Romão Braz: “Eu acho que é muito difícil ser empresário em Portugal”
Ainda na juventude, sentia o coração dividido entre a matemática e a gestão de empresas. Acabou por seguir gestão industrial e, hoje, é CEO do Grupo Finançor. Conheça aqui a história de Romão Braz.
Romão Braz, CEO do Grupo Finançor, é o 87º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Nasceu nos Açores e admite sempre ter sentido muito orgulho da sua “ilha natal”. No entanto, à semelhança do resto dos jovens açorianos, decidiu voar para Lisboa à procura de um futuro melhor e com mais oportunidades. Na altura, tinha escolhido o curso de Gestão Industrial, do Instituto Superior Técnico, por ser aquele que juntava as suas duas grandes paixões – matemática e gestão empresarial -, mas nunca imaginou que seria a gestão de empresas que iria definir todo o seu percurso profissional.
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“A ideia inicial era ficar em Lisboa por pensar que podia fazer um percurso cá, mas isso não durou muito tempo. Quando estava no quarto ano do Técnico, as empresas iam lá fazer visitas e aqui entra a Procter & Gamble. Eles iam escolher 12 estudantes de todo o país para passarem três dias na empresa para conhecer os departamentos e depois apresentar um caso ao top management. Preenchi o questionário e convidaram-me para ser um desses 12 a fazer o tal curso de gestão de empresas”, começou por dizer.
Terminado esse curso de três dias, recebeu uma proposta para fazer um estágio de Verão. Mas, ao contrário do que perspetivava, a experiência seria na área comercial e do marketing e não na parte financeira: “Eu disse que gostava de ir para a área financeira, mas o diretor comercial disse-me que eu tinha de ir para a área comercial, e o diretor de marketing disse-me que eu era uma pessoa do marketing. Fiquei dividido e eles acabaram por arranjar uma solução – um estágio que abrangia a área de marketing e a área comercial”.
Quando o estágio terminou, Romão Braz voltou a ser surpreendido por um convite da Procter & Gamble, desta vez para ficar a trabalhar na empresa quando terminasse o curso. “Fiquei felicíssimo e aceitei. E aceitei logo para a área comercial porque, da experiência que tinha tido, e tendo em conta a interação com as equipas dentro da empresa, fiquei com o bichinho da área comercial. E acabei por ficar na Procter & Gamble cerca de dois anos“, contou.
No entanto, a carreira na Procter & Gamble acabou por ser interrompida por um convite feito pelo próprio pai e um sócio, que já detinham parte do Grupo Finançor naquela altura, e queriam ajuda de alguém com experiência comercial para escalar a empresa: “O Grupo Finançor já existia, mas chamava-se Sociedade Financeira de Investimentos e Estudos Assessores, Finançor S.A., e era controlado por duas famílias – a minha família e a família do senhor Humberto de Novaes, que era o proprietário dos laticínios Vigor, que posteriormente foram vendidos à Lactogal. Acabei por ser desafiado pelos dois, que me disseram que gostavam que eu fosse para diretor comercial para os ajudar a dinamizar“.
Assim sendo, regressou aos Açores no ano 2000, mas confessa que foi um “choque enorme”, principalmente pela diferença nas práticas de gestão. “Eu vim daqueles cerca de dois anos na Procter & Gamble habituado a práticas de gestão com tecnologia, com soluções de todo o tipo, e tive um embate grande quando cheguei. Mas, por outro lado, pensei logo que era ótimo porque tinha muito para fazer. E assim foi. Pus mãos à obra, primeiro na área comercial, e depois comecei a intrometer-me em mais áreas. Comecei a trabalhar em janeiro do ano 2000 e, em setembro de 2001, passei a ser administrador da empresa“, disse.
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Romão Braz, CEO do Grupo Finançor, no 86º episódio do podcast "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO -
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Além de estar relacionado a práticas agroalimentares, o Grupo Finançor aposta, também, no setor do turismo. E, apesar de parecerem áreas distintas, Romão Braz garante que faz todo o sentido investir em ambas, uma vez que são os setores “fundamentais” para a economia dos Açores: “O turismo é, claramente, um dos pilares da economia dos Açores. Pode complementar muito a nossa base, que é ligada ao agroalimentar, ao leite e à carne, para nós termos uma economia mais forte“.
Ao todo, o Grupo Finançor conta hoje com três hotéis e uma parceria com o grupo Jerónimo Martins, que já permitiu a abertura de muitos supermercados em várias ilhas dos Açores. Apesar do desafio, garante que esta é uma parceria “fantástica”. “Os Açores são um desafio à parte. A logística é muito mais complexa porque nós estamos a falar de ter vários supermercados em várias ilhas. A ilha mais pequena onde temos supermercados é Santa Maria, que tem 5500 habitantes. Mas eu continuo a achar que vale a pena investir nos setores onde ainda há oportunidades – o agroalimentar e o turismo“, revelou.
Contudo, reconhece que, regra geral, há pouca vontade de investir e de empreender devido às dificuldades do caminho: “Apesar dos apoios e dos incentivos europeus, que são generosos, o ambiente dificulta o investimento. A burocracia do Estado continua a dificultar muito. Aliás, eu acho que é muito difícil ser empresário em Portugal. E isso leva-me a pensar que os jovens têm de ter muita perseverança e capacidade de aguentar se quiserem lançar alguma coisa“.
“Nós temos imensa dificuldade em captar pessoas na área da engenharia zootécnica e da área da veterinária. Por outro lado, nas áreas de gestão e economia, é mais fácil. Mas, de qualquer forma, temos de ser capazes de ter algo interessante para apresentar aos mais jovens para eles se quererem a juntar a nós. Aqui acho que a liderança é fundamental porque inspira a confiança. Se mostrar que sabe o que está a fazer, se for justa na forma como toma as suas medidas, se for ambiciosa, esses valores naturalmente passam para as equipas”, continuou.
Esta visão otimista passa, também, para as perspetivas de futuro que Romão Braz tem para o Grupo Finançor, no qual pretende continuar a investir, nomeadamente na área da distribuição, mas também na oferta turística, onde pretende implementar projetos diferentes, com menos quartos e interface com o mar: “Os Açores são um produto único e vamos continuar a investir. Quero muito que a próxima geração – dos meus filhos e dos meus sobrinhos – percebam o que aqui está e o esforço que foi preciso para isso. Olhando para trás estou muito feliz pelo curso percorrido porque está a correr muito bem”.
Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan e da Scalpers.
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