BRANDS' ECO Empreender é mais fácil, mas ter sucesso continua a ser difícil
Hoje qualquer pessoa lança um produto digital num fim de semana com ferramentas de Inteligência Artificial. Mas conseguir que alguém o compre continua a custar o que sempre custou.
Tenho visto a mesma cena várias vezes nos últimos meses. Alguém com uma ideia para um negócio abre o ChatGPT e pergunta se vale a pena. A resposta vem entusiasmada: alto potencial de mercado, proposta de valor excelente. Uma pessoa sai daquela ‘conversa’ convencido e avança com o projeto; no entanto esses indícios não valem nada, e há vários estudos que explicam porquê.
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Em março de 2026 a revista Science publicou um estudo da equipa de Myra Cheng, em Stanford, que testou onze dos principais modelos de Inteligência Artificial (IA). Concluiu que estes sistemas concordam com os utilizadores 49% mais vezes do que um humano concordaria nas mesmas circunstâncias. Mesmo perante raciocínios errados, validaram a posição do utilizador em 51% dos casos. A explicação técnica está num método de treino chamado Reinforcement Learning from Human Feedback: respostas que agradam aos avaliadores humanos recebem melhor pontuação durante o desenvolvimento do modelo. Como agradar é mais fácil do que ter razão, o modelo aprende a concordar. Em abril de 2025 a OpenAI já tinha recuado numa atualização do GPT-4o precisamente porque ficou simpático demais para o gosto da própria empresa, mas no entanto era apenas o sistema a fazer aquilo para que tinha sido treinado.
Há um livro que descreveu este problema ainda antes da IA existir, “The Mom Test” de Rob Fitzpatrick. A ideia central é simples: se alguém perguntar à sua mãe se uma ideia de negócio é boa, ela vai dizer que sim. As mães tendem a apoiar e a dar carinho aos filhos, e a IA não é muito diferente. E em 2026 qualquer pessoa tem acesso a uma ‘mãe’, que está disponível a qualquer hora com argumentos de consultor de topo, o que ainda mais piora mais a situação.
A isto soma-se outra mudança. Construir um produto digital deixou de exigir uma equipa, meses de trabalho ou dezenas de milhares de euros em capital. Ferramentas como o Lovable ou o Cursor fazem isso em poucas horas, sem programar uma linha de código. Estas ferramentas servem para fazer protótipos depressa. Mas um protótipo construído numa tarde não confirma que existe mercado para ele. O empreendedor passa do “a IA disse que era boa ideia” para “já tenho o produto pronto” sem nunca ter dito uma palavra a um cliente potencial. A CB Insights, que analisou centenas de startups falidas, identificou a razão número um para o encerramento: 43% morreram porque ninguém quis aquilo que construíram. E esta percentagem vai decerto subir.
Já vi pessoas gastarem cinco mil ou dez mil euros, por vezes mais, no primeiro produto antes de descobrirem que ninguém o queria. Mais que o custo financeiro, o custo psicológico é por vezes maior, pois ao fim de tantas horas dedicadas é raro alguém querer admitir que estava a construir para um mercado imaginário.
Então o que se pode fazer para validar um negócio logo à partida? Pessoas. Concretamente, 10 ou mais conversas com potenciais clientes antes de começar a construir. Não para lhes mostrar a ideia (pois muitos vão ser educados, como qualquer mãe, e dizerem que o produto é bem), mas para perceber como resolvem hoje o problema, quanto dinheiro já gastaram a tentar resolvê-lo, e o que tentaram antes. As perguntas certas começam por “conte-me a última vez que…” em vez de “compraria isto se existisse?”. A primeira faz a pessoa lembrar-se de algo que aconteceu mesmo, que é onde estão os dados. Opiniões sobre cenários hipotéticos não valem grande coisa: ninguém é particularmente bom a prever o próprio comportamento futuro.
A IA tem um papel poderoso aqui, mas é outro. Em vez de “esta ideia é boa?”, as perguntas que valem a pena são deste tipo: “encontra os dez pontos mais fracos deste plano e ataca cada um”. Ou: “atua como um investidor cético e faz-me perguntas até eu desistir ou ficar mais convicto”. Usada assim, a IA é um parceiro de pensamento fenomenal.
Para Portugal isto importa, e para regiões emergentes como o Algarve ainda mais. O setor tecnológico está em forte crescimento, com mais empresas e cada vez mais fundos a apostarem em novas tecnologias. Mas crescer depressa não é a mesma coisa que crescer bem, e existe um risco real de parte deste capital, público e privado, acabar a financiar produtos elegantes com pitch decks impecáveis, validados pelo ChatGPT, sem um único cliente pago por trás. As incubadoras e os investidores fariam bem em exigir evidência concreta de descoberta de clientes, e não apenas apresentações bem ensaiadas.
A IA não vai desaparecer, e ainda bem, pois é uma ferramenta que vai literalmente mudar o mundo. Mas o empreendedor que a usa como único validador está a desperdiçar tempo e dinheiro antes mesmo de começar. Empreender está cada vez mais fácil, mas ter razão continua tão difícil como sempre foi.
Este artigo expressa apenas a opinião do seu autor, não representando a posição das entidades com as quais colabora.
Joaquim Nascimento é CEO da Kapisci, Professor Auxiliar Convidado na Faculdade de Economia da Universidade do Algarve e Presidente da associação Algarve Evolution. Licenciado em Economia no ISEG e MBA na Manchester Metropolitan University.
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