Seguro quer mais alianças empresariais entre Portugal e Cabo Verde e aponta quatro desafios

O Presidente da República defende que os dois países devem passar “das trocas comerciais para parcerias estratégicas” e identifica quatro prioridades para o aprofundamento das relações económicas.

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  • O Presidente da República apelou à intensificação da cooperação económica entre Portugal e Cabo Verde, promovendo parcerias estratégicas em vez de meras trocas comerciais.
  • O comércio bilateral entre os dois países aproximou-se de mil milhões de euros em 2025, com Portugal a ser o principal fornecedor e investidor em Cabo Verde, destacando a necessidade de diversificação económica.
  • A transformação da relação económica em parcerias estratégicas poderá resultar em melhores condições de vida e oportunidades de emprego, com foco na inovação e na sustentabilidade.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

O Presidente da República, António José Seguro, desafiou esta quarta-feira empresas portuguesas e cabo-verdianas a aprofundarem a cooperação económica e a criarem mais parcerias estratégicas, defendendo que a relação bilateral deve evoluir do comércio para o investimento produtivo. Na abertura do Fórum Económico Cabo Verde–Portugal, o chefe de Estado português enumerou quatro desafios prioritários para fortalecer os laços económicos entre os dois países: executar os instrumentos financeiros já criados, diversificar a economia cabo-verdiana, apostar na energia e na água e desenvolver inovação em conjunto.

“Precisamos de passar das trocas comerciais para parcerias estratégicas. De transformar comércio em investimento produtivo”, afirmou Seguro, recordando que o comércio bilateral de bens e serviços se aproximou dos mil milhões de euros em 2025 e que Portugal continua a ser o principal fornecedor de Cabo Verde e um dos principais investidores estrangeiros no arquipélago.

O primeiro dos quatro desafios identificados pelo chefe de Estado passa pela execução dos mecanismos financeiros e dos acordos alcançados entre os dois países na VII Cimeira Bilateral, realizada em Lisboa, em janeiro de 2025. Entre esses instrumentos, António José Seguro destacou a linha de crédito de até 100 milhões de euros destinada a apoiar projetos empresariais e o mecanismo de conversão de dívida em investimento climático, avaliado em 42,5 milhões de euros. Este último mecanismo permitirá a participação de Portugal no Fundo Climático e Ambiental criado por Cabo Verde e, segundo Seguro, conjuga dois objetivos: reduzir o peso da dívida externa cabo-verdiana e promover investimentos estruturantes nas áreas ambiental e climática.

“Esses instrumentos têm de chegar às empresas e transformar-se em projetos, emprego, exportações e melhores condições de vida”, afirmou.

O Presidente destacou como exemplo o reforço da Central Fotovoltaica do Palmarejo, que já está em execução, considerando que o projeto demonstra como o mecanismo de conversão de dívida “pode passar do acordo à obra”. Referiu ainda um segundo investimento destinado a abastecer, através de energia solar, estações elevatórias e furos de captação de água na ilha de Santiago.

“O passo decisivo é agora concluir os procedimentos de contratação e avançar para a execução, transformando o financiamento em água mais acessível, energia mais limpa e resultados mensuráveis”, acrescentou.

O segundo desafio consiste na diversificação da economia cabo-verdiana. Embora tenha reconhecido que o turismo continuará a ser “um pilar essencial” e um destino privilegiado do investimento português, o chefe de Estado defendeu uma estratégia mais abrangente, capaz de impulsionar outros setores da economia. “Temos de ser mais ambiciosos. Cada novo empreendimento deve criar oportunidades para o desenvolvimento de outros setores: a agricultura, as pescas, a indústria alimentar, a cultura, os transportes e os serviços digitais”, afirmou.

Para António José Seguro, o turismo não pode funcionar isoladamente do resto da economia. “O turismo deve ser uma plataforma para a economia local, não uma atividade desligada dela”, sustentou. Neste contexto, o Presidente atribuiu especial importância à melhoria das ligações marítimas e aéreas entre as ilhas do arquipélago. “Num arquipélago, o transporte marítimo e aéreo não é apenas mais um setor. É a infraestrutura do mercado nacional, da coesão territorial e da igualdade de oportunidades”, afirmou.

Segundo Seguro, o investimento em transportes, portos, cadeias de frio e logística deverá traduzir-se em “melhor serviço, custos mais baixos e maior participação de todas as ilhas no crescimento”. “Não pretendemos apenas mais investimento português. Queremos melhor investimento: mais diversificado, mais sustentável e com maior participação da economia cabo-verdiana”, acrescentou.

A terceira prioridade estratégica identificada pelo chefe de Estado está relacionada com a energia e a água, que classificou como condições essenciais para o crescimento económico e para a soberania do arquipélago. “Sem água não haverá agricultura moderna, segurança alimentar ou turismo sustentável. Sem energia fiável e competitiva não haverá indústria, serviços digitais ou novo investimento”, afirmou.

Seguro garantiu que Portugal está disponível para colocar ao serviço de Cabo Verde a experiência acumulada nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira em áreas como as energias renováveis, o armazenamento energético, a dessalinização e a reutilização da água. “Água e energia não são apenas políticas ambientais”, sublinhou, defendendo que estes setores devem ser encarados como infraestruturas económicas fundamentais.

O quarto desafio passa pela inovação tecnológica e pela criação de conhecimento em conjunto. O Presidente da República destacou o desenvolvimento do TechPark cabo-verdiano, dos centros de dados e da governação digital, considerando que existem condições para aprofundar a cooperação empresarial nos domínios do software, da cibersegurança, da formação e dos serviços tecnológicos. “A nossa ambição não deve ser apenas levar tecnologia portuguesa a Cabo Verde. A nossa ambição é desenvolver tecnologia com Cabo Verde”, afirmou.

Para concretizar esse objetivo, Seguro defendeu o reforço da formação, o apoio às empresas e startups e a criação de soluções tecnológicas exportáveis para outros mercados africanos e europeus. “Formar talento. Apoiar empresas e startups a ganhar escala. Produzir soluções exportáveis para outros mercados africanos e para a Europa”, enumerou. Neste domínio, insistiu, “as parcerias entre empresas dos dois países são essenciais”.

Ao longo da intervenção, António José Seguro voltou repetidamente à necessidade de transformar a relação económica bilateral numa verdadeira parceria estratégica. Defendeu a criação de uma “plataforma atlântica de dois sentidos”, capaz de aproximar as empresas portuguesas da África Ocidental e de abrir às empresas cabo-verdianas as portas do mercado europeu.

“Queremos mais parcerias entre empresas portuguesas e cabo-verdianas. Mais fornecedores locais. Mais transferência de conhecimento. Mais participação de capital cabo-verdiano. E mais empresas de Cabo Verde a investir e a crescer em Portugal”, afirmou.

O chefe de Estado defendeu ainda uma maior mobilização da diáspora cabo-verdiana e portuguesa, não apenas como fonte de remessas financeiras, mas também como veículo de capital, conhecimento e redes empresariais.

Além disso, apontou para dois eventos internacionais previstos para os próximos meses como oportunidades para aprofundar a cooperação económica entre os dois países: a Conferência da Década do Oceano, que decorre esta semana na ilha da Boa Vista, e a realização, em dezembro, da primeira edição africana da Web Summit. “Portugal quer ser parceiro desta ambição”, garantiu.

Na reta final do discurso, Seguro insistiu que o investimento exige “previsibilidade, estabilidade, transparência e decisões em tempo útil”, bem como melhores condições de financiamento para as pequenas e médias empresas. “A boa regulação é também uma infraestrutura económica: cria confiança, protege os consumidores e dá segurança a quem investe”, afirmou, destacando a cooperação entre os reguladores portugueses e cabo-verdianos nos setores da água, energia, transportes e comunicações.

“O sucesso desta nova etapa não será medido pelo número de declarações assinadas. Será medido pelos resultados dos projetos executados, pelas empresas criadas, pelos empregos qualificados, pelas exportações geradas e pela melhoria concreta da vida das pessoas”, defendeu.

“Portugal não olha para Cabo Verde apenas como um mercado. Olha para Cabo Verde como um parceiro estratégico, com quem quer produzir, inovar, investir e competir. Projeto a projeto”, concluiu.

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