O estado do país entre as boas contas e o aperto das famílias
Há um país que cresce no papel e exibe as finanças públicas mais robustas das últimas décadas. Mas há também um país que não consegue comprar casa e esbarra numa produtividade que não arranca.
- Os partidos discutem no Parlamento o estado do país, que apresenta um cenário de alívio nas contas públicas, mas com desigualdades persistentes.
- Apesar da dívida pública ter diminuído para 89,7% do PIB e do desemprego ter atingido mínimos históricos, a produtividade continua a ser um problema estrutural.
- O aumento dos preços das casas e a falta de oferta no mercado habitacional agravam a situação da classe média, espelhando uma crise na habitação em crescendo.
Esta quinta-feira, no Parlamento, os partidos discutem o estado do país, tendo por base um país a duas velocidades com contradições em vários indicadores.
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No rigor das contas públicas, o cenário é de alívio inédito: a dívida afunda, o desemprego toca em mínimos de década e meia e o Estado acumula excedentes. Contudo, basta sair de São Bento e olhar para a fatura do dia-a-dia para dar de caras com uma economia onde comprar casa se tornou uma miragem para a classe média, e onde os salários, mesmo a subir, esbarram numa máquina que teima em não produzir mais riqueza por hora.
É assim no fosso entre o brilharete da folha de cálculo e o aperto do orçamento familiar que se joga a verdadeira temperatura política do país.
O retrato que emerge de cinco indicadores reunidos pelo ECO é o de um país que melhorou em boa parte dos indicadores macroeconómicos da última década e que, ao mesmo tempo, continua a ter dificuldade em traduzir esse progresso em qualidade de vida para uma parte significativa da sua população.
1) A economia ainda cresce, mas está a travar
Depois de crescer 2,2% em 2024, a economia nacional desacelerou para 1,9% em 2025, segundo os dados confirmados pelo Instituto Nacional de Estatística em fevereiro. Para este ano, o Banco de Portugal reviu em baixa as projeções, apontando agora para um crescimento de 1,8%.
A tendência é de abrandamento, num contexto em que as exportações praticamente estagnaram — cresceram apenas 0,4% em 2025 — e em que as tarifas comerciais dos EUA introduzem incerteza acrescida no enquadramento externo.
O que torna este abrandamento politicamente sensível é o contexto. Portugal cresce, mas cada vez menos acima da média da Zona Euro, e os contributos positivos vêm essencialmente do consumo interno e do investimento, não de ganhos de competitividade. A procura externa líquida teve um contributo negativo de 1,8 pontos percentuais para o crescimento de 2025, um sinal de que o motor das exportações, que tanto puxou Portugal na última década, está a perder força.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.
2) Dívida continua a descer a bom ritmo
No ano passado, a dívida pública ficou nos 89,7% do PIB, superando a meta do próprio Governo (que era de 90,2%) e representando uma descida de quase quatro pontos percentuais num só ano.
No primeiro trimestre deste ano, o rácio subiu ligeiramente para 91% do PIB, por efeito sazonal, mas a trajetória de médio prazo mantém-se descendente. Para comparação: em 2020, a dívida estava nos 134,1% do PIB.
Esta é, provavelmente, a história de sucesso mais silenciosa dos últimos anos. Vinte anos depois de Portugal ter estado à beira de um colapso das finanças públicas e de ter passado por um resgate, o país fechou 2025 com um excedente orçamental de 0,7%, superando todas as previsões e figurando num restrito lote de cinco Estados-membros da União europeia com as contas positivas.
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3) Desemprego em mínimos históricos
A taxa de desemprego fechou no ano passado nos 6%, o valor mais baixo desde 2011, num recuo de 0,4 pontos percentuais face ao ano anterior. Em termos absolutos, o país tinha 5,3 milhões de pessoas empregadas em 2025, mais 163 mil do que em 2024. O quadro parece sólido, até se olhar para os dados mais recentes.
No primeiro trimestre, o desemprego subiu para 6,1%, com a destruição de quase 40 mil postos de trabalho líquidos em apenas três meses. É um sinal de alerta que o debate no Parlamento dificilmente pode ignorar.
A taxa de subutilização do trabalho (que agrega desempregados, subemprego a tempo parcial e inativos disponíveis para trabalhar) desceu para 9,6% em dezembro de 2025, o valor mais baixo desde 2011, mas essa melhoria coexistiu com uma queda de 0,4% na produtividade ao longo do ano, enquanto os salários médios subiram 4,8% — uma combinação que fez disparar os custos do trabalho por unidade produzida em 5,3%. Ou seja, Portugal está a criar mais emprego sem criar mais riqueza por hora trabalhada, e isso é um problema estrutural que os sucessivos governos têm adiado resolver.
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4) A habitação que as famílias não conseguem pagar
Os preços das casas subiram 17,6% em 2025, o maior crescimento desde que o INE começou a medir este indicador em 2009, enquanto o valor total das transações atingiu 41,2 mil milhões de euros, com quase 170 mil habitações vendidas (recordes em ambas as categorias).
No primeiro trimestre deste ano a tendência não abrandou. Os dados do INE revelaram que entre janeiro e março, os preços das casas aceleraram mais 17,8% em termos homólogos, apesar de as transações terem recuado 8,7% em termos homólogos. Esta é a equação clássica de um mercado onde a oferta não consegue acompanhar a procura acumulada.
No mercado do arrendamento, a renda mediana dos novos contratos atingiu 9,46 euros por metro quadrado no primeiro trimestre, uma subida de 9,1% em relação ao período homólogo. Para um trabalhador que recebe o salário mínimo de 920 euros, os números não fecham e provavelmente nunca vão fechar enquanto não houver mais oferta no mercado.
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5) Alarga-se o fosso entre salários e produtividade
No ano passado, a remuneração bruta mensal média por trabalhador atingiu 1.694 euros, um crescimento de 5,6% — acima dos 4,7% definidos no Acordo Tripartido sobre Valorização Salarial.
Além disso, o salário mínimo chegou a 920 euros, mais 50 euros do que no ano anterior, o que representa uma subida de 5,75%, e os ganhos reais de poder de compra estimados para 2025 foram de 3,2%. Contudo, a produtividade por hora em Portugal ficou 28% abaixo da média europeia em 2025.
Aumentar salários é indispensável e politicamente urgente, mas fazê-lo sem ganhos de produtividade equivale a distribuir hoje o que ainda não foi criado, com consequências previsíveis para a competitividade das empresas e para a inflação.
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