Calor extremo em Portugal provocará perdas de 2% no consumo e 6% no investimento até 2030
Custo económico do stress térmico transmite-se através de menos consumo das famílias e redução do investimento. Perdas de PIB até 2030 poderão atingir entre 5% e 7% nas economias mais expostas.
- O calor extremo está a emergir como um risco económico significativo na Europa, com Portugal em alerta vermelho devido às altas temperaturas.
- As ondas de calor poderão resultar numa queda de 1,9% no consumo e de 6% no investimento em Portugal entre 2026 e 2030, segundo a Allianz Research.
- As pressões económicas provocadas pelo calor extremo podem comprometer as finanças públicas, com uma pressão adicional estimada em 1% do PIB no caso português.
O calor extremo está a emergir como um risco económico, com a Europa particularmente exposta. Portugal é um dos países afetados, com pelo menos uma dezena de distritos em aviso vermelho devido às altas temperaturas, até domingo. O fenómeno provoca perdas para a economia e, de acordo com os economistas, as ondas de calor poderão levar a uma queda de 1,9% no consumo e de 6% no investimento entre 2026 e 2030.
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“A atual onda de calor tem vários impactos. Se não tivermos os ares condicionados ligados, têm impacto negativo na produtividade laboral, aumentam os custos com a saúde e com a energia, existem prejuízos na agricultura, podem ocorrer danos nas infraestruturas, além de eventuais impactos no turismo, a que se soma o risco de incêndios florestais”, elenca Óscar Afonso, economista e diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto em declarações ao ECO.
De acordo com uma análise da Allianz Research sobre o impacto económico das ondas de calor, as perdas acumuladas implícitas de Produto Interno Bruto (PIB) até 2030 poderão atingir entre 5% e 7% nas economias mais expostas: 240 mil milhões de dólares em França, 354 mil milhões no Japão, 147 mil milhões em Itália, 131 mil milhões na Alemanha e 120 mil milhões em Espanha.
Embora os economistas não avancem com estimativas globais para Portugal, destacam que o país é um dos mais expostos às ondas de calor. Neste sentido, e tendo em conta que, o custo macroeconómico do stress térmico, isto é, quando o corpo não consegue manter a temperatura entre 36 e 37 graus Cº, se transmite através do enfraquecimento do consumo das famílias e uma redução do investimento, as estimativas da Allianz Research apontam para reduções em Portugal de 1,9% no primeiro caso e de 6% no segundo.
Estimativas indicam que perdas acumuladas implícitas do PIB até 2030 poderão atingir entre 5% e 7% nas economias mais expostas.
Mas Portugal não é caso isolado. “Em praticamente todos os países onde o cenário de stress térmico gera perdas económicas, a redução da formação bruta de capital fixo supera a diminuição do consumo privado, muitas vezes por uma margem significativa”, pode ler-se no relatório. A título de exemplo, segundo as projeções, em Itália, as perdas no consumo ascendem a 4,2%, enquanto o investimento sofre um colapso de 12,8%, enquanto França e a República Eslovaca, as duas economias mais afetadas, registam quebras no investimento de 14,7%, acompanhadas por reduções do consumo de 5,9% e 6,5%, respetivamente.
“Esta diferença entre a resposta do consumo e do investimento reflete um poderoso mecanismo de amplificação. À medida que o stress térmico reduz o produto potencial e comprime as margens das empresas, diminui a rentabilidade esperada de novos investimentos em capital, desincentivando o investimento. A redução do investimento compromete, por sua vez, a capacidade produtiva futura, reforçando o choque inicial sobre a produtividade e criando um efeito de travagem que se autoalimenta na trajetória de crescimento da economia”, explicam os economistas.

Para além do impacto no consumo e no investimento, o comportamento conjunto dos preços no consumidor (IPC) e da taxa de desemprego no cenário de stress revela uma natureza estagflacionista do choque provocado pelo calor extremo, uma conclusão com implicações diretas para a política monetária e orçamental.
De acordo com o estudo da Allianz, se nas economias mais frias, como a Finlândia, Irlanda, Dinamarca, Áustria e Suíça, os ganhos modestos de produtividade associados a níveis de stress térmico abaixo do limiar crítico aumentam a capacidade de oferta da economia, aliviando as pressões sobre os preços e reforçando simultaneamente a procura de trabalho, nas economias mais quentes da amostra — República Checa, Alemanha, Espanha, Portugal, Grécia, Japão, França, Itália e Eslováquia — o quadro inverte-se. Assim, “tanto os preços como o desemprego evoluem na mesma direção desfavorável, uma característica típica de um choque negativo do lado da oferta“.

Para Espanha, por exemplo, é esperado que a inflação registe um aumento acumulado de 1,9%, acompanhado por uma subida de 2,45 pontos percentuais na taxa de desemprego, enquanto França, Itália e Eslováquia registam aumentos dos preços entre 3,2% e 3,7%, combinados com subidas do desemprego entre 0,86 e 1,51 pontos percentuais.
A análise conclui ainda que, em média, os saldos orçamentais dos países europeus poderão deteriorar-se em cerca de 0,5% do PIB por ano devido ao stress térmico, criando, o que os economistas da Allizans alertam, uma tensão estrutural entre o impacto orçamental provocado pelo calor e o nível de investimento necessário para adaptação a esses efeitos.
A análise conclui ainda que as pressões associadas ao calor extremo são suficientemente significativas para colocar em risco as finanças públicas mesmo de países que ainda apresentam alguma margem de manobra e menos condicionados imediatos. É o caso de Portugal, com uma pressão adicional relacionada com o calor estimada em 1% do PIB, a par de Grécia (1,5% do PIB) ou os Países Baixos (0,2% do PIB).
Impacto negativo no PIB per capita de 0,8% em 2050
O impacto do stress térmico poderá reduzir o PIB per capita português em 0,8% em 2050 e em 4,5% em 2100, de acordo com dados citados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) no último “OECD Economic Surveys: Portugal 2026”.
Embora realce que a quantificação dos custos seja “intrinsecamente difícil”, a organização assinala que as estimativas existentes apontam para “danos potenciais significativos“. Como exemplo, aponta para a extensão em cerca de um mês a época de incêndios até 2040, num cenário de manutenção das tendências atuais.
Neste sentido, recorda que, entre 1980 e 2023, os fenómenos meteorológicos e climáticos extremos em Portugal provocaram 20.339 mortes e 17,6 mil milhões de euros em perdas económicas, com os incêndios florestais de junho e outubro de 2017 a causaram mais de 100 vítimas mortais e prejuízos próximos de 1,5 mil milhões de euros.
“As alterações climáticas deverão implicar custos significativos para as pessoas e para as empresas, bem como riscos acrescidos para a vida humana. Por um lado, estes custos resultam da necessidade de adaptação das empresas a mudanças lentas e progressivas”, adverte a OCDE.
Para a organização, por exemplo, empresas do setor do turismo poderão ter de relocalizar as suas atividades devido à subida do nível do mar e à erosão costeira, enquanto empresas agrícolas poderão ser obrigadas a substituir culturas por outras menos dependentes da irrigação, perante o aumento das perdas associadas a pragas.

Portugal é o 47º país mais exposto ao risco de catástrofes
Portugal ocupa a 47.ª posição entre 191 países em termos de exposição ao risco de catástrofes naturais, de acordo com uma análise do Fundo Monetário Internacional (FMI). Num relatório divulgado em maio, a instituição aponta as secas, os incêndios florestais, as temperaturas extremas e as tempestades como os tipos de desastre mais frequentes, tendo aumentado “tanto em frequência como em intensidade, o que resultou em perdas de cerca de 3,2 mil milhões de dólares entre 2008 e 2024″.
“A combinação entre o clima e a ocupação do solo torna Portugal um dos países europeus mais propensos a incêndios rurais. Os episódios mais extremos da história recente ocorreram sobretudo nos últimos vinte anos, com destaque para os anos de 2003, 2005 e 2017”, alerta.
Nas estimativas do FMI, os custos anuais associados aos incêndios são estimados entre 60 e 140 milhões de euros, embora o grande incêndio de 2017, por si só, tenha provocado prejuízos próximos de 1,5 mil milhões de euros. Neste contexto, estima-se que estes fenómenos possam conduzir a uma redução do PIB per capita de 2,46% até 2050 e de 7,75% até 2100.
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