Delta injeta 3 milhões e só paga 36% das dívidas para salvar produtor de cápsulas de café
Plano de recuperação prevê perdão de dívida de 64% e a manutenção de 32 empregos. Empresa do grupo Nabeiro fica como acionista única da Mocoffee da Azambuja e paga seis milhões aos credores.
A Delta vai avançar com uma injeção direta de três milhões de euros na fabricante de cápsulas de café Mocoffee, que estava à beira da falência com dívidas de 23,4 milhões de euros. O plano de recuperação prevê um perdão de dívida de 64,4%, com a empresa do grupo Nabeiro, que ficará mesmo como acionista única da produtora da Azambuja, a comprometer-se a pagar de uma assentada os restantes seis milhões aos credores comuns.
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A versão final do plano entregue ao tribunal no âmbito do Processo Especial de Revitalização (PER), a que o ECO teve acesso, explicita que será realizada uma operação de redução do capital da Mocoffee para zero euros para cobertura de prejuízos, acompanhada de um aumento de capital de 1,5 milhões de euros integralmente subscrito pela Delta, com a investidora a realizar ainda prestações acessórias no mesmo valor.
Por outro lado, ao contrário do que prometia o plano inicial – o pagamento aos credores comuns de 100% de capital ao longo de 12 anos –, a solução final prevê, afinal, um perdão de dívida de 64,4% que “resulta de uma análise e decisão da Delta, que apenas aceitou comprometer-se com a aquisição da Mocoffee na condição de o passivo ser reduzido para níveis que permitam à empresa operar de forma viável e sustentável no futuro”.
“Atendendo à análise das projeções financeiras e da capacidade de geração de caixa da Mocoffee feita pela Delta, o perdão proposto é o que é compatível com a execução sustentável do plano e com o investimento que terá de realizar. (…) Esta solução, embora exija perdão à generalidade dos credores comuns, é a única que permite manter a empresa em atividade, preservar postos de trabalho e possibilitar relações comerciais futuras”, justifica.

Em contrapartida, a empresa de Campo Maior paga “de forma imediata, através de uma única prestação” o valor não perdoado. Ou seja, contabiliza o mesmo documento, um valor total que deverá rondar os 6,5 milhões de euros, incluindo 5,5 milhões correspondentes a 35,6% dos créditos comuns no montante de 15,4 milhões, e ainda os valores em dívida emergentes de leasings e contratos de aluguer de equipamentos operacionais.
Embora admita que o perdão represente um “sacrifício” para os credores abrangidos, alega que este refinanciamento “representa um compromisso financeiro adicional e significativo, que permite assegurar o pagamento imediato (…) de um valor significativo e que nunca conseguiriam recuperar em liquidação, em que receberiam um valor estimado de 4,8% dos seus créditos e, provavelmente, apenas daqui a 3 a 5 anos”.
Como o ECO noticiou em abril, com uma fábrica na Zona Industrial da Azambuja dimensionada para produzir 350 milhões de cápsulas de café por ano, a Mocoffee, que era liderada por Ricardo Flores – o CEO da Delta, Rui Nabeiro, assumirá agora a presidência do conselho de administração – avançou com um Processo Especial de Revitalização (PER), um mecanismo jurídico que permite a empresas em dificuldade financeira ou insolvência iminente negociar com os credores para evitar a falência.
Não se prevê a adoção de quaisquer medidas com consequências relativas ao emprego – designadamente, despedimentos, redução temporária dos períodos normais de trabalho ou suspensão de contratos de trabalho.
Com o BCP e a CGD à cabeça, ambos com créditos de 2,7 milhões de euros, a banca representa metade do valor da dívida da empresa, que também deve ao Estado: 185 mil euros ao Fisco e outros 200 mil à Segurança Social. De acordo com o plano final, os créditos garantidos, no valor global de 2,8 milhões, são detidos pelo Crédito Agrícola, BCP, CGD e SGM, “a favor de quem foram constituídas garantias reais sobre bens da propriedade da Mocoffee”. Serão pagos em “prestações trimestrais, progressivas anualmente ao longo de dez anos”.
Aos atuais 32 trabalhadores da fabricante é assegurado que “não verão a sua situação afetada” por este plano de recuperação. Não só os salários e valores devidos aos funcionários serão pagos dentro dos prazos normais, como “não se prevê a adoção de quaisquer medidas com consequências relativas ao emprego – designadamente, despedimentos, redução temporária dos períodos normais de trabalho ou suspensão de contratos de trabalho”.
Do café a triplicar à entrada “estratégica” da Delta
Na busca de um novo investidor que pudesse aportar capital à empresa e lhe permitisse fazer face à situação de capitais próprios negativos em que se encontra (quase 1,3 milhões de euros à data de maio), a entrada da Delta como acionista, com a substituição integral da administração, não limita este plano a “um mero reescalonamento de dívida”, mas permite à Mocoffee “iniciar uma nova trajetória de crescimento, que um investidor meramente financeiro não poderia assegurar”.
“A entrada da Delta no capital social da Mocoffee tem um impacto estratégico determinante. Além do reforço dos capitais próprios, a devedora passa a integrar a esfera de um operador de referência do setor, com acesso a cadeias de fornecimento de café, a conhecimento técnico, a capacidade industrial instalada e a redes comerciais e de distribuição nacionais e internacionais”, sublinha o plano.
Mas, afinal, o que colocou em dificuldades esta empresa que compra, torra, mói e coloca o café dentro de cápsulas – exporta cerca 90% para clientes que distribuem com a sua própria marca – e cujas origens remontam ao negócio fundado há 35 anos por Eric Favre, inventor da cápsula monodose de café e primeiro CEO da Nespresso? Ter triplicado o preço do café nas bolsas mundiais em 2024, com “impacto direto e significativo na tesouraria das empresas do setor” e várias empresas de trading a não conseguirem manter os limites de crédito e níveis de stock adequados.
“O impacto desta conjuntura refletiu-se diretamente na Mocoffee pela escassez de fornecimento de café por parte dos seus principais fornecedores; e pela alteração das condições de pagamento, que passaram de um prazo de 90 dias (habitual no setor) para um regime de pré-pagamento, o que originou dificuldades de tesouraria. Além disso, verificou-se um nível acentuado de incumprimento dos contratos de distribuição de café, o que deixou a Mocoffee sem acesso a esta matéria-prima junto de alguns produtores da cadeia inicial”, contextualiza.

Entre julho de 2024 e maio de 2025, a administração da empresa diz que tentou uma emissão de obrigações verdes para substituir a dívida de curto prazo por dívida de médio e longo prazo, que não avançou “por falta de decisão formal dos bancos envolvidos”, o que “aliado à ausência de reforço dos plafonds bancários, fez com que tivesse de suportar integralmente os impactos do aumento do preço do café”, refere.
Nota, por outro lado, que desde a abertura da fábrica na Azambuja, onde a partir de outubro de 2023 passou a concentrar a totalidade da produção, os fluxos de caixa disponíveis e o investimento dos acionistas foram canalizados para essas instalações e para a aquisição de equipamentos com o objetivo de aumentar a capacidade produtiva.
“As vendas da Mocoffee não têm sido suficientes para solucionar a falta de liquidez sentida pela empresa, nem para garantir o cumprimento pontual das suas obrigações dentro dos prazos estabelecidos. A situação veio a deteriorar-se, tanto que durante o ano de 2025 foram instauradas diversas ações executivas contra a devedora [em dezembro, o Banco Montepio avançou com quatro no valor agregado de quase 1,7 milhões de euros], o que também contribuiu para a apresentação a PER”, conclui.
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