Tecnologia só traz valor quando há confiança

  • ECO
  • 24 Junho 2026

Num painel sobre energia, saúde e defesa, três especialistas mostraram que, apesar dos ritmos diferentes em cada setor, todos enfrentam o mesmo entrave: a falta de regras claras e dados fiáveis.

A conferência Transição das Infraestruturas, organizada pelo ECO com apoio da Siemens Portugal, dedicou um dos seus painéis a três áreas onde a tecnologia tem hoje um papel decisivo: energia, edifícios e indústria. Moderado por Tiago Freire, subdiretor do ECO, o debate juntou José Neves, presidente da Comissão de Defesa da AED Cluster Portugal, Carlos Paulino, Managing Director Portugal da Equinix, e Francisco Ramos, economista e antigo secretário de Estado da Saúde.

Escolha o ECO como fonte preferida no Google

Escolher
Moderado por Tiago Freire, subdiretor do ECO, o debate juntou José Neves, presidente da Comissão de Defesa da AED Cluster Portugal, Francisco Ramos, economista e antigo secretário de Estado da Saúde, e Carlos Paulino, Managing Director Portugal da Equinix

A conversa começou pelos data centers, apontados como exemplo de um setor que já aprendeu a conjugar crescimento com eficiência. Carlos Paulino reconhece que existe sempre tensão entre as duas variáveis, mas defende que essa pressão tem sido, na verdade, um motor de inovação. “Os data centers são o bom aluno da turma”, considera, recordando que o setor praticamente não queima combustíveis no local e procura cada vez mais energia certificada de origem renovável para todo o restante consumo.

Para o responsável da Equinix, o objetivo deixou de ser apenas poupar recursos, passando a ser conseguir mais capacidade computacional por cada unidade consumida, um caminho que a inteligência artificial veio acelerar, ainda que traga novos desafios de densidade, arrefecimento e calor residual.

Carlos Paulino lembra também que nem todos os data centers nascem iguais, e que existem infraestruturas de proximidade e outras dedicadas ao treino de modelos de inteligência artificial, com exigências de design muito distintas. Para o futuro, antecipa o surgimento de data centers mais inteligentes do que intensivos, capazes de dialogar com as redes elétricas e devolver estabilidade ao sistema energético, com Portugal numa posição privilegiada para aproveitar esse momento.

Eu vejo o futuro dos data centers em Portugal numa reta absolutamente ascendente

Carlos Paulino

Managing Director Portugal da Equinix

O painel seguiu depois para a saúde, onde a lógica é necessariamente diferente. Francisco Ramos não esconde que a sustentabilidade ambiental continua a ocupar um lugar secundário nas prioridades hospitalares, e justifica essa escolha com a definição de prioridades. “Não podemos salvar vidas a todo o custo”, resume, explicando que a inovação tecnológica em saúde costuma somar-se à atividade já existente em vez de a substituir, o que normalmente aumenta a despesa em vez de a reduzir. Como exemplo, aponta a evolução dos custos com medicamentos num hospital oncológico, que em poucos anos passaram de um quinto para metade do orçamento total.

A tecnologia vai ter de ser substitutiva, vai ser indutora de eficiência e não apenas aditiva, como tem sido fundamentalmente até agora

Francisco Ramos

Economista

O economista lembra ainda que a confiança dos doentes na utilização dos seus dados clínicos, e a definição clara de responsabilidades quando algoritmos participam em decisões médicas, são hoje os principais obstáculos a um uso mais intenso da inteligência artificial no setor, que, diz, só se tornará verdadeiramente eficiente quando a despesa pública e familiar atingir os seus limites práticos. “A tecnologia vai ter de ser substitutiva, vai ser indutora de eficiência e não apenas aditiva, como tem sido fundamentalmente até agora”.

Defesa cada vez mais tecnológica

Já na defesa, José Neves pinta um retrato de transformação acelerada, ainda que partindo de equipamentos pensados há décadas e que só agora começam a ser substituídos. O responsável da AED Cluster Portugal, que agrupa muitas empresas do setor da Defesa em Portugal, destaca a crescente autonomia dos sistemas e descreve uma realidade em que cada vez menos pessoas estão diretamente envolvidas na decisão de disparar. “É armamento que está na cloud”, explica, referindo-se a equipamentos capazes de reagir sozinhos a ameaças identificadas, dos drones aos futuros caças de sexta geração.

As empresas, no desafio de se adaptarem, têm que realmente pagar salários superiores

José Neves

AED Cluster Portugal

O especialista sublinha também o desafio de reter talento qualificado num setor em que a procura internacional é elevada e os salários no estrangeiro continuam a ser mais atrativos. “As empresas, no desafio de se adaptarem, têm que realmente pagar salários superiores”, aponta. Por outro lado, destaca, a indústria portuguesa tem um papel crescente na indústria e é hoje responsável por mais de 20 mil postos de trabalho qualificados em projetos de aeronáutica, satélites e software de defesa.

José Neves recorda ainda que a aeronáutica já reduziu para menos da metade as emissões por passageiro nas últimas décadas, sinal de que até os setores exigentes conseguem mudar quando a pressão é suficiente, e apontou a “delivery era”, a capacidade de entregar a tempo aquilo que já foi encomendado, como o principal desafio da indústria de defesa europeia nos próximos anos.

Nos três setores, parece existir um consenso de que a tecnologia só é capaz de acrescentar valor real quando vem acompanhada de confiança, mas também de regulação adequada e capacidade de transformar dados em melhores decisões.

Assista à apresentação no vídeo abaixo.

 

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Tecnologia só traz valor quando há confiança

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião