que ganha relevância uma ferramenta pouco conhecida fora dos círculos financeiros: a facilidade FIMA repo da Reserva Federal norte-americana (Fed).
Este mecanismo permite que bancos centrais estrangeiros, como o Japão, obtenham liquidez temporária em dólares através de operações de recompra com Treasuries como colateral. Na prática, os bancos centrais cedem esses títulos à Fed com o compromisso de os recomprar mais tarde, em vez de os venderem no mercado.
Com o Ministério das Finanças japonês a sublinhar publicamente o recurso a esta linha de financiamento, Tóquio e Washington procuram sinalizar que têm “munição” para continuar a intervir sem desestabilizar o mercado de dívida norte‑americano, ainda que o montante que pode ser mobilizado esteja, na prática, limitado pelo valor das obrigações que podem ser dadas como garantia.
Mesmo assim, a história mostra que as intervenções cambiais, por si só, não resolvem os fatores estruturais que pressionam as moedas, como se está a passar com o iene.
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A diferença das taxas de juro entre o Japão e os EUA continua a ser muito ampla: a taxa diretora japonesa está em 1%, enquanto a Fed mantém o intervalo das Fed Funds entre 3,50% e 3,75%, o que mantém o dólar mais atrativo para os investidores internacionais.
Por outro lado, a valorização súbita do iene e o envolvimento de Washington aumentam o custo e o risco de manter posições especulativas contra a moeda japonesa, já que uma nova intervenção coordenada pode surpreender o mercado e provocar perdas rápidas em quem está “vendido” no iene.
O resultado desta operação conjunta de Tóquio e Washington é, por agora, sobretudo um sinal político e financeiro. Os EUA e o Japão mostram que estão dispostos a atuar em conjunto sempre que o câmbio se aproxima de níveis considerados “desordenados”, e que querem evitar que a defesa do iene se traduza em vendas em massa de dívida norte‑americana.
Para Estados muito endividados, como Portugal, e para empresas expostas ao custo de financiamento global, o desfecho desta operação é de grande importância. Uma intervenção bem-sucedida pode limitar a pressão ascendente nas taxas de juro, mas sem uma mudança mais profunda na política monetária japonesa e sem menor pressão vinda do preço da energia, o iene continuará vulnerável.
E isso significa que as próximas semanas poderão trazer novos capítulos neste braço‑de‑ferro entre governos e mercados, com impactos que vão muito além do gráfico do USD/JPY.
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