BRANDS' ECO Os milhões da reciclagem de embalagens: onde está o investimento e porque é que os resultados ainda não acompanham
O sistema de reciclagem de embalagens em Portugal tem hoje mais financiamento do que nunca. Mas porque é que os resultados ainda não acompanham o investimento?
O sistema de gestão de resíduos de embalagens, em Portugal, tem registado um crescimento considerável do investimento nos últimos anos. Parte significativa destes milhões flui das entidades gestoras, como a Sociedade Ponto Verde (SPV), para os Sistemas de Gestão de Resíduos Urbanos (SGRUs), responsáveis pela recolha seletiva e tratamento dos resíduos nos diferentes territórios. Ainda assim, apesar do reforço financeiro e da pressão europeia para acelerar a transição para uma economia mais circular, os resultados continuam aquém das expectativas.
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Vamos aos números. O gráfico seguinte mostra uma trajetória de crescimento consistente dos valores de contrapartida (VC) ao longo dos últimos anos, com uma aceleração particularmente expressiva a partir de 2024. Nesse ano, o valor total ascendeu a 122 milhões de euros, aumentando para 212 milhões de euros em 2025, o que representa um crescimento de cerca de 74%. Para 2026, estima-se uma nova subida para 237 milhões de euros, correspondendo a um aumento adicional de aproximadamente 12%.

É essencial explicar o papel das várias entidades que fazem parte do sistema de resíduos de embalagens. A Sociedade Ponto Verde é a entidade gestora responsável por cerca de 80% da quota de mercado, representa milhares de empresas embaladoras e assegura o financiamento do sistema através dos valores pagos pelos seus clientes.
Esse financiamento é recebido pelos Sistemas de Gestão de Resíduos Urbanos (SGRUs), responsáveis pela recolha seletiva e tratamento dos resíduos nos diferentes territórios. Ou seja, a SPV financia o sistema, mas a operação da recolha seletiva acontece através das entidades municipais e concessionárias.
No entanto, apesar do esforço e do robusto investimento, os resultados continuam aquém das expectativas.
No primeiro semestre de 2026, as embalagens enviadas para reciclagem registaram um crescimento de apenas 1%, com 233.065 toneladas recolhidas através dos ecopontos, mais 2.071 toneladas do que no período homólogo. Apesar da evolução positiva, este ritmo continua insuficiente para que Portugal cumpra as metas europeias de reciclagem de embalagens.
Atualmente, Portugal tem como objetivo reciclar 65% das embalagens colocadas no mercado, mas, em 2025, registou uma taxa de retoma de 60,5%, ficando abaixo da meta europeia e entrando em incumprimento.
O sistema dispõe hoje de mais recursos para reforçar a recolha seletiva, modernizar infraestruturas e melhorar o serviço prestado aos cidadãos. No entanto, esse reforço do investimento ainda não se traduziu numa melhoria proporcional dos resultados, o que coloca a eficácia da aplicação desses recursos no centro da discussão.
O vidro, por exemplo, um dos materiais com especial importância no sistema, cresceu apenas 1%, continuando a colocar em causa o cumprimento da respetiva meta de reciclagem.
A inovação como peça central
A inovação tem sido uma excelente aliada para responder aos desafios atuais. Desde 1996, a Sociedade Ponto Verde investiu 19,4 milhões de euros em projetos de investigação, desenvolvimento e inovação, envolvendo mais de 120 projetos e mais de 150 entidades. O objetivo tem sido testar novas soluções tecnológicas, melhorar a eficiência operacional e desenvolver ferramentas capazes de aumentar a qualidade da recolha, triagem e reciclagem de embalagens.

Os desafios passam hoje por várias frentes. Por um lado, é necessário aumentar a capacidade e modernizar as infraestruturas de triagem, reduzindo as perdas de materiais que ainda ocorrem ao longo do processo. Por outro, a digitalização do sistema e uma maior rastreabilidade dos fluxos de resíduos de embalagens poderão contribuir para uma monitorização mais eficaz e para uma melhor tomada de decisão. A aposta em novas tecnologias aplicadas à recolha, triagem e tratamento surge também como uma das vias apontadas para aumentar a eficiência operacional e melhorar os resultados.
Durante vários anos, Portugal foi uma referência no cumprimento das metas europeias de reciclagem de embalagens. No entanto, os resultados mais recentes revelam sinais de desaceleração, sobretudo em materiais como o vidro, levantando preocupações sobre a capacidade de manter o desempenho alcançado no passado e reforçando a necessidade de acelerar a modernização do sistema.
Mas nem tudo é negativo. Nas últimas décadas, foram recicladas mais de 11 milhões de toneladas de resíduos de embalagens, foi criada uma rede nacional com mais de 70 mil ecopontos e mais de 70% das famílias portuguesas participam atualmente na separação dos resíduos.
Neste enquadramento, o foco do sistema tem vindo a evoluir no sentido de reforçar a ligação entre investimento e resultados operacionais, aumentar a transparência e a rastreabilidade dos fluxos, promover a modernização dos sistemas de recolha e tratamento e melhorar a capacidade de monitorização e avaliação de desempenho.
O verdadeiro desafio passa agora por transformar investimento em impacto real.
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